Portugal exangue?

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Hoje, o Rádio Clube anda às voltas com o tema do sangue. Melhor: da falta de sangue. Ao que parece, os stocks dos nossos hospitais estão em petição de miséria. Afinei o ouvido, prevendo mais uma confirmação das minhas suspeitas sobre o (mau)carácter genericamente egoísta do português. Não tive de esperar muito. Dias Loureiro, com uma longa e metódica arenga, tratou de explicar tudo: começámos por viver em aldeias solidárias e generosas, por obra da necessidade e da indispensável “moral judaico-cristã”. Depois, emigrámos para as cidades, onde ainda conseguimos manter por uns tempos esse lindo espírito de entreajuda. O pior foi quando chegou uma tal de “suburbanização”: deixámos de conhecer os vizinhos e daí a deixarmos de dar sangue foi um minúsculo passo. Perniciosa revelou-se também a adopção de “políticas sociais”: os seus aspectos positivos logo se viram sobrepujados pela fraqueza inata do tuga. Este deixou de fazer pela vidinha e ficou a aguardar, em jubilosa esperança, que tudo saísse da inesgotável cornucópia estatal. A ajuda ao próximo perdeu sentido e urgência.
Parece uma boa explicação para a falta de sangue? Mas não é.
Gabriel de Olim, do INS, tratou de colocar a questão na perspectiva certa: o problema é de excesso de procura, não de escassez de oferta. O aumento de cirurgias, nomeadamente de transplantes, e o aparecimento de novos hospitais privados são os culpados da falta de sangue. Os portugueses não ficaram mais egoístas, pelo menos neste aspecto. Muito ao contrário. Nos últimos cinco anos, as colheitas de sangue têm aumentado à razão de quase mil por mês. Afinal, não somos assim tão egoístas como isso.
Moral da historieta: fazer grandes análises sociológicas baseadas apenas nuns palpites nebulosos, não cuidando de apurar os factos, dá sempre mau resultado.

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