Uma visita ao MNAA (1)

Há umas semanas, resolvi revisitar um daqueles antros de cultura subsidiada que os nossos amigos liberais tanto abominam: o Museu Nacional de Arte Antiga. Gasto um quarto de hora em busca de estacionamento e entro por fim no simpático palacete. Aqui, dou logo de caras com a primeira “obra” em exposição:

mnaa.jpg

Em resumo: metade do MNAA está encerrada por falta de pessoal vigilante. Ao perceber a minha irritação, a simpática funcionária da bilheteira propõe logo uma solução bem portuguesa: pagarei apenas meio bilhete. Há quase um ano, aconteceu-me episódio similar, noutro país não muito desenvolvido: chegando às termas de Antonino, nas ruínas de Cartago, a pouco mais de uma hora do encerramento, acabei por pagar apenas um bilhete para duas pessoas — aqui a diferença foi que não houve papelito para ninguém.
Minutos depois, a segunda surpresa: num folheto (de 2005), reparo que as “10 obras de referência” afinal são outras que não as anunciadas no site do museu. A documentação fornecida junto às peças em destaque também não diz respeito à lista e aos textos que me entretivera a ler. Afinal há dois elencos de “obras de referência” (apesar de um prestável vigilante me garantir que não), mas nenhum é visível por inteiro, dado o estado semi-comatoso do MNAA. Assim sendo, os Biombos Namban e outras obras orientais ficaram a aguardar dia mais propício, por força das circunstâncias. Começavam a acumular-se motivos de irritação com o museu, com a sua gestão passada e presente, com o Cosmos.
Imbuído deste afável estado de espírito, decidi explorar o acervo deste museu (a parte que consegui espreitar, pelo menos) em busca de pistas para entender o nosso crónico atraso cultural. E para explicar o abismo que separa o palácio das Janelas Verdes de um colosso inesgotável como o Prado.

A nossa idade de ouro, os anos em que fomos uma potência comercial e marítima de primeira grandeza, pouco espólio parece ter deixado aos vindouros, em termos de artes plásticas. O “longo século XV” que Fernand Braudel celebrou criou, em Espanha, condições para frequentes visitas de artistas estrangeiros e para o nascimento de uma “escola espanhola”, em que se integrou até um jovem pintor oriundo da Grécia sob domínio veneziano, Doménikos Theotokópoulos, hoje mais conhecido como “El Greco”. Isto apesar da débil estrutura mercantil que a Espanha deste tempo apresentava, preservando o quase absoluto poder da Nobreza e da Igreja e inviabilizando a implantação das cidades-estado que entretanto floresciam em Itália. Apesar deste factor, o Mediterrâneo serviu como porta de entrada e membrana porosa por onde se infiltraram obras e artistas que vieram a ter profunda importância no panorama artístico espanhol de então: a influência de mestres com Leonardo, Rafael e Giorgione foi crucial.
Em Portugal, recanto ainda mais periférico, as influências tardaram sempre mais e os vultos nacionais pouco mais que epígonos voluntariosos foram. Vemos-nos hoje condenados a inventar quebra-cabeças infindos a propósito de obras medianas como os célebres Painéis de S. Vicente, políptico onde nem a personagem central é de identificação certa (um santo desprovido de todos os seus atributos é coisa algo inverosímil e o S. Vicente atado à coluna também atribuído a Nuno Gonçalves apresenta escassas parecenças com o seu “duplo” dos painéis), e onde até talvez falte algum elemento, como podem sugerir as incongruências de iluminação. De caminho, esta obra deu-nos um “infante D. Henrique” que provavelmente não o é (o anacronismo do seu chapéu sugere personagem anterior à feitura dos painéis) e argumentos quase “guinessianos” em sua defesa, como o facto de não haver “nenhum outro pintor a pintar 60 figuras, caracterizadas individualmente daquela forma” (Anísio Franco) — esquecendo obras coevas como o retábulo de Ghent ou o Juízo Final, só para evocar o trabalho de Jan Van Eyck…
Nem os Descobrimentos nos valeram de muito, neste campo: a interacção com as culturas visitadas era sobretudo da ordem da dominação: o “império” português apreciava sobremaneira ver-se reflectido no lisonjeiro espelho do artesanato “exótico”. Os Biombos Namban, o Contador Mogol… a popularidade entre os europeus era certa se o artífice os retratasse em todo o seu guerreiro esplendor. E nada mais chique do que acolher visitas ilustres em refeições guarnecidas com loiça da Companhia das Índias decorada com as armas da família. O Pote dos Agostinhos revela-nos que nem uma ordem mendicante conseguia resistir às tentações deste tipo peculiar de ostentação colonialista.
Podemos nunca ter tido um rei iluminado pela graça do gosto pelas artes, um mecenas poderoso e abonado que constituísse por cá espólio duradouro. Mas nunca nos faltaram, mal começou a fluir o ouro do Brasil, ourives de talento, como Johan Van Stay, autor da sumptuosa obra-prima da ourivesaria gótica que é o Relicário da Rainha D. Leonor.
Decididamente, a corte portuguesa preferia o brilho do ouro e da prata às subtilezas da têmpera e dos óleos (claro está que, quando a afluência se foi, tratámos de derreter tudo, literalmente: a fabulosa Custódia de Belém, feita a partir de um tributo de 500 moedas de ouro oriundo da actual Tanzânia, teve de ser resgatada do cadinho da Casa da Moeda por um estrangeiro, o Rei Consorte D. Fernando, que também tratou de salvar com o seu pecúlio os Jerónimos, o Mosteiro da Batalha e a Torre de Belém).
Perdemos assim a oportunidade de fazer florescer entre nós algo sequer vagamente similar aos gigantes artísticos que enriqueceram a vizinha Espanha: não tivemos equivalentes a pintores como Diego Velázquez ou Francisco Goya (muito menos a figuras mais contemporâneas…), nem sequer soubemos atrair artistas estrangeiros que por cá deixassem vestígios dignos de nota — como o conjunto impressionante de obras de primeira água que Rubens executou em Espanha, hoje reunido num dos centros gravíticos da colecção do Prado.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

2 respostas a Uma visita ao MNAA (1)

  1. al diz:

    Creio que todos os que foram ao Prado farão a comparação. A questão, porém, começa logo no motivo porque fazemos esse exercício. Doa-nos ou não, mesmo quando em épocas de agudo cosmopolitismo (Sá de Miranda – Camões, os Vencidos) não pertencemos ao mundo que é o da Espanha e desde a simples comparação até ao delirante olhar de desdém – ainda recente – tudo releva apenas deste provincianismo agora de novo tão impante e alimentado.
    Sempre que estou no Prado (agora ainda maior…) arranjo um modo de me dizer, sem corar demasiado, que o pai do Velasquez era do Porto, carago.

  2. JOÃO PEREIRA diz:

    A pintura espanhola do século XVI não é assim tao superior à portuguesa da mesma época. Aparte El Greco, Morales, e Juan de Juanes, o restante panorama pictórico espanhol não me parece ser superior ao lusitano. Fernando Llanos, Fernando Gallego ou Yanes de la Almedina são, quanto a mim, pintores menos interessantes que Jorge Afonso, Gregório Lopes, Frei Carlos e Venegas.

Os comentários estão fechados.