“Everyman”

Há uns tempos, o mais anagramático dos rothianos, o animador da famosa tasca “Lagarto Pastou Perus” convenceu-me a correr para a livraria em busca do último romance de Roth. Devorada a iguaria, venho agora expor os despojos da digestão. Desculpa lá a impudência, Rogério. Mas pode ser que a coisa siga por aí fora, num novo subgénero de cadeia bloguística.

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«A doença é um ponto de vista sobre a saúde». Li tal sentença de Nietzsche há muitos anos; mas só julguei tê-la percebido quando ultrapassei os 40 anos e sofri os primeiros sinais, ainda difusos mas tão ominosos, da decadência do meu corpo. Engano. Tive de esperar até descobrir esta dolorosa magnum opus de Roth para entender com clareza todo o seu significado. Quando Everyman, o protagonista do romance, alvitra a sugestão terrível: «Or was the best of old age just that — the longing for the best of boyhood», descreve todo o programa da obra: um ininterrupto lamento de um velho, antecipando a morte, contemplando a morte dos seus, sofrendo as indignidades que a degenerescência do seu corpo lhe vai infligindo, preparando-se para o evento a que ninguém chega preparado. Um moribundo que se refugia no único porto ao abrigo do “massacre” incessante de sintomas, cirurgias, novas formas de dor: a memória dos seus dias de meninice.
«Não estar morto e, no entanto, já não estar vivo». Esta outra descrição de Nietzsche poderia bem ter sido uma epígrafe perfeita para “Everyman”. Mas as palavras do próprio acabam por resumir de forma apta e concisa a impressão de decadência quase viscosa, asfixiante, que infunde toda a obra: «Once upon a time, I was a full human being».O romance (talvez seja mais correcto falar de uma novela) apresenta, antes de mais, numerosas tangentes à realidade biográfica do seu autor. Começando pela óbvia referência à sua idade avançada e à sua condição de judeu — dado este quase omnipresente nos seus protagonistas. A mais glosada destas homologias com a vida de Roth tem a ver com a morte de Saul Below, o grande romancista americano. Como afirmou em diversas entrevistas, Roth começou a escrever “Everyman” no dia seguinte ao do funeral de Below. Apesar de negar que a cerimónia fúnebre do seu amigo escritor encontre ecos nas exéquias de Everyman, com que o livro arranca, já algumas semelhanças factuais forma detectadas por investigadores mais picuinhas. ☺
O título do romance é outro tema para longas mastigações dos críticos: adoptado de uma peça quinhentista, de origem provavelmente holandesa, pretende explicitar o carácter universalista da história: “toda a gente” morre, “toda a gente” se sente destinada a viver até se deparar com o fim. Mas trata-se também do nome da pequena ourivesaria de Everyman sénior, o pai da personagem principal; um nome que é escolhido como parte de uma estratégia (que também passa pela contratação de meninas WASP como vendedoras-figurantes) de camuflagem das suas origens judaicas, para não assustar a clientela cristã pequeno-burguesa da New Jersey dos anos do pós-guerra. Trata-se assim de um nome que não é uma generalização inocente, nem uma tentativa didáctica de emular o pendor moralizante da peça homónima: há um sentimento de perda de identidade subjacente à sua adopção.
Isto apesar de Roth ter insistido que «I had no idea that I hadn’t named him until I sat down to read the first draft. And then I decided to let it stand. Let him be defined by his relationship to others, to his father and mother, his brother, his wives, his daughter»; ele afirmou que, por não suportar alegorias, decidiu fazer a sua própria peça sobre a morte. Só que «uma versão secular».
Na peça, o herói recém-falecido revisita a sua vida em busca de redenção por via da sabedoria, da amizade, da família; tudo para nada. No fim, entende que apenas o que se dá, as nossas «boas acções», pode fazer pender em nosso favor os pratos da divina balança que a todos pesará e avaliará. Um final feliz e ameno logo anunciado no prólogo:
«That of our lives and ending shows
How transitory we be all day.
This matter is wonderous precious,
But the intent of it is more gracious,
And sweet to bear away.»
Um final feliz que sabemos fora do alcance de Everyman. Como na peça, não é induzida no leitor qualquer ansiedade quanto ao destino terreno do protagonista. Sabemos desde a primeira página que Everyman morre. E também sabemos pouco depois que ele não alberga qualquer ilusão quanto ao Além; na boa linha de Roth, a religião é apenas vista como um intruso a enxotar o mais depressa possível, um não-caminho que nem figura no mapa mental do moribundo.
Nas palavras do autor, «I don’t experience either grief or happiness because of the fate of the character. What I have to experience is the sense of the inevitability of that fate. I want the reader to know from the outset that this man’s dead and who the people are at his funeral and what they say about him there. Once that’s established, I give you the life in the history of his physical crises and his final catastrophe.»
Até que se cumpra o destino inelutável, não há lugar para metáforas histéricas nem para tropos que fariam as delícias de outros escritores, se confrontados com este tema: como sempre, os símiles inexistem, deixando objectos e seres entregues ao seu devir simples, sem a sobrecarga de servirem de palco para segundas intenções. O tom geral é de calmo mas veloz galope: em parágrafos que se estendem ao longo de páginas, nunca palavras ou actos se atropelam, mantendo uma impecável compostura de orquestra no naufrágio do Titanic.
Mas convém não perder de vista o essencial: ao contrário do que possa parecer, não temos aqui uma meditação sobre a morte. É sim a descrição da fuga à morte; de um longo sprint, condenado ao insucesso desde o início, de um atleta alquebrado, decadente e impotente. Everyman tenta evadir-se através de cirurgias cada vez mais complexas, arriscadas e debilitantes; mas não deixa de nos levar numa apressada exploração de outras possíveis rotas de fuga. Em mais um paralelo com a peça homónima, passamos em revista as suas mulheres, as suas traições conjugais, o seu inquebrável irmão, o seu êxito profissional como publicitário, o vácuo da sua vida como reformado, os seus filhos distantes e amargos e, por fim, a sua filha; única ilha hospitaleira num oceano viscoso e negro.
Roth não quis colocar-se de fora deste asfixiante labirinto mortal. Nem a arte, no caso de Everyman a pintura, oferece redenção; apenas mais frustrações e mesmo o desgosto suplementar do suicídio da sua discípula artística mais prometedora. Não estamos por certo em presença da tal “versão secular” da moralidade quinhentista: daqui não há qualquer saída, a não ser talvez a serenidade (não confundir com estoicismo) de Everyman. Mesmo sabendo que tudo carece de sentido, mesmo desconfiando que a morte pode estar à sua espera no próximo bloco operatório, ele nunca uiva o seu desespero nem nos atormenta com a banalidade de gritos contra uma qualquer injustiça cósmica.
A compostura por vezes é perdida; mas sempre para dar lugar à simples vontade de viver mais: «The tenderness was out of control. As was the longing for everyone to be living. And to have it all over again».
A evocação do passado, o retorno à infância, é sem dúvida um dos pontos de fuga fundamentais deste romance. As longas descrições das horas felizes passadas a ajudar o seu pai na ourivesaria («a paradise just 15 feet wide by 40 feet deep disguised as an old jewelry store»), a revisitação dos dias de alegria solitária na praia, a excitação das aventuras adúlteras. No entanto, o passado não é eleito apenas como metafórico refúgio nem como altar sacralizado onde adorar uma versão perfeita deste mundo; Everyman usa-o à laia de mantra hipnótico, isolamento contra os terríveis sons e realidades do presente:
«(…) he would tune out the badinage the doctor and nurses invariably exchanged while setting up. Tune out the rock music pumped into the chilly sterile room where he lay strapped to the operating table amid all the intimidating machinery designed to keep cardiac patients alive, and from the moment they got to work anesthetizing his groin and puncturing the skin for the insertion of the arterial catheter, he would distract himself by reciting under his breath the lists he’d first alphabetized as a small boy helping at the store after school — “Benruss, Bulova, Croton, Elgin, Hamilton, Helbros, Ovistone, Waltham, Wittnauer” — focusing all the while on the distinctive look of the numerals on the dial of the watch as he intones its brand name.»
Assim passou a sua primeira cirurgia para desobstrução de uma artéria carótida. Não sobreviveria à segunda, «entering into nowhere without even knowing it. Just as he’d feared from the start».
Mas, até chegar a este clímax afortunadamente indolor, o leitor vira cada página como se recebesse no rosto uma das pazadas de terra que Everyman viu cobrir o caixão do seu pai. É com um arrepio de alívio, com um sentimento de negro destino cumprido, que se fecha este romance imenso e perturbador. Não sei que elogio maior lhe possa fazer.

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2 respostas a “Everyman”

  1. subscrevo inteiramente. magnífico texto, magnífico e tão verdadeiro último parágrafo.

  2. ezequiel diz:

    amanhà vou acordar anagramático

    a estas horas, ler “anagramático” é mais radical do´que choqueterapia…belo texto…:)

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