O dia do Miticídio

No Atlântico, entretêm-se a descobrir as miríficas virtudes de defuntos antigos. Que até nos poderiam ter evitado, não fosse a maldita pontaria do Buíça, muitas maleitas da choldra actual que nos aflige: Salazar tinha ficado quietito em Coimbra, a Europa teria civilizado o indígena luso mais cedo, o Noddy não teria aquela voz tão esquisita.

Um dos atlantes, ostentando um vistoso fumo, aponta o dedo trémulo ao bruto povo, enquanto o acusa, com voz embargada, de ter entrado “no século XX a matar o seu próprio líder.” Mais: as recidivas bestas repetiram a perfídia, “setenta anos depois”.

Estranho. Sei que aquela malta leva a liderança espiritual da Santa Sé muito a sério; mas daí a proclamar o simpático Paulo VI nosso “líder”… é que não estou a ver outro defunto insigne em 1978. E escapa-me a sinistra cabala com que teremos apressado o regresso de D. Giovanni ao regaço do patrão.

Um pouco mais a sério: um destes postumamente anunciados “grandes líderes” não era um fulano que trocava de iate real com notável frequência, enquanto as finanças do país soçobravam numa espécie de fossa das Marianas? E o outro não terá sido um político tacticamente brilhante que morreu antes de deixar ideias dignas de nota ou acção governativa memorável?

Enfim, que seria de nós sem estes patuscos fantasmas benfazejos para nos aquecer as conjecturas invernais, entre a lareira e um bom scotch?

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