Preconceitos

Sexta-feira, no “Público”, Vasco Pulido Valente escreveu sobre as eleições americanas e o que distingue os eleitorados de Hillary Clinton e Barak Obama. Em duas palavras, o primeiro é composto pelos “hispânicos” e pelos brancos pobres, a quem a cor de pele de Obama incomoda, e o segundo pelos negros e pelos brancos ricos e esclarecidos, livres de tais preconceitos. Desta descrição, retirou VPV a frase lapidar: “Isto que sirva de lição a quem acha o ‘povo’ puro e sem preconceitos”. Eu nunca duvidei que o racismo fosse um sentimento rasca, nem dia nenhum pensei que a pobreza por si só produzisse, como que por geração espontânea, algum tipo de pensamento elevado, progressista e libertador; mas também nem por um segundo duvidei que quem destruíu o apartheid (exemplo dos exemplos, infâmia das infâmias) foi o ANC dos pobres, não foi a Senhora Thatcher dos ricos.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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8 respostas a Preconceitos

  1. ezequiel diz:

    Caro António

    sem dúvida, foi o grande ANC que destruiu o apartheid! Bendito o dia em que o fez.

    mas a Thacther deve ter dado a sua ajudinha, dentro das suas possibilidades…suponho eu…

    caso contrário não seriam tão bons amigos! eh eh 🙂

    abraço, ezequiel

  2. maradona diz:

    Quem destruiu o apartheid foi a sua irrepreensível e universal condenação e o crescente isolamento internacionais. Essa crónica do vasco pulido valente está uma merda (como aliás também a de sábado).

  3. António Figueira diz:

    Caros dois,
    Deve ser por estar a ficar velho, mas ainda me lembro bem do que foi, nos anos do estertor do apartheid, a oposição da Thatcher e do Reagan a qualquer tipo de sanções ao regime. Independentemente das derivas posteriores do Mbeki, o ANC nessa altura estava muito longe de ser um “bom amigo”. A condenação do regime estava longe de ser universal (os governos ocidentais não fizeram uma palha por mudá-lo até praticamente ao fim) e de resto, por mais que o fosse, nada teria mudado se não fossem os de lá de dentro a dar o corpo ao manifesto.
    Abraços, AF

  4. Maria João Pires diz:

    A propósito… para quem se interessa por efemérides, Nelson Mandela foi libertado há exactamente 18 anos (http://www.youtube.com/watch?v=T2d3ENhn8Kg )

  5. P.Porto diz:

    Bom, caro Figueira, se reparar, não desmontou o raciocínio do VPV.

    Repare que o exemplo sul africano que dá serve tb para sustentar a lógica de VPV. Foi a elite esclarecida (e rica) do ANC que levou a um país onde há lugar para os brancos. Se o ANC tivesse sido arrastado pelo populismo pobre (e racista) de Mugabe, por exemplo, não haveria lugar para todos no novo regime.

  6. ezequiel diz:

    Caro António,

    concordo. Não disputo a tua tese: foi o ANC!

    O que eu estou a argumentar (era rapazote e segui o drama da África do Sul muito atentamente, era a minha “causa” preferida eh eheh e h..estou a rir, mas é a sério) é o seguinte: o ANC não era um grande amigo, é certo. O facto de muitos no ANC terem estudado no bloco soviético, não ajudava as coisas.(não só isto, é claro) Mas também não era um inimigo. Nas upper classes Britânicas da altura fala-se (e eu lia nos jornais) do drama sul africano com consternação. Por muitos com tristeza e revolta(muitos ANCs viviam em Londres). Os liberais Brits agarraram a causa com unhas e dentes. O mesmo nos EUA. Reagan foi um conservador mas nunca foi um racista. (existem outras razões, imagino eu) Existia um consenso mais ou menos alargado nas classes dirigentes (bolas, para não falar na Sua Majestade…amiga de sempre do Nelson!!) de que o apartheid era uma aberração, uma imoralidade intolerável. Caro António, se visitares os jornais da altura-estão todos online-perceberás o que estou a tentar dizer.

    Quanto às sanções: O estado aparthaidesco era um estado imoral…mas muito eficaz. A AS não teve qualquer dificuldade em ultrapassar os efeitos das sanções. (ou, melhor, as classes dirigentes da AS não tiveram qualquer dificuldade…os pobres, como sempre, lixaram-se no meio da história!) Reagan sabia disto porque Thacther, perspicaz como era, tinha-lhe dito. É conhecida a influência de Thacther sobre Reagan. Os yanks ouvem os brits (e fazem muito bem).

    O que Thachter fez, seguindo aquela implacável lógica do mercado (chama-lhe rational choice ou decision science ou game theory..call it what U like ! 🙂 :

    enquanto intensificava a interdependência do regime com a GB e a CEE afirmava, in no uncertain terms, o seu apoio incondicional por todas as reformas sociais e políticas. Repara: a AS não era um risco para a segurança do “ocidente.” Todos, incl os sovietes, sabiam que o partheid era intolerável e que, mais dia menos dia, a coisa mudaria. A situação era propícia: existiam dois gigantes a lutar por território. Teria que mudar. Em que direcção? Está é que, suponho eu, deve ter sido a grande questão estratégica. Se o regime apartheidesco fosse completamente isolado, não teria outra opção senão virar-se de corpo e alma para os sovietes. E, claro, ninguém queria isso em Londres e em Washington.

    Como dizes, foi o ANC.

    Mas não foram as sanções, meu caro.

    desculpa lá o bla bla, mas eu, quando era puto…adorava (e adoro) o grande Mandela…já o ouvi falar!! Não é perspicácia. Não é calculismo. Não é o carisma. O homem é um Sábio. Sempre que me sinto meio deprimido on account of present events, olho para a cara deste homem e sinto-me muito melhor.

    grande abraço
    ezequiel

  7. ezequiel diz:

    e o sr Vasco Pulido Valente…gross oversimplifications about the Obama campaign! mas o homem gosta de falar-escrever sobre tudo…faz muito bem…mas quem fala sobre tudo o tempo todo tem que se enganar lá de vez em quando eh ehe eheh e h eh a lógica é uma coisa implacável! 🙂

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