Hábitos velhos

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Rui Castro descobriu-me a careca: que não acalento o saudável hábito de consultar fontes e que gasto os dias a tresler os escassos parágrafos que me passam pelas retinas. Ora poças: e eu a pensar que estas minhas pechas eram óbvias e até quase famosas…
A TSF, conhecido coito radiofónico de leninistas empedernidos, também leva: “como tem vindo a ser apanágio”, impingiram-me, os malandros, uma notícia que “não corresponde à verdade” (aliás, o Rui já tinha dado pela coisa há meio ano).
Mas onde é que eu e os camaradas hertzianos metemos água? Simples: ao afirmar que a “CAP defendeu o direito a despedir até por razões ideológicas”.
Estranho. Ia jurar que me lembrava perfeitamente de ouvir o secretário-geral da citada organização responder à pergunta “assim sendo, alguém pode ser despedido por motivos políticos e ou ideológicos?” de forma mais ou menos clara: “essa é a faculdade de quem está empregado e a faculdade de quem é empregador. Portanto esse é mais um artigo.” E, não fosse alguém com uma obtusidade similar à minha tresler a sua intenção, acrescentou: “todas as razões devem ser consideradas válidas para, quaisquer que elas sejam, para flexibilizar o mercado de trabalho”. Depois, João Machado ainda arranjou fôlego para explicar que se alguém pode despedir-se por não gostar da ideologia do patrão, o inverso também devia ser possível.
Nesta hora contrita, resta-me pedir desculpa ao Rui por não ter consultado uma tal “página 3 de um documento”, com a posição comum das confederações patronais. Mas o que eu escrevi — “ainda há dias a CAP defendia o direito a despedir até por razões ideológicas” — parece confirmado pelas palavras do chefe da mesma. E desconfio que o tal documento (hoje inacessível) clama por algo ainda mais extremo: a liberalização absoluta do despedimento individual, situação que acolheria, por sua vez, as razões citadas.
Quanto ao desafio final do Rui — “se por acaso forem trabalhadores que façam a apologia do fascismo ou do racismo, já te parece bem o despedimento?”— só posso responder que, como empresário, esse fado até já me tocou. Mas não me passa pela ideia despedir um caramelo que manda bocas “aos pretos”; faço caretas, respondo com uns palavrões e pronto. A idiotice pode incomodar mas ainda não é crime. E, na minha pobre cabeça tresleitora, só será motivo para despedimento quando traduzida em incompetência.

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3 respostas a Hábitos velhos

  1. joão viegas diz:

    Esta muito bem dito salvo na ultima parte, em que cai na esparrela armada pelo seu adversario. Vai uma grande diferença entre ter uma opinião (nunca poderia despedir um trabalhador por ser, de esquerda, de direita, ou mesmo racista ou fascista) e adoptar comportamentos ofensivos (insultar, denegrir, invectivar, etc) de tipo racista. No segundo caso, estamos perante actos culposos, que constituem atentados à dignidade dos outros trabalhadores. Portanto tem plena legitimidade para despedir o trabalhador que manda bocas aos pretos, e isto não tem nada a ver com um despedimento “ideologico”.

  2. Luis Rainha diz:

    João, isso é partir do princípio que tenho por aqui funcionários que sejam directamente ofendidos na sua dignidade por esse tipo de bocas e anedotas imbecis. Mas não é o caso.

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