A propósito da Belgíndia

Que na realidade é a Belíndia (mas isso eu aprendi tarde demais), comentou o rvn que “diz todo o Brasil em escassas palavras. E não é que vai dizendo Portugal também? Tâmu quasi brásilêrus, cara”. Eu acho que ele tem uma boa dose de razão. Misticismos à parte, para os quais eu não tenho saco nenhum (imagem clássica: Káká orando, de joelhos, no relvado de San Ciro, depois do Deus dele e do AC Milan ter vencido o Deus do Inter), I like almost everything Brazilian: a comida carece de sofisticação (é um país sem vinho), mas a música é excelente, o sotaque é muito bonito de se ouvir e nenhum utente vivo da língua portuguesa me dá tanto prazer a ler quanto o Rubem Fonseca. O problema do Brasil é que, para o melhor como para o pior (isto normalmente vem em packages), parece Portugal visto com lentes de aumentar: pode ser habitado pelo “homem cordial” (e nisso demos uma ajuda, certamente), não impede que o país mais bonito do mundo seja também o país mais injusto do mundo. Não há que enganar: é a crónica injustiça da sociedade portuguesa, a mais desigual da Europa, enxertada no Novo Mundo. Até o “antilusitanismo” deles (um elemento não desprezível da construção nacional brasileira) faz lembrar em tacanhez o nosso ressentimento anti-brasileiro. A matriz é a mesma. A questão é que vivemos sob um governo nominalmente social-democrata, que nos prometeu como modelo o igualitarismo nórdico. Por engano ou pura incapacidade, deu-nos o fosso sul-americano.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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Uma resposta a A propósito da Belgíndia

  1. JP diz:

    …uma vez ouvi um velhote em Odeceixe (bonita terra, excelentes praias, mas nao digam a ninguém…), dizer quando viu um carro estrangeiro com um NL atrás: “olha! la’ vai um carro da Nelgica!”

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