Que viva Guevara!

Amigo dos humilhados, protector das ofendidas, a sua fama ressoa entre nós desde há muito mais do que se pensa:

“Passava então por ser uma das mais lindas mulheres da classe média, em Lisboa, Maria Isabel, filha de um ricaço da Rua dos Tanoeiros […]. Aos quinze anos era a moça tão tentadora, os fidalgos tão tentadiços, e a honra das famílias tão menosprezada, que a mãe de Maria Isabel fez voto ao Santo António [que havia num nicho] acender-lhe luz toda a noite para que lhe vigiasse a filha enquanto ela fosse solteira: tamanha era a falta de iluminação e polícia na Rua dos Tanoeiros […]

Maria, ao princípio, balbuciava respostas evasivas a respeito de casar-se; porém, quando viu Domingos […] e o ouviu dizer-lhe umas palavras tão cândidas que mais o pareciam pelo que o rosto respirava de amorosa brandura, decidiu-se apaixonadamente.

No entanto, quando tudo era alegria na família, Maria Isabel escondia-se a chorar, e fazia promessas valiosas ao Santo António do sabido nicho em troca de um milagre de costa acima. Lá ao diante, formará o leitor conceito da natureza do milagre solicitado […]

Principiou na alcova conjugal, quando os anjos do amor e da ventura deviam vedar os umbrais dela à tristeza e à desgraça, uma secretíssima luta de desconfianças e lágrimas, de invectivas afrontosas e juramentos de mãos erguidas. Quem diria que, àquela hora alta da noite, uma formosa mulher, com as tranças desatadas em serpentes pelas espáduas convulsas, ajoelhava aos pés do marido, e, lavada em lágrimas, soluçava:

– Eu te juro que nunca amei outro homem! Não entendo as perguntas que me fazes! Fui criada no regaço de minha mãe! Nunca saí de casa senão para a igreja, e sempre com minha mãe! Os homens que para mim olhavam uma vez não me tornavam a ver… Não me perguntes se amei alguém neste mundo, que metes a tua alma no inferno, e me dás vontade de me ir afogar no Tejo com a minha vergonha!

Já se vai vendo que o Santo António do nicho assistia de longe e neutral a este lance.

A luz do dia seguinte não alvorejou na alma entenebrecida de Domingos […]. Apenas rompeu a manhã, o noivo saíu do tálamo como de um cavalete de tratos e foi em direitura procurar o seu antigo mestre de farmácia […]. Admitido à escrevaninha do matutino boticário do Hospital Real, revelou no lívido rosto o febril anseio de entender as anomalias possíveis na estrutura do corpo humano. Disse ele ao sábio em poucas e tartamudas palavras a ignorância que o atormentava.

[O boticário] ouviu-o cabeceando, baixou os olhos da testa sobre o promontório do nariz, ergueu-se silencioso, abeirou-se das altas estantes dos seus livros, e tirou as seguintes obras de medicina, que ia sacudindo da poeira, e atirando para sobre a banca: Amatus Lusitanus (ou João Rodrigues de Castelo Branco), Abraão Neemias, Tomás Rodrigues da Veiga, António Luís, João Valverde, Garcia Lopes, Averrois, Afonso Rodrigues de Guevara.

Quando desempoava o último, afirmava o douto boticário:

– Este físico é chavão na matéria, se bem me recordo.

E, recordando a lista alfabética das coisas notáveis, pôs o dedo infalível na questão sujeita, e disse ao ofegante interlocutor:

– Veja isso a páginas 488, coluna 1.ª.

O conteúdo da coluna 1.ª da página 488 da obra admirável, chamada ‘De re anatomica’, não se reproduz, em respeito às damas que se dispensam de saber anatomia […]. Qualquer que fosse, porém, o contexto da página consoladora, é certo que na face de Domingos transpareceu a claridade da interior alegria, e tanto era o desafogo, e desopresso o respirar do moço, que se abraçou ao seu antigo mestre […].

Maravilhou-se Maria Isabel, quando o esposo entrou alegre [.De pronto, porém,] demudou-se-lhe o semblante em ares suplicantes, e dobraram-se-lhe os joelhos aos pés da esposa, ilibada pela página 488, coluna 1.ª, do livro ‘De re anatomica’ do físico taumaturgo Afonso Rodrigues de Guevara.

– Perdoas-me? – balbuciou Domingos, ungindo-lhe a cara de lágrimas. […]

Amaram-se de redobro desde aquele momento, ele porque ofendera uma inocente, ela… porque o Santo Antoninho do nicho lhe fizera afinal o milagre.”

Camilo Castelo Branco, em “O Regicida”

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

Uma resposta a Que viva Guevara!

  1. Pingback: cinco dias » Azares de um homem honrado

Os comentários estão fechados.