M. confessa-se

-Fora eu rico, bonito e famoso e ias ver o que eu fazia à porcaria do blogue. Em vez de escrever, ia era viver, simplesmente: comer, dormir e fornicar, que são dos prazeres simples os maiores que a vida tem. -E defecar, disse eu, defecar também é bom, eu leio muito na retrete, aprendo imensa coisa. M. olhou-me desconfiado. -Tu és um gajo esquisito. Eu escrevo para poderem dizer, aquele não é giro, é um triste que mora na peri e não tem dinheiro para mandar cantar um cego, mas escreve tão bem…; é o que as garotas dizem, e uns rapazolas atrevidos também. -Devemos então considerar que quando te fez um cepo feio e borbulhoso, sem um tostão e sem prestígio de espécie nenhuma, Deus manifestou mais uma vez a sua celebrada capacidade de escrever direito por linhas tortas? –Up to a point, disse ele, digamos que mais uma vez sacrificou a vida à arte, pois não há arte sem dor. -Nem arte, nem coisa nenhuma, aquiesci eu, sentencioso.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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