Rui Tavares: O preço a pagar

Para se fazer perdoar em certa ocasião pela namorada Ophelia,
escreveu assim Fernando Pessoa: eu sei que não tenho desculpa; mas
tenho desculpas. Para nos justificar por que razão não convoca o
referendo sobre o Tratado de Lisboa, José Sócrates está numa posição
semelhante. Tem muitas razões. Mas não tem razão.

Há pois muitas razões: de importância, de responsabilidade, de
sentido do dever. Todas juntas, são razões que vencem sem nos
convencer. Pior ainda, é de justificações assim que nascem as
mentiras piedosas e as promessas por cumprir. Todos já quebrámos
promessas e contámos mentiras, sabemos como é.

Sócrates pode dizer: mas Sarkozy, mas Merkel, mas Gordon Brown. Mas
nada. O compromisso que ele tinha não era com Sarkozy, nem com
Merkel, nem com Gordon Brown. Nem sequer com Cavaco Silva. Esse
compromisso era conosco.

Sócrates pode dizer: tomaria algum de vocês uma decisão diferente,
colocando em risco a União Europeia? E a resposta é: talvez não. Mas
se assim é, teria feito melhor em dizer-nos desde o início que o
referendo era impossível de se fazer.

***

José Sócrates sabe que terá um preço a pagar por isto, o “preço
político”, como se costuma dizer. O problema, quando se quebra uma
promessa e se está disposto a pagar um preço por isso, é o seguinte:
o preço que os lesados exigem é sempre por definição mais alto do que
aquele para que estamos preparados, porque é aos lesados que cabe
definir o preço.

Além disso, há um efeito de repetição que aumenta esse preço.

José Sócrates invoca a ética da responsabilidade para justificar a
sua escolha. Mas já é a segunda vez que um primeiro-ministro
português coloca a responsabilidade perante os colegas europeus sobre
a responsabilidade perante os eleitores portugueses, primeiro com
Durão Barroso e agora com José Sócrates. O segundo não tem culpa do
primeiro, mas não se admirem se estiverem a fazer dos portugueses
anti-europeístas contra todas as tendências.

E também é a segunda vez que José Sócrates quebra uma promessa
importante. A primeira foi a de não aumentar os impostos, a segunda
foi a do referendo. Se ele tivesse corrido os riscos consideráveis de
convocar o referendo, o cumprimento de uma promessa teria compensado
a quebra da outra, precisamente por sabermos que os riscos eram
consideráveis e que ele estava disposto a corrê-los para evitar
quebrar mais uma promessa. Assim, em vez de José Sócrates ser um
homem que só quebra uma promessa quando não pode mesmo ser de outra
forma, os seus adversários podem descrevê-lo como um homem que não
perde uma oportunidade para quebrar uma promessa. Parece injusto? O
preço a pagar parece muitas vezes injusto.

Claro, para cada um destes argumentos há certamente muitas desculpas.
E muitas delas são de peso. E muitas delas são compreensíveis. O
problema, como lembraria friamente Fernando Pessoa, é que há
desculpas — mas não há desculpa.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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6 respostas a Rui Tavares: O preço a pagar

  1. joaovieira diz:

    que tal inspirar-se na RITITI e dizer alguma coisa que realmente deve ser dita neste pais submerso em opiniões vazias e chatas

  2. joaovieira diz:

    Domingo, Dezembro 30, 2007

    Voltei a Madrid.
    Depois do Natal em Espinho, bacalhau cozido, passagem por Lisboa, capital às escuras, esburacada, capital de casas frias, húmidas, sem aquecimento porque a luz está cara e não há para isolamento nas janelas, capital do comércio tradicional à beira da extinção sempre por culpa do governo que não proíbe as grandes superfícies, capital deprimente de um país de deprimidos. Sim, Portugal é um país afogado numa depressão da que não se quer curar, numa depressão que curte e da que se orgulha. Olhei durante uma semana para a televisão do meu país e vi programas para o povo apresentados por mamalhudas analfabetas especializadas em entrevistar famílias de desdentados que se queixam de casas a cair de podres, telejornais feitos de entrevistas de rua a um povão que se queixa da subida do euribor, comentaristas políticos que se queixam da crise do BCP, o líder da oposição que se queixa porque não pode controlar a Caixa Geral de Depósitos. A queixa é líder de audiências na televisão portuguesa.
    E que faz o Governo na quadra natalícia com o povo neste estado? Brindá-lo com mensagens de esperança? Não, fecha serviços de urgências no interior abandonado do país na véspera de Natal, manda cartas de penhora de contas, proibe fumar, ameaça com a ASAE (notazinha mental – não me fodam pá: enquanto toda a Europa premia o produto artesanal e manda levar no cu os burocratas de Bruxelas, neste meu país gerido por atrasados mentais penalizam-se os métodos tradicionais e os meios de subsistência centenários), deixa que as iluminações natalícias de Lisboa sejam patrocinadas pelo Santander. E avisa que a coisa só vai melhorar graças ao esforço do Governo. No discurso natalício do Primeiro Ministro não se ouve uma palavra de agradecimento pelo sacrifício das economias familiares, uma voz de ânimo, força, estamos quase lá! Que arrogante, este pequeno Sócrates que se pensa o fazedor de tratados só porque consta no título o nome de Lisboa, só porque se abraça ao namorado da Carla Bruni, só porque trata por tu o Zapatero.
    Sim, voltei a Madrid, fugida de uma Lisboa que sempre amei e que agora me dá urticárias. Não posso com tanta queixa feita cancro de nós, não posso com este rame-rame obrigatório, com este modo de viver que recompensa a lamúria. Tenho pena e queria desejar-vos Bom Ano, que sejais felizes, mas só se me ocorre pedir-vos para desligar a televisão. Saiam à rua, encham os bares, obriguem os donos dos restaurantes a ligarem o aquecimento, iluminem as ruas de Lisboa com as luzes das vossas árvores de Natal, fujam dos centros comerciais e levem os vossos filhos aos jardins, namorem nos bancos dos parques e esqueçam que somos uma campanha publicitária chamada a Costa Oeste de Europa. Somos um país de gente pouco alegre, bem sei, mas também não merecemos estar sempre a levar nos cornos, caralho.

    Etiquetas: mundo cão, Portugal

  3. João José Fernandes Simões diz:

    Excelente comentário “joãovieira”, de que destaco que «no discurso natalício do Primeiro Ministro não se ouve uma palavra de agradecimento pelo sacrifício das economias familiares, uma voz de ânimo, força, estamos quase lá! Que arrogante, este pequeno Sócrates que se pensa o fazedor de tratados só porque consta no título o nome de Lisboa…».

    Este “Sócrates” já começa de facto a enjoar.
    Sendo pena, porque parece ser um tipo sério e determinado.
    E porque olhando para a oposição ainda estamos pior.
    Mas começa a desiludir com tanto jogo de cintura, que só não entende quem não quer ou não lhe interessa entender.

    A política é mesmo o exercício do cinismo.
    Sempre foi, afinal, bastando ler os nossos clássicos, e hoje autores como Miguel Sousa Tavares, entre outros tão bons ou melhores, onde se percebem os golpes baixos, o cinismo, as trapalhadas, as contradições, a mentira dos “políticos”.

    De tal forma que apetece mesmo fugir, só não sabendo para onde.
    Uma merda, de facto.

  4. Desta vez desacordo total com Rui Tavares: a propalada “cambalhota europeia” de José Sócrates, fora dos círculos mentais da classe politico-jornalística e dos empregados na opinião publicada, não tem qualquer relevância, por mínima que seja, para os portugueses, que se estão marimbando, nas tintas, rentando, borrifando para as questões europeias e para a realização deste (ou de qualquer outro Referendo).

    Aliás, a questão do Referendo europeu foi chão que já deu uvas, a partir de ontem mesmo, desde que há algumas horas foi já criado um novo “facto político”, esse sim, importante e fortemente motivador de discussão: o novo Aeroporto de Alcochete (ou da Canha?). A única notícia que ainda poderá sobrar da questão europeia será a forma como irão votar a “moção de censura” do Bloco de Esquerda os Deputados do P. S. D., do P. P., da C. D. U., do P. P. D. e do C. D. S….

  5. CARLOS CLARA diz:

    Ninguém mais ganhará eleições sem mentir. Os que não mentirem, serão utópicos, não ganharão eleições. É assim, porque a ideologia morreu. Ninguém mais quer valores ideológicos. Querem-se coisas e o dinheiro delas. Compram-se alegrias com as mesmas. O que é importante para a comunidade não contenta o egoísmo. Ninguém pede nada para os desfavorecidos. Pede-se para si próprio, apenas.
    Grande beco, esse em que se meteu Sócrates. Querer um Portugal mais europeu não deve ter medido bem as distâncias. Estamos no espaço físico da Europa, é um facto, mas nunca fomos europeus em parte alguma.
    Vivemos euforias. Fossem elas as do ouro do Brasil, do dinheiro da UE, ou mesmo porque partimos para fazer escaramuças. Depois, quando as euforias têm o seu fim ficamos deprimidos. Olhamos sem sentido para os palacetes do ouro do Brazil e para as “maisons” do outro dinheiro, sem saber o que fazer. E disso, Sócrates não tem culpa. Ele também é português, anda na euforia dele. E tudo não passa de opções. Eu também tenho as minhas – antes ele que os Ribaus.

  6. A.Silva diz:

    Não é de quebrar esta promessa que Sócrates desce nas sondagens.A maioria das pessoas que infelizmente nunca foram chamadas a discutir estes assuntos,pensa que a UE é de onde vem dinheiro e pouco mais.Quanto ás outras promessas não cumpridas é que ele vai ter dificuldade de ser perdoado.

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