Economia estúpida

Quando escrevi esta crónica para o Meia Hora , um conhecido meu disse-me divertido que não lia referências “à economia especulativa” desde que na sua juventude tinha sido militante da JCP de Coimbra. O reparo era curioso, até porque na véspera, o BCP tinha perdido mais de 600 milhões de euros num só dia, depois de um banco suiço ter escrito uma informação dizendo que a nova direcção ia estabilizar o banco retirando-lhe valor especulativo. A JCP chegou à banca Suiça….

Recentemente, uma universidade portuguesa criou o curso de gestão da fraude. É de saudar a iniciativa. É bom quando o ensino se apercebe onde estão as reais saídas profissionais. Há muito tempo que a economia não tem nada que ver com produzir e distribuir aquilo que é necessário e garantir às pessoas uma vida melhor. Só assim se compreende que num mundo em que há tanta coisa para fazer e tanta miséria, o desemprego continue e a desigualdade social se agrave. A economia mundo baseia-se no jogo da bolsa e na gestão de expectativas. A compra e venda de acções envolve muitas vezes mais capital do que a troca de bens e serviços. O lucro está na especulação e não na produção. Esta economia de casino permite que haja empresas que enriquecem manipulando indicadores, gerando expectativas positivas que levam ao aumento exponencial das acções, ao mesmo tempo que há empresas sérias, que trabalham para produzir produtos necessários que perdem valor na bolsa e chegam a ir à falência. Este jogo tem os dados viciados e serve sempre os mesmos. Nos últimos 10 anos, os trabalhadores portugueses perderam 10 por cento do seu rendimento, ao mesmo tempo que o capital ganhou uma fatia maior da riqueza nacional. Na semana passada, a revista Visão revelou que o salário mensal médio de um trabalhador da PT é de 1.449 euros mensais e que o do principal administrador do grupo fica-se pelos modestos 185.590 euros também mensais. É preciso passar de uma economia de fraude para uma economia que sirva as pessoas.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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