No metro

Uns palmos debaixo da terra, eu a ir para a Duque de Loulé e ele para o Saldanha, cruzo-me com o J., meu colega no 6.º e 7.º anos do liceu e parceiro de canasta nos interins. Ambos gordos e já meio-acabados, sabíamos pouco um do outro: ele a julgar-me ainda no Palais des Besoins, eu a julgá-lo atrás de uma farta banca de advogado. Pois nada disso, eu agora vendo os meus magros talentos ao grande capital (so to say) e ele vai exportar-se para Fortaleza (CE), tentar a inutilidade sob os trópicos (pretexto: gestão hoteleira). Eu contra o ócio não tenho nada, pelo contrário, sabe-me sempre a pouco, e se há alguém que o mereça é o J., que já há trinta anos me impressionava pelo fôlego das suas leituras (ainda lá tenho em casa uma edição da Grundrisse assinada pelo seu punho que eu, uma vez, para imitar um personagem de romance que lia Hegel no metro parisiense e muito me impressionava, levei para o Guincho numa tarde ventosa, e na qual pespeguei uma nojenta e sempiterna nódoa de protector solar); do que eu suspeitava mesmo era do interesse de Fortaleza & do seu sertão, uma paisagem desoladora que me parecia (e parece) um degredo sem sentido, tipo Zabrisky Point. Aí o J. fez uma observação sagaz: que a paisagem é para ver nos filmes, ou melhor, de modo fílmico (to be watched, not seen), que, como dizia o grande Eça, um homem não pode gastar os anos a cantar as veigas do Mondego, e que o que interessa mesmo é a ilha em que vive e de que faz a sua casa. Ah J.!, sempre filósofo, explicaste-me nesse instante o segredo de Portugal, país feio, de paisagem arruínada, mas onde nós nos sentimos bem saltando de ilha em ilha, entre o nosso próprio refúgio e o refúgio de outros parecidos connosco, a quem nós chamamos os nossos amigos, fechando os olhos (e tapando o nariz) in between. -Não achas que há alguma coisa de árabe em tudo isto?, perguntei-lhe eu, -Talvez, disse ele, de sueco é que não há. Trocámos cartões, com sorte voltamos a ver-nos daqui a uns anos.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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