Cavaco Vermelho

Cavaco Silva veio dizer o que há muito já se sabia: há empresários portugueses com remunerações altíssimas num país em que os assalariados ganham cada vez menos. Estranha política em que o Presidente da República, eleito pela direita, se preocupa com a justiça social, enquanto o primeiro-ministro do Partido Socialista, José Sócrates, encabeça um governo que revoluciona a aritmética explicando-nos que, mesmo havendo muito mais desempregados, o governo cumpriu a promessa de combater o desemprego. Estas preocupações presidenciais não são novas. Quando Cavaco era primeiro-ministro denunciou, durante a primeira crise do sector têxtil do Vale do Ave,  que havia demasiados “empresários ricos com empresas falidas”. Estas palavras reiteradas não se devem a uma súbita conversão à esquerda, mas à inteligência. Cavaco sabe que não há lucros que resistam a tanta miséria. Em Portugal, os empresários tendem a não conseguir ver mais do que três centímetros para além do seu nariz e tentam enriquecer à custa de esmifrar os empregados, em vez de construírem empresas de sucesso. A propósito, alguém já lhes disse que a saúde de uma economia também se mede pelo nível de vida de quem trabalha?  A arte das previsões é difícil, mas não é complicado adivinhar que no dia em que, na União Europeia,  só faltar a Roménia para ultrapassar Portugal, Sócrates continuará a dar lições aos socialistas franceses no Libération, explicando a sua tese – da Esquerda na gaveta –  que o PS deve governar ao centro,  e a repetir sorridente na televisão que vamos no bom caminho…. para nos tornarmos o Burkina Faso da Europa.

Publicado no Meia Hora

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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2 respostas a Cavaco Vermelho

  1. Estou convencido de que as motivações de Cavaco, no seu discurso, são de tipo moral e profissional.
    Ele não disse que o excesso ganho pelos gestores deveria ser distribuído pelos restantes trabalhadores.

    Ele acha é que é imoral a diferença entre os salários dos gestores e os dos meros trabalhadores.
    Ele também pensa, provavelmente, que muitos gestores são incompetentes e por isso não justificam o seu vencimento.

    Parece-me portanto que se equivoca quem refere a bondade social deste discurso.

    Cavaco nada disse sobre os lucros dos accionistas. Os gestores, pelo menos em teoria, contribuem para o sucesso da empresa. Nesse sentido são, em muitos casos, também trabalhadores assalariados.
    Para equilibrar os salários dos gestores com os dos trabalhadores ele podia ter, em alternativa, proposto a diminuição dos lucros.

    Em resumo: Cavaco não tocou nos lucros dos proprietários, e tentou reduzir os salários de uma parte, a mais bem paga, dos trabalhadores.
    Mais uma medida de proletarização das camadas médias ?

  2. João diz:

    Convenhamos que a teorização do Penim Redondo é muito bonita mas pode apenas chegar para desculpabilizar os salários perfeitamente injustificados dos gestores. o problema dos gestores é que, sendo parte dos assalariados, são a parte que defende o interesse dos proprietários (no nosso país uma parte dos gestores é também proprietária) e portanto é absolutamente incomportável para as empresas que temos os salários que se pagam a gestores. A não ser é claro que se esmifrem os de sempre…

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