Ajuste de contas II

A “plebe rural” (leia-se: o pequeno campesinato, sobretudo) levanta-se contra o invasor e junta à reivindicação patriótica a reivindicação social, anti-senhorial, facto facilitado pela miserável acomodação dos poderosos ao domínio estrangeiro. Mas a plebe é um corpo sem cabeça, pede quem a dirija. A burguesia de Lisboa não está disponível, o ocupante impede qualquer veleidade, e então é o clero quem, antes de mais, ocupa o que seria o seu lugar, impedindo que o levantamento mantenha o tom de insubordinação social que o caracterizou de início. A aliança entre a pequena burguesia urbana e a “plebe”, ou seja, a receita do radicalismo que irá marcar todo o nosso século XIX, terá de esperar ainda alguns anos para demonstrar a sua relevância política e conseguir promover um programa “avançado”. O autor desta tese bem pode ter sido Secretário de Estado e deputado pelo PSD, escreveu um livro que é um 18 de brumariozinho. E mais bem pensado e bem escrito, acho eu, do que tudo o resto que sobre a Guerra Peninsular recentemente se editou.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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4 respostas a Ajuste de contas II

  1. Campesinato patriótico… Curiosa tese num país onde o algarvio não sabia que o minhoto existia… Mas não será tudo isso antes uma forma de branquear o clericalismo?

  2. António Figueira diz:

    Afirmar que “o algarvio não sabia que o minhoto existia” é uma variação extremista sobre o célebre diálogo de D. Carlos com os pescadores: “-Sois portugueses? Não, Senhor, somos da Póvoa”… Uma coisa é certa: algarvios e minhotos, à parte outros pormenores que não são de somenos, conseguiam falar entre si – um prodígio à época irrepetível em grande parte de Espanha, Itália ou mesmo da França rural.

  3. Talvez tenha razão, caro António, mas tem alguma prova de que eles “conseguiam falar entre si” sem ser por intermédio dos padres? Muito complicado antes do serviço militar obrigatório, numa época em que quase ninguém sabia ler. Seja como for, o meu ponto principal é que VPV desvaloriza a importância do clericalismo. Está à porta, é bom não esquecê-lo, o centenário da proclamação da República…

  4. António Figueira diz:

    Caro João:
    Não me parece que, à época, a preponderância social do clero em Portugal fosse superior à que se verificava nos outros países católicos do Sul da Europa, com a notável excepção da França; o campesinato era esmagadoramente analfabeto (ao contrário do que se passava nos países protestantes) e por outro lado tínhamos regiões precocemente descristianizadas (é caso do Alentejo, como era também o da Andaluzia e da Emilia-Romagna). O que torna Portugal um caso à parte é a unidade linguística, por um lado, e a fixação precoce das fronteiras políticas, que permitem falar, sem anacronismos, de um campesinato “patriótico” em 1800.

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