Morreu Luiz Pacheco

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“Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente estranha nesta viagem. Pobre gente: estupidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foiliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do próprio talento, desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros e as virtudes deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentado arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por lazeira ou cobardia, impotência de criar (mas o coveiro nada perdoa!). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados. Uma caca a respirar.”
LUIZ PACHECO, Comunidade

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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2 respostas a Morreu Luiz Pacheco

  1. João José Fernandes Simões diz:

    Bolas…
    Ando sem tempo para ler, duas, três, quatro vezes, com calma, o que o António e o Nuno têm escrito nos últimos posts, que são de uma qualidade de excelência.
    E a Fernanda, que me desculpe, mas nos últimos tempos, anda pouco inspirada.
    Quanto aos outros, do que resta dos Cinco… apenas fazem parte da galeria.

    Li, num outro blog, um post sobre o “libertino” Luiz Pacheco, o qual lá comentei e que não resisto a transcrever para aqui:
    “…
    A morte do Luiz Pacheco, e em certa medida do Mário Cesariny, é o fim de uma geração de intelectuais boémios, anarcas, desalinhados, que viveram no limbo da marginalidade e usaram as fragilidades da vida para alimentar o talento. Com eles a palavra libertinagem ganha toda a plenitude.

    Conheci o Luiz Pacheco nos anos setenta na Livraria Opinião, no Bairro Alto. O Hipólito era então o gerente e com a sua militância intelectual e de vida apresentou-me a figuras, que acabaram por marcar o meu percurso. Foi lá, por exemplo, que conheci o Augusto Cabrita.
    O Pacheco pairava pela Opinião e no Restaurante A trave, e atormentava todos e todas com a sua disposição irreverente, constante.Era um provocador permanente, nato, um desatino. Foram muitas as vezes em que fugi dele só para não ter que o aturar, principalmente quando vinha com os copos, o que era quase sempre. Lembro-me de uma cena que me horrorizou dele a meter nos bolsos do casaco o resto do almoço!!! Demasiado para a minha camioneta !
    A sua presença abanava sempre a tranquilidade e muitas vezes nas piores alturas. Mas todos gostávamos dele.
    Era uma surpresa constante, com o que dizia e sobretudo como dizia. Na altura confesso que nos meus vinte e poucos anos nem me apercebi da dimensão da sua obra se não mais fotografias teria feito dele, mesmo assim, guardo algumas fotografias inéditas da época. Uma delas é esta aqui publicada feita na Feira do Livro.
    O fim dos anarquistas num tempo em que os medíocres abundam.
    ..”

    E que mereceu este meu comentário:
    “…
    A “libertinagem” é tantas vezes uma atitude de lucidez, as loucuras nas quais suportamos os nossos equilíbrios. Todos nós.
    Tenho muita admiração por estes libertinos e o que escreveu é um retrato perfeito de certas emoções.

    É por estes posts que lhe saem de vez em quando que não resisto a vir aqui guardar “… nos bolsos do casaco o resto do almoço…”.

    Parabéns pelo “retrato”.
    E este meu comentário, escrito por um bófia, até parece mentira. Mas não é.
    …”

  2. Petia diz:

    Desculpa,mas não consigo ver o texto acima da imagem.Podes,repôr o que falta?Obrigado.

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