Ruim defunto, péssima cera?

 mst.jpg

Deve ser da idade. Ou resquícios mal digeridos da season natalícia. Facto é que pela segunda vez em dois dias dou comigo com vontade de dar razão a uma minha bête noire. Primeiro, veio o Paulo Portas; agora chegou a vez de Miguel Sousa Tavares.

Explico: há dias, um meu amigo jornalista abordou-me esfuziante: «nem imaginas a última: o “Expresso” ia publicar uma crítica negativa ao livro do MST até que ele a leu e anunciou que se aquilo saísse ele não escrevia mais para o jornal.» Achei graça ao pedaço de má-língua, que só confirmava as minhas suspeitas (sobre MST, sobre o tal livro, sobre o “Expresso”, sobre o funcionamento geral do Universo) e fiquei à espera de ler a “crítica”.

Agora, já o naco de prosa que supostamente destruía o “Rio das Flores” anda por online. Cruel desilusão. Eu, se fosse director de qualquer coisa, mesmo do “Notícias de Cervilhares”, também me teria recusado a publicar semelhante artiguelho. Num paleio de colegial desprovida de graça e de estilo, Dóris Graça Dias começa por se confessar incomodada, quase ofendida, pelo volume das pré-encomendas do romance. Como dar a volta ao empecilho da preferência popular? Fácil: saca de «uma simples balança de cozinha» e pesa a obra. Este valioso recurso epistemológico serve para situar logo o âmbito da coisa: trata-se mesmo de “crítica” de merceeiro (já agora, pesa 900g, o cartapácio).

O mais perto que a senhora se abeira de fazer crítica literária é em passagens pejadas de lugares comuns semi-compreensíveis ao nível de «é uma morna descrição de gestos pouco cinematográficos, um descritivo meio jornalístico». Valerá mesmo a pena sacrificar alguns eucaliptos e dois ou três litros de boa tinta para imprimir bacoradas destas? Mas a exegese de pacotilha prossegue com a identificação dos quesitos indispensáveis à feitura de opus que apaziguem o teclado feroz da “crítica”: «Romance, romance… como a palavra anda desgastada. Quanto mundo é preciso percorrer, aprender, ter para escrever um romance. Quanta atenção é preciso despender, quanta imaginação converter, quanta distância compreender.» Quanta sílaba inocente amarrada neste molho de inanidades pretensiosas, quanto fel desperdiçado…

Há por ali acusações a MST bem mais sérias: por exemplo, atreveu-se a ignorar que o hotel Negresco fica em Nice e não em Cannes. Pior: ousa desconhecer que para escrever um romance passável faz falta «perder-se e não julgar-se, à partida, encontrado» — Quanto Fernando Pessoa de trazer por casa, quanto «tom de Selecções do Reader’s Digest» na prosápia desta senhora…

A professora Dóris (a sério: parece que dá mesmo aulas algures) acaba por desvelar todo o seu programa quando se abalança para a estocada final: «Tudo o que MST disser sobre a sua própria escrita, o seu romance histórico é gratuito. Que o escreveu a pedido de muitas famílias, que passou três anos muito duros, quase dois a documentar-se e um fechado em casa a escrever, sem viajar: nada disto interessa a um leitor; nada disto interessa à literatura. É exactamente esta inversão de valores que faz de Rio das Flores uma obra menor, tão igual a um qualquer exercício de menino de escola semi-deitado de lado sobre o papel, trincando a língua num esforço de saliva e olhos estrábicos confluindo no bico da caneta.» A primeira frase nem sentido tem. A passagem que sublinhei a itálico é crucial: o que a “crítica” lobriga de profundamente errado no “Rio das Flores” não é o seu enredo, as suas carências de estilo, nem sequer o seu peso pantagruélico; não, a coisa é má porque o autor se gabou em público do trabalhão que ela deu. O romance não presta porque terá resultado de uma “inversão de valores” que colocou a transpiração antes da inspiração e o marketing antes do tal “ter mundo” que a senhora sentenciou ser indispensável ao génio. A parte do puto estrábico é só falta de ideias, maneiras e elegância.

Lamentável neste caso é que ele vem dar razão às manias de perseguição de MST. E lá tivemos de ler o seu enésimo lamento acerca da «gentinha medíocre e invejosa, que não sabendo fazer, pretende destruir quem faz.» Crítica literária não tem nada a ver com baboseiras do calibre de «Para escrever um romance há que ser um “flâneur” e não um “poseur”». Nem se limita à demolição absoluta que Vasco Pulido Valente aplicou às pretensões historicizantes deste mesmo romance — é aliás didáctico ver como VPV não resistiu, malgré lui, a dar umas bicadas desfocadas no milho literário: «Como romance de uma família, o Rio das Flores é pobre e vulgar. Há quem se entretenha com esta espécie de produto, mas não se trata com certeza de literatura»; o rigor hermenêutico não anda muito longe do da pobre Dóris Graça Dias. E, no entanto, é fácil reduzir o “Rio das Flores” à sua aparente pequenez sem ser mal educado nem pretensioso: o Zé Mário Silva já o fez há uns meses.

Note-se que não li a obra em (des)apreço. Nem tenho nada de pessoal contra o seu autor; apenas lamento as horas que gastei a ler parte significativa do medíocre “Equador”. Certo é que embirro irracionalmente com o homem: cada crónica sua que leio convence-me sempre da justeza do ponto de vista oposto. E a arrogância da pose de génio perseguido da criatura parece-me estulta e de todo injustificada. Mesmo assim, apesar de toda esta má-vontade, nunca me passaria pela ideia publicar, nem sequer num blogue, um naco de prosa como a “Redacção” da professora Dóris; tresanda a inveja, frustração e vontade de dar nas vistas.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

11 Responses to Ruim defunto, péssima cera?

  1. Vocês nunca leram as criticas de DGD, no Expresso?

    Provavelmente não, caso contrário não estariam tão admirados.

  2. Já agora devo dizer que não li o livro.

    Bastou o Equador para ver o que é a verdadeira literatura light

  3. luis eme diz:

    Não tinha pensado ler o romance de MST, mas o “pai natal” tem destas coisas…

    Antes de ler o “Rio das Flores” tinha lido as criticas de VPV e de JMS.

    E realmente a única critica séria é a de José Mário Silva. Tal como ele, penso que o romance que ultrapassa as seiscentas páginas, poderia muito bem ser reduzido para metade. Ficávamos todos a ganhar.

    É um romance vulgar, escrito sem grandes artificios literários. O pior para mim, é quando o narrador tenta dar lições de “história” (gordura pura…), com comentários nem sempre felizes.

    Tenho pena que a vaidade de MST, não o deixe aceitar que escreveu um romance banal, quase de cordel. Tenho o “Equador” na estante, à espera. Mas não sei… fiquei desiludido. Os contos de “Não te deixarei morrer David Crockett” prometiam, mas um conto é muito diferente de um romance…

    Espero que ele não se continue a iludir, continuando a pensar que os milhares que compraram o seu livro (tal como Saramago e Antunes), o vão ler…

  4. Luis Rainha diz:

    Confesso que já desisti do “Expresso” há uns meses…

  5. LR diz:

    Quer isso dizer que o director do jornal já tinha lido várias “críticas” da senhora e só agora descobriu que ela “escrevia numa revista de moda”…

  6. tj diz:

    …tanta pomba assassinada: o teu naco final de prosa lembrou-me a Nossa Simone de Oliveira!!! mai nada!

  7. CARLOS CLARA diz:

    Critique-se a obra, não o homem – alguém disse.

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Eu gostei muito da crítica, parecia um texto do MST. Com a vantagem de dizer mal de MST.

  9. Luis Rainha diz:

    Grande teoria da conspiração, Nuno: a tal Dóris é, na realidade, o MST disfarçado, a tentar reanimar as vendas. Aliás, ninguém me tira da cabeça que aquele blog que lançou o disparate do plágio do”Equador” tinha dedo de alguém interessado na sua promoção…

  10. Joana ES diz:

    Já deixei deler o Expresso há que tempos, por isso vou perdendo estas pérolas. Obrigada Luís, mas sobretudo pelo links para o Zé Mário Silva (brilhante).

    Já agora, o texto do VPV anda por aí algures (ainda não desisti de ler o Público, mas nunca cheguei a ler a “tal crítica”).

    Gracias

  11. ruibarbo diz:

    Não percebo. O Miguel nunca estrebuchou com os textos da Dóris. E agora que lhe toca a ele, faz chantagem com o espesso? Já vi porcaria mais limpa.
    depois o miguel não escreve para ser lido; escreve para vender. Por isso é que a crítica do Zé Mário é no mínimo pateta.
    isto até daria azo a reflexão sobre crítica literária que é coisa que deixou de existir na nossa terra já vai para algum tempo. Os novos críticos limitam-se a contar a história e a enquadrá-la numas peripécias mais ou menos engraçadas que, na maior parte das vezes, podem ser sacadas da wikipedia. Mexias e companhias são exímios nesse estilo. Já para não falar das opiniões pessoais dos distintos críticos. Quando é será que aprendem que as suas opiniões, pessoais, não interessam para nada!

Os comentários estão fechados.