Feliz ano novo

No final do “Drôle de jeu”, de Vaillant, surge um personagem menoríssimo que incarna um tipo em que estamos sempre a topar na vida. Recordemos: estamos chez Elvire, antiga colega de redacção de Lamballe aliás Marat, que pede à anfitriã abrigo durante as horas de recolher obrigatório. Em casa de Elvire pululam os protagonistas do pequeno e médio affairismo dos tempos da Ocupação, entre os quais um tal de Jean-Jean le Wolfram – cujo simples nome denuncia o respectivo objecto social. A cena – curta, tem meia-dúzia de páginas – é muito boa (para os mais esquecidos, é aí que Marat se convence da culpabilidade de Mathilde, e desata a teia de todo o livro); mas, para o que agora nos interessa, introduz o tipo universal do gajo que está tão por dentro dos seus affaires, que confunde a vida toda com os ditos, e não consegue ver mais longe do que eles. Para Jean-Jean, na Primavera de 44, a guerra era um embuste para papalvos (“une simple combine pour des naïfs”): debaixo da mesa, as grandes forças em presença (os trusts germano-anglo-americanos, premonitoriamente) teriam já decidido a paz e os seus termos; quais Resistências, povos em luta, o que fosse: a história é escrita pelos poderosos, e longe dos olhos da arraia-miúda.

A mesma figura, do tipo que descobre a evidência para além da evidência, que julga que a história se faz nos bastidores e que o simples conhecimento de tal facto lhe permite aceder a esse lugar entre todos misterioso onde se decide a sorte do mundo, aparece no “Triple Agent”, de Rohmer. Para Fiodor, a Revolução também é um logro: as massas em movimento não contam, o que conta é a mão que as manipula, longe das vistas de todos (ou quase) e a vontade que ela exprime (de puro poder). Fiodor descobrirá à sua custa que a realidade é ainda mais complicada do que a complicação que ele próprio julgou ter descoberto: o que dificulta a leitura do real é justamente a capacidade que as coisas por vezes possuem de serem de facto aquilo que aparentam ser. No instante maravilhoso em que isso se revela, não há teoria conspirativa que resista – e “all that is solid melts into air”. Feliz ano novo.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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5 respostas a Feliz ano novo

  1. ezequiel diz:

    Feliz Ano Novo 5 dias!!

  2. Feliz 2008, também!

  3. CARLOS CLARA diz:

    Depois de Fiodor nada mais resta mesmo. Nem um só exemplo para recordar. Enfim … “Feliz Ano Novo” será com certeza para todos os “chulos” que espreitam todas as hipóteses de roubo. Tudo lhes foi devolvido com juros e em bandeja de prata, mesmo aquilo que não tinham. A electricidade, a gasolina, as comunicações, o pão e em breve a água serão cada vez mais o grande furo de quem nada arrisca. Viva a revolução! Viva o Novo Ano!

  4. cláudia diz:

    feliz ano novo, antónio.
    🙂

  5. António Figueira diz:

    Leon Fellini,
    Pf envia o teu e-mail correcto; preciso escrever-te com urgência e o leon.fellini@nullgmail.com não dá. Obr.

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