Pornografia I

Mantenho com o meu colega J.A. um estranho comércio literário: eu empresto-lhe a “História de Dona Redonda e sua gente” (dedicatória: “Aos sete aninhos da Ana, com muitos beijinhos da Manelinha”) e em troca ele empresta-me “Em duas palavras o que eu sou, algumas cartas da prisão”, de Sade. As ditas cartas, curiosas e parece-me que bem traduzidas, não são extraordinariamente reveladoras, ou seja, quem não conhecer Sade não fica a conhecê-lo só por lê-las, quem já conhecer também não fica a conhecer muito mais, mas a edição que o J.A. me emprestou (portuguesa, da Frenesi) abre com um pequeno excerto do clássico “Sade, meu próximo”, de Pierre Klossowski, editado entre nós pela Moraes há 40 anos, que iluminou um canto escuro do meu pensamento. Reza assim: “À medida que as decisões brutais e imprevisíveis da massa intervêm, que as hipóstases das novas facções ganham vulto e se tornam leis, enquanto as instâncias morais e religiosas da antiga hierarquia se esvaziam de conteúdo, os homens problemáticos encontram-se subitamente desenraízados, desorientados: é que eram intimamente solidários dos valores sagrados que conspurcavam; é que a sua libertinagem só adquiria significado no nível de vida que eles ocupavam na sociedade decaída. Agora que o trono se desmoronou, que a cabeça decapitada do rei é escarnecida, que as igrejas são saqueadas e o sacrilégio se tornou prática em massa e quotidiana, tais imoralistas fazem figura de originais, aparecem como verdadeiramente eram: sintomas de desagregação que conseguiram o paradoxo de sobreviver a essa desagegação sem poderem integrar-se no processo de recomposição que as hipóstases do Povo soberano, da vontade geral, etc., estão efectuando nas consciências. Bastaria que tais homens se colocassem frente ao povo e diante dele defendessem como sistema a necessidade absoluta do sacrilégio, do massacre, da violação, para que a massa, que precisamente acabava de cometer todos esses delitos, se voltasse contra esses filósofos e os reduzisse a estilhas com não menor satisfação.

Eu acho que confessei uma vez baixinho às cerca de mil pessoas que aqui vêm ler este blogue todos os dias que tinha andado a ler uma história das origens da pornografia, editada pela eminente Lynn Hunt; já não tenho idade nem os tal mil leitores têm pachorra para que eu faça sobre ela uma espécie de ficha de leitura ao jeito escolar, certamente, mas confesso que o livro me deixou duas coisas por esclarecer, a saber, primeira, porque é que, até ao princípio do século XIX, toda a pornografia (repito: toda) era política e religiosamente subversiva (e explicitamente subversiva) e, segunda, porque é que a pornografia, com esta particular genealogia, era um fenómeno exclusivamente europeu. Ora uns meses depois, é Klossowski (Sade, meu próximo, meu primo, meu irmão…) quem vem explicar a coisa: morto o rei e morto Deus, instituído um governo virtuoso e vencedor do mal, a perversão das consciências como instrumento da transformação social perdeu sentido. A pornografia de certo que não morreu nem morrerá: mas transformou-se então naquilo que hoje é: uma descrição ou reprodução, literária ou gráfica, da genitália ou de actos sexuais, com vista à excitação sexual do leitor ou espectador, maioritariamente masculino, sem mais; obviamente, sofisticou-se tecnicamente, diversificou-se, atingindo nichos de mercado antes insuspeitados; mas perdeu o sentido ultrajante e de lesa-majestade que possuíu durante todo o ancien régime. E porque só nós europeus, ocidentais, ousamos blasfesmar e apostasiar en masse, é que a pornografia assim contada é nossa e não doutros, e nasceu na Itália renascentista e não no império de um déspota oriental qualquer.

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SEXTA | António Figueira
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5 respostas a Pornografia I

  1. Ana Matos Pires diz:

    Pois, pois, mas eu cá fiquei à espera de uma recensão da Lynn Hunt e… moita, essa é que é essa, caríssimo António.

  2. António Figueira diz:

    Ok, Ana – fica prometido um Pornografia IV, especial Lynn Hunt.

  3. CARLOS CLARA diz:

    No sec. IXX pretendia-se que o povo fosse beato. O poder político e religioso, onde o deboche decorria em abundância, protegia-se com a capa da falsa moralidade. O povinho dizia que sim, mas ia agindo e de que maneira. Quanto à pornografia aberta , não foi com certeza devido ao Rajnesh ter andado a proclamar na América – «Forniquem até à exaustão, para perceberem que há coisas mais importantes!», donde acabou por ser corrido. Os números dessa industria são elevadíssimos. Constou que após os primeiros tempos de guerra no Iraque tentaram seduzir os iraquianos com pornografia, mas constou também que os iraquianos não acharam piada por aí alem.

  4. Se Moncho diz:

    Isso de que a pornografia é um fenómeno moderno e europeu soa-me um tanto eurocentrista.

    Gostaria de saber que opinariam no ancient regime europeu sobre os templos indianos, com os seus deuses e deusas tam amorosos:
    http://www.shunya.net/Pictures/NorthIndia/Khajuraho/Khajuraho.htm
    mas temo-me que iam considerá-los pornográficos.

    E sem irmos tão longe, pelo que se tem achado em Herculano e Pompeia os romanos pré-cristãos apreçavam a pornografia.
    http://en.wikipedia.org/wiki/Secret_Museum,_Naples
    http://www.apollonius.net/pompeii1.html

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