A Belgíndia

Um amigo meu “que anda lá fora a fazer pela vida” veio cá passar o Natal e demorou mais uns dias. Ontem fomos almoçar e ele, com aquela vantagem que a distância dá, disse-me que a principal sensação que tinha, em revendo o país ao fim de um ano, era a de que estava partido em dois. -Faz-me lembrar uma imagem que os brasileiros tinham, disse ele, quando diziam que o Brasil era a Belgíndia, porque tinha dez milhões a viver com o rendimento dos belgas, rodeados por muitos mais milhões a viver como na Índia. -Pois é, disse eu, parece que o que estava no meio tomou chá de sumiço.

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SEXTA | António Figueira
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11 respostas a A Belgíndia

  1. João José Fernandes Simões diz:

    Eu diria antes que o país está (re)”partido” em dois…
    Num bloco central de interesses que vai “repartindo” o que vai restando…

  2. Acho que a expressão correcta é “Belíndia” e não Belgíndia.

  3. Comentando o essencial: o tema é interessante, mas a sua discussão carece de factos e números para ter interesse. Alguém pode pesquisar, ou elaborar, um gráfico simples, tipo cartesiano, representando uma distribuição de categorias de rendimentos dos portugueses? E, se possível, a sua evolução faseada nos últimos quarenta anos?

    Por exemplo, apresentar o mesmo tipo de gráfico para os seguintes momentos históricos: impasse colonialista/queda de Salazar da cadeira (68), auge do “marcelismo” social (72), pico da Revolução (75), cume do sá-carneirismo (80), zénite do bloco central/políticas do F. M. I. (85), consequências do primeiro impacte do cavaquismo e da Europa (92), esplendor do guterrismo (99), regresso ao “País da tanga” (2003), actualidade (se possível, já após 2005).

    É que gráficos deste tipo permitiriam comparar objectivamente não só a EVOLUÇÃO GLOBAL do nível de vida dos portugueses nestas últimas quatro décadas, tão recheadas de mudanças, como sobretudo dois outros aspectos que me parecem muito mais decisivos para o comportamento e para antever as perspectivas de evolução política e social de uma Sociedade, a saber: a DISTRIBUIÇÃO PERCENTUAL DA POPULAÇÃO por classes de rendimentos e a RELAÇÃO DE EQUILÍBRIO ENTRE OS MOMENTOS à esquerda e à direita do eixo central de cada gráfico, correspondente ao RENDIMENTO MÉDIO, e que seria calculado pelo integral f(x)dx (para quem queira pegar matematicamente no assunto…).

    Perspectiva quantificada que, estranhamente, nunca vejo discutida quando se aborda esta delicada a questão (prosaica, mas muito oportunamente) apresentada neste Artigo! E que ultrapassaria as habituais e inúteis discussões subjectivas, do género “no tempo do x ou do y vivia-se muito melhor do que agora!…” e seria, mesmo, muito mais clara e eficaz do que as análises, qualitativas e demasiado simplificadas (mas, mesmo assim, bastante úteis) que vimos nos programas do Ant.º Barreto (na série recente PORTUGAL: UM RETRATO SOCIAL)…

    Vamos lá, mãos à obra! Será que, por exemplo, o sempre brilhante, exaustivo, diligente e honesto Tiago Mendes está por aí à escuta?…

  4. No meu comentário anterior há pelo menos uma incorrecção grave: os dois integrais a calcular, um à esquerda e o outro à direita do rendimento médio (Rm), seriam antes de f(x).(x-Rm)dx. Sendo f(x) a percentagem (ou o número, é indiferente) de população que aufere rendimentos de uma dada categoria.

    Trocando por miúdos, era como se no ponto do rendimento médio houvesse um apoio, relativamente ao qual se saberia se o gráfico se inclinaria para o lado dos rendimentos menores, ou maiores.

    Para que todos compreendam, mesmo os menos preparados algebricamente, o meu ponto de vista é o seguinte: o que garante maior justiça e paz sociais, comermos todos um pão com manteiga, ou uns comerem sardinha, outros bife e outros ainda lagosta?

    Dito de outra forma, o ditado “casa onde não há pão (…)” está mesmo correcto, ou terá que ser reformulado nesta perspectiva: há maior harmonia familiar se o pai comer um bife, a mãe sardinha e os filhos pão e queijo, ou onde todos comam melhor, mas de forma acentuadamente mais desigual?…

  5. rvn diz:

    António,
    Bela imagem. Diz todo o Brasil em escassas palavras. E não é que vai dizendo Portugal também? Tâmu quasi brásilêrus, cara.

  6. António Figueira diz:

    Comentários aos comentários:
    Miguel, tens razão – mas eu, que nunca tinha ouvido a expressão, reproduzi-a como a ouvi, e agora é tarde para mudar, creio;
    A. Castanho, haja calma: isto não é suposto ser um tratado sobre a pauperização das classes médias em Portugal, apenas um post sobre uma palavra a que achei piada, voilà tout;
    Rvn, mas o Brasil é muito Portugal visto com umas lentes de aumentar – mas havemos de voltar ao assunto.

  7. joaquim sousa diz:

    João José Fernandes Simões, está é (re)partido em três, já que a parte da “Bélgica” está também ela fraccionada em duas partes 😉

  8. Sérgio diz:

    É a melhor forma de aferir o quão (pouco) social democrata este governo é…

  9. A. Figueira, obrigado pelo seu oportuno e útil esclarecimento. Que confusão a minha, onde é que eu já ia…

    Sérgio, “a melhor forma de aferir” seja o que for nunca será uma palavra a que se achou piada.

    Desculpem não achar piada à ligeireza com que se abordam certos assuntos, “voilà (presque) tout”…

  10. CARLOS CLARA diz:

    Dei duas gargalhadas, o que faz bem, quanto ao “chá de sumiço”.

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