Ajuste de contas I

O que safava Júlio Diniz era a ausência de telemóveis. Só assim as suas tramas débiles podiam funcionar: a carta ia a chegar quando ele já tinha saído de casa, e o mal-entendido aconteceu, inevitável. Os verdadeiros herdeiros de Júlio Diniz foram António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros e quejandos: sucessões de quid pro quos na aparência fatais, mas só na aparência, alô, alô Dona Rosa, que depois se desatam com mais facilidade do que os atacadores dos meus sapatos. E as personagens? Quanta bondade! A Jenny então é aflitiva, não existe, é um Deus ex-machina para fazer o romance avançar. E a ideia de fazer o Manuel Quintino sócio de Richard Whitestone?! É absolutamente corporativa: só mesmo na cabeça de um santo amigo dos pobrezinhos! A única graça do livro é mostrar um bocadinho do Porto daquela altura, e da vida dos nativos (as costoletas do Águia d’Ouro, as jantaradas às três da tarde…), mas não creio que tenha sido para isso que ele foi escrito. Pensar que é quase contemporâneo d’O Crime do Padre Amaro, e que tem quase uma literatura de atraso.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Ajuste de contas I

  1. zequinha do ó diz:

    “tem quase uma literatura de atraso”… Como se a(s) literatura(s) tivessem que seguir todas a mesma cartilha, o mesmo estilo, o mesmo paradigma estético, as mesmas ideias… Pfff… Que crítica tão fraquinha… O Camilo Castelo Branco desconstruiu de forma soberba, com o “Eusébio Macário”, essa “arregimentação” forçada da literatura num determinado campo estilístico.

  2. António Figueira diz:

    “Crítica literária” só na tua cabeça, ó do ó. Mas se o Camilo é hors concours, Júlio Diniz e Eça são dois autores “modernos”, com aspirações “científicas” ambos – basta ler “A Família Inglesa” e “O Crime” para perceber isso; sucede que Eça é genial, e Júlio Diniz é um bom pai de família. Satisfeito com a explicação, zequinha?

  3. Saloio diz:

    Estimado António Figueira: não me parece que os nossos Júlio Dinis e Eça de Queiroz se assemelhem nas suas obras, apesar de serem contemporâneos.

    Enquanto o primeiro é bucólico e retrata melhor a província, o outro é realista e mais urbano (genericamente falando, claro). Mas ambos competentes no seu estilo.

    Uma coisa é certa: ainda hoje se lêm os dois muito bem, com simpatia e interesse. São como aqueles filmes antigos portugueses, que nós já vimos vinte vezes mas que, mal começam a dar, nós nos sentamos e ficamos a ver entretidos, sempre descobrindo uma nova imagem ou uma frase que não tínhamos anotado anteriormente. Comecei a reler as “pupilas”.

    Digo eu…

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