Guerra de guerrilha contra o trabalho ao domingo (abertura das grandes superfícies e quejandos)

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Via Tempo das Cerejas 

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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28 respostas a Guerra de guerrilha contra o trabalho ao domingo (abertura das grandes superfícies e quejandos)

  1. Diogo diz:

    Que não abram as grandes superfícies ao Domingo, ainda vá. Agora, quanto aos prostíbulos… não devemos cair em extremismos.

    Bom ano.

  2. A.Silva diz:

    O problema é que está na forga exactamente a abertura das grandes superficies durante todo o dia aos domingos e feriados,até agora abriam só até as treze horas,de Janeiro a Outubro.

  3. Ana Matos Pires diz:

    Donde se deve concluir, Nuno, que nos restantes dias o trabalho tem um efeito afrodísiaco…

  4. Ana Matos Pires diz:

    Ah, já agora, a urgência hospitalar faz parte dos quejandos? eheh

  5. Luís Lavoura diz:

    Repare-se no subtil machismo do poster: o trabalho sexual parece ser desempenhado apenas pelo homem.

  6. Luís Lavoura diz:

    Mas por quê ao domingo?

    O que é que o domingo tem de especial?

    Os judeus são obrigados a não trabalhar ao sábado. Deverão eles então ser também proibidos de trabalhar ao domingo?

    Em França é comum ver, ao domingo, mercearias abertas, que são propriedade de árabes. Deverão esses árabes ser proibidos de ter as suas mercearias abertas? Por quê?

    E se os ditos árabes, em vez de serem proprietários de mercearias, forem caixas num hipermercado, por que motivo é que deverão ser proibidos de trabalhar ao domingo?

    O direito ao trabalho inclui o direito a trabalhar-se sempre que se quiser, sem se ser obrigado a respeitar os dias santos de uma ou outra religião.

  7. Luís Lavoura diz:

    Vocês nunca devem ter vivido num país no qual o comércio encerra ao domingo.

    Eu vivi na Alemanha, numa grande cidade, em 1990, e posso garantir-vos que não tem graça absolutamente nenhuma a proibição de trabalhar ao domingo.

    Ao domingo não havia absolutamente nada para fazer. Não valia a pena ir passear ao centro da cidade, cujas ruas estavam desertas. Não havia jogos desportivos nem treinos com que uma pessoa se entretivesse. A cidade estava absolutamente parada e com ruas desertas.

    Não trabalhar ao domingo pode ser tolerável para uma família que tenha família na cidade – aproveita esse dia para estar com a família. Para os imigrantes, como eu o era, é intolerável. O domingo torna-se um dia de tédio e solidão.

    Não tem graça absolutamente nenhuma.

  8. Mr. Shankly diz:

    Ó Luís Lavoura…é isso mesmo que ia dizer. Obrigar a fechar em determinado dia é ditatorial. O que me chateia é serem pessoas de esquerda (ia a dizer “alguma esquerda”, mas contive-me, felizmente) a defender esta aberração. O direito a trabalhar todos os dias beneficia toda a gente: patrões (mais receitas), empregados (mais emprego), clientes (mais serviço)…
    Com que direito impeço alguém de trabalhar? Quem não quiser trabalhar, tem alternativas: o desemprego, ou um emprego que não implique trabalhar aos Domingos. A Democracia implica dar alternativas, não cerceá-las.
    Se vivesse num país árabe, não gostava nada que me obrigassem a jejuar no Ramadão ou a usar burka, ou que me impedissem de comer coiratos quando vou ao futebol.

  9. P.Porto diz:

    Na transposição do assuto para Portugal, a Esquerda instalada (que é o mesmo que dizer, a esquerda dos jormais, da tv, e de outros gamelados pelo Governo socialista, logo, a Esquerda perceptível) está todinha a favor da abertura dos grandes espaços ao fds.. Não por acaso vcs tiveram de ir picar a imagem ao ‘Tempo das Cerejas’, o melhor blog de Esquerda, embora da Esquerda não instalada, logo, da Esquerda que não se vê. Esta opinião é insuspeita porque quem a dá não é, de todo, de Esquerda.

    Esta Esquerda de instalados, bem postos e gamelados faz parte do grupo que consome com desafogo, não faz parte da população que, em cada vez maior número, ganha, com sorte, €600 por mês e não tem descansos semanais que coincidam com os fins de semana dos filhos. Mas, já se sabe, esta Esquerda não é bem filhos, é mais abortos.

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ana Matos Pires,
    Isso é que é pulsão consumista. As compras já são uma espécie de urgência hospitalar…

    Mas estou de acordo contigo, não há nada como o poder afrodisíaco da caixa do supermercado. No domingo, no 13 mês , em qualquer data

  11. MIMI diz:

    ‘ patrões (mais receitas), empregados (mais emprego),’:ora aqui está uma frase do tipo:’o patrão é que me dá o dinheiro’ cheia de profundidade intelectual,prática,e nos conformes…
    Como o senso comum pode ser tão estúpido!
    Com que então trabalhar mais dá como resultado mais emprego?por favor,respeite os neurónios dos outros Sharkly.E amande essas bocas para o (A)Bruto.Ah!não pode deixar lá as suas pérolas.Atão e a tão querida democracia e liberdade de expressão…?

  12. Ana Matos Pires diz:

    Só perguntei, Nuno, sorry, e enquanto a coisa se ficar pela pulsão ainda vá, já quando se tornar compulsão… não haverá pai, como diz o outro – aí é que será vê-los a fazer de objectos sexuais, Luís Lavoura, taditos. E que dizer do P. Porto? Reverberante, que coisa.

  13. Carlos Fonseca diz:

    Se a questão é assim tão fácil, i.e., as grandes superfícies abertas ao Domingo representam mais receitas, mais emprego e mais não sei quantos benefícios, é pertinente questionar porque não se decreta também a abertura ao Domingo de todas as fábricas (em Portugal até cada vez são menos, é fácil), todas as oficinas (sejam de funileiros, sapateiros, bate-chapa, electricistas, canalizadores,e de outras artes e ofícios), todas as pastelarias, cafés e restaurantes de bairro, todas ‘software houses’, a banca, os seguros, as agências de viagens, todas as empresas do ramo electrónico, as ‘sexy shops’, enfim todas as unidades de todos os ramos de actividade…ah e assegure-se que não serão de encerrar as casas de alterne, as casas de massagens e todos os prostíbulos, mais ou menos declarados. PORTUGAL TORNAR-SE-IA O PAIS MAIS PRÓSPERO DA UE – QUE RECEITAS E EMPREGOS, MEU DEUS!- ninguém pensou em tal coisa, porque estas ideias só estão ao alcance de génios como o Mr. Shankly…uma Sumidaaaaaaade!!! Confesso inveja de tanta inteligência.

  14. Carlos Fonseca diz:

    Mr. Shankly: ao Domingo abra-se você também.

  15. JC (mas não o Cristo) diz:

    Pode presumir-se que os muçulmanos desejarão tudo fechado à sexta; os judeus, ao sábado; os cristãos, ao domingo. Os de outras confissões, os agnósticos e os ateus terão também as suas preferências; supunhamos que se repartam pelos restantes dias da semana. Então, para todos contentar: e se fechasse tudo durante toda a semana? Não era porreiro?

    O mais interessante é isto (o encerramento aos domingos) ser defendido por um partido comunista, laico (por suposição), que ao fazer coro com os pequenos e médios comerciantes parece entender que capitalistas são apenas os das grandes superfícies comerciais. E também não deixa de ser interessante ver as confusões feitas por esse partido e por muitos comentadores entre horário de abertura, horário de funcionamento e horário de trabalho, como se tudo significasse o mesmo, e, mais grave, como se fosse sinónimo de período de trabalho.

    Se virmos que esse partido não entende a greve como instrumento de luta para conquistar objectivos que sirvam os interesses dos trabalhadores, mas como instrumento para cumprir o slogan “assim se vê a força do pc”, talvez nada disto admire. Enfim, é o que temos…

  16. Carlos Fonseca diz:

    O argumento de quem não concorda com a abertura das lojas da distribuição moderna ao Domingo é automaticamente comunista é a fiel reprodução de um estafado e salazarento hábito – se não por nós são comunistas.
    Eu não sou comunista e oponho-me ao ‘mercantilismo domingueiro para os pacóvios’.
    Afinal o que é feito da tolerância democrática para aceitar quem pense diferente e, rejeitando a ideologia comunista, se manifeste contra políticas e medidas neoliberais?

  17. MAA diz:

    A vida não tem horas de paragem; a não ser aquelas em que todos fazemos/teimamos em fazer as mesmas coisas às mesmas horas, nos mesmos dias. Por isso temos horas de ponta… de manhã, à tarde, à noite… à hora de ponta. Também temos de descansar todos no mesmo dia? Precisamos de pensar mais como organizar melhor as nossas vidas. Talvez trabalhar, descansar, divertir possam ser temas para serem vividos todo o dia e/ou toda a noite, em qualquer dia e sem um matriz estabelecida por regras arcaicas ou de algumas conveniências.

  18. AS diz:

    Eu acho mal esta discriminação em relação ao domingo. A proibição de trabalhar e de consumir deveria estender-se também ao sábado.
    A falta de pica pode muito bem ser provocada pelos intensos esforços laborais de sábado.

  19. Carlos Fonseca diz:

    Caro AS, fale com o Júlio Machado Vaz. Ele terá, por certo, a terapia para a falta de pica que, pelos vistos, o atormenta.

  20. pporto351 diz:

    Caro C.Fonseca

    Bons comentários. Quanto ao ‘mercantilismo domingueiro para os pacóvios’ que mt bem referiu, parece que está em sintonia com o recentemente auto-proclamado ‘provincianismo’ do PM. Afinal, parece que a coisa tem uma explicação mais simples.

  21. Às vezes a proibição liberta e a permissão oprime. É o caso do trabalho aos domingos. Nunca fiz um estudo sobre se a maioria das pessoas prefere trabalhar ou não trabalhar aos domingos e feriados, mas não tenho grande receio de errar se disser que preferem não trabalhar. E é nestas que é preciso pensar: não é possível permitir o trabalho ao domingo para as pessoas que o preferem sem o tornar obrigatório na prática para muitas outras que o não desejam.

  22. AS diz:

    O meu comentário de 30 de Dezembro de 2007, às 1:12, referia-se a todos os Carlos Fonsecas deste nosso Portugal que responsabilizam o trabalho ao domingo (ou ao sábado) pela falta de pica.

  23. Mr. Shankly diz:

    Carlos Fonseca e Mimi: ninguém os obriga a a trabalhar aos Domingos. A mim também ninguém deve proibir. “Os pacóvios”, como elegantemente referiu, também têm direito de escolha. Democracia, ring a bell?
    “Com que então trabalhar mais dá como resultado mais emprego?”
    Sim. Existe um limite de horas de trabalho semanal. Se for excedido, a entidade laboral paga mais horas. Ou, em alternativa, contrata mais. Mais emprego. Percebeu? Já estou a respeitar os seus neurónios?
    Carlos Fonseca, o chorrilho de disparates e ofensas não lhe dá nem mais nem menos razão. Mas revela muito acerca da sua educação. Para a próxima talvez perceba que não ganha nada em exprimir-se assim.

  24. CARLOS CLARA diz:

    Não sabia que o tio Belmiro é de esquerda. Quem manda é ele, e o capital. Imagine-se que os portugueses passavam a dedicar o Domingo para visitarem museus. Imagine-se que os portugueses dedicavam o Domingo à leitura. Imagine-se que os portugueses dedicavam o domingo ao pensamento. Claro que não pode ser, ainda viravam cultos e mandavam as catedrais ás urtigas. Ainda descobriam que andam completamente drogados. Isso não seria bom para a economia. E se deixavam de ver a SIC e TVI? Isso seria tudo péssimo… ainda se lembravam de fazer uma revolução com sangue e tudo mais. Deixem estar como está. Assim, está tudo do lado certo.

  25. Mr. Shankly diz:

    “Imagine-se que os portugueses passavam a dedicar o Domingo para visitarem museus. Imagine-se que os portugueses dedicavam o Domingo à leitura. Imagine-se que os portugueses dedicavam o domingo ao pensamento.”
    A culpa é dos hipers? É que os que lêm, visitam museus e pensam também têm a hipótese de ir para os hipermercados e centros comerciais. A culpa não será dos portugueses?

  26. JC (mas não o Cristo) diz:

    Carlos Clara:

    Também pode imaginar os portugueses a fazerem tudo isso num qualquer dia de descanso semanal, ao domingo e sem ser ao domingo. Ou não? O interessante seria eles fazerem-no, não importa em que dia fosse o seu dia de descanso semanal. Ou não seria?

    E os portugueses até poderiam lembrar-se de fazer a revolução num determinado dia, e à tarde, por exemplo, dia de s. nunca, à tarde. Era até mais original e condizente com a sua capacidade para fazerem a revolução, pela vontade de a fazerem, que isto a vontade consegue tudo, no caso, até fazer revoluções e, porque não?, revoluções no dia de s. nunca, à tarde.

    Não seria melhor, em vez de lutarem contra o trabalho ao domingo, lutarem por trabalho (em todos os dias, para os que o não têm), por um período de trabalho semanal fixo (e não variável, como o governo pretende impor), pelo período de termo certo dos contratos mais curto (em vez dos escandalosos três anos), contra o falso trabalho independente (a recibo; objecto curioso, que dantes era passado pelos patrões como quitação pelo pagamento do salário e agora é passado pelos trabalhadores como quitação pelo seu recebimento!), contra as prepotências dos capitalistas (e não apenas contra as dos grandes capitalistas, que nem por serem grandes fazem as grandes patifarias), contra o prolongamento arbitrário do período de trabalho por coerção da ameaça de despedimento, pelo uso da greve como arma de luta por objectivos concretos (e não como instrumento para demonstrar descontentamento ou a força do pc, porque para isso servem as manifestações e os comícios), pela institucionalização de um fundo de greve, mesmo pequeno, para acudir aos mais necessitados numa greve mais prolongada (coisa que os sindicatos nunca instituíram, porque a greve para eles tem outros objectivos, deve ser de curta duração e de preferência à sexta-feira), pela existência de um jornal sindical (semanal ou mensal, coisa que os sindicatos não têm e tiveram há oitenta anos, mesmo quando a maioria do pessoal era analfabeta), enfim, lutarem por um sindicalismo que lute pelos interesses dos trabalhadores e não pelos interesses do pc? Não era porreiro os trabalhadores portugueses fazerem estas coisas? Oh, se era!

    Será muito difícil compreender que o interesse dos trabalhadores é a melhoria das suas condições de vida e não a revolução; e que o interesse do pc (pelo menos, o proclamado…) é a revolução e não a melhoria das condições de vida dos trabalhadores? Que clientela para a revolução encontraria o pc entre trabalhadores bem remunerados? Quem trocaria o certo pelo incerto (ou pelo certo conhecido que foi a miséria produzida pela revolução comunista)? Quem? Tolos, eventualmente.

    O pc e os seus sindicatos (porque os outros nem sindicatos são, mas delegações do patronato para conversarem com o governo do patronato) não têm qualquer interesse em lutar pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores. O que seria o discurso do pc se não houvesse miséria? Daí que toda a intervenção do pc e dos seus sindicatos não ultrapasse a propaganda e as cedências mais descaradas ao governo e ao patronato, camufladas pela retórica reivindicativa. Os sindicatos do pc, como organizações burocráticas, não têm força, e como organizações revolucionárias desprezam as reformas (as tais melhorias). Como é possível com tais sindicatos conquistar, ou sequer defender, seja o que for? Só se for por benesse do patronato ou do governo pelos bons serviços prestados pelo pc e pelos seus sindicatos.

    Se tivéssemos sindicalismo a sério talvez nem o capitalismo português continuasse um capitalismo tão de vão de escada e de sobrevivência à custa dos negócios com o estado ou dos subsídios do estado, e os trabalhadores portugueses talvez tivesse melhores condições de vida. Nem vale a pena afirmar que isto sempre foi assim, uma miséria pegada só minorada pela teta comunitária, ou que a causa está na globalização, porque nem é verdade. Passados mais de trinta anos, a economia e os trabalhadores estão piores do que no tempo do Marcelo, e uma parte das causas residem neste sindicalismo de fachada revolucionária que não luta pelos interesses dos trabalhadores e é conivente com o patronato. Nem no tempo do Marcelo se assistia à escandaleira de tamanha conivência (em relação número de trabalhadores envolvidos) como a que se tem assistido depois do 25 de Abril. E a luta era muito mais difícil naquele tempo, apesar das inegáveis dificuldades de hoje.

    Não se pode sequer invocar que as sucessivas derrotas dos trabalhadores, a perda de direitos e a redução do salário real sejam uma consequência apenas da relação de forças desfavorável; é também, mas a própria relação de força, agora ou noutros períodos menos gravosos, é o que é porque os sindicatos não organizam nem mobilizam os trabalhadores para a luta pelos seus interesses concretos. Arregimentam-nos como tropa de choque para mostrar a força do pc (e, por isso, quaisquer duzentos mil manifestantes é um número relevante, mas irrelevante como número de trabalhadores mobilizados, ainda que apenas para se manifestarem, face aos trabalhadores no activo). Bastaria atentar na redução do número de sindicalizados e o desprezo votado aos sindicatos para compreender a crise de credibilidade do sindicalismo que temos. E a perda de confiança nos sindicatos talvez seja o pior que este sindicalismo tem produzido, em termos de futuro, porque irá demorar a recuperar.

    Será que é tão difícil ver que o pc é um partido sindicato, cuja luta sindical é a propaganda, a retórica reivindicativa, sem qualquer sustentação nos interesses concretos dos trabalhadores e no seu apoio nos locais de trabalho, a qual acaba por se ficar pelo conluio? Se é assim tão difícil ver, então é melhor arranjar olhos de ver. Não sei se se compram no supermercado.

    É escusado identificar este discurso com anti-comunismo; é apenas um tosco retrato da realidade.

  27. r.m. diz:

    Apesar de extemporaneamente (só agora passei por este post), não posso deixar de comentar a ingenuidade, a ignorância e o dislate.
    O capitalismo liberal gerou a degradação absoluta das condições de vida dos trabalhadores. Homens, mulheres e crianças a partir dos 4 ou 5 anos de idade trabalhavam 16 a 18 horas por dia. Os seus salários mal custeavam a alimentação. Alimentavam-se frequentemente de corvos, gatos e cães. Eram vítimas de constantes acidentes e doenças laborais. O desemprego chegava a afectar 30% a 50% deles. Não dispunham de qualquer protecção na doença, no desemprego, na velhice, etc. Viviam em condições miseráveis, nos arrabaldes das cidades, onde alastravam gravíssimas epidemias. De tal modo imperava a miséria entre os trabalhadores que até fisicamente eles se distinguiam dos patrões. Por exemplo em Inglaterra e na França, a estatura média dos filhos destes era superior à dos filhos daqueles, respectivamente em 12 e 10 centímetros.
    A situação dos trabalhadores e, de resto, da pequena e média burguesia era ainda mais agravada pelas sucessivas e prolongadas crises económicas, igualmente provocadas pelo capitalismo liberal.
    A concepção individualista do homem e os princípios da “liberdade natural” e do Estado de direito determinavam a proibição e a consequente punição criminal das greves, dos sindicatos e dos partidos operários.
    Contra as leis vigentes, os trabalhadores, depois de múltiplas acções emotivas, foram organizando greves, constituindo sindicatos, desencadeando protestos públicos e estruturando partidos políticos. Mas as reacções dos empresários e dos Estados liberais foram violentíssimas. Por isso, a intensificação das lutas sociais e políticas tornou-se inevitável. Entre múltiplas outras, destacaram-se a Revolução europeia de 1848 e a Comuna de Paris, em 1871. As conquistas sociais (fixação de horário de trabalho máximo, de salário mínimo, etc.) e políticas (sufrágio universal masculino, etc.) foram extraordinárias. Todavia, o liberalismo ainda teve força suficiente para chacinar os trabalhadores e manter-se por mais uns anos. Para o efeito, só em França, finda a revolta de Junho de 1848, foram fuzilados, sem julgamento, 11.000 trabalhadores. Durante a chamada «Semana Sangrenta», milhares de parisienses foram indiscriminada e barbaramente chacinados pelas tropas do liberal Thiers, e outros tantos communards morreram nos desiguais combates de rua. Após os combates, cerca de 20.000 pessoas foram sumária, aleatória e sordidamente fuziladas. Cerca de 40.000 outras, incluindo crianças, foram presas, tendo muitas delas acabado também fuziladas sem julgamento. Muitos mais conseguiram fugir de França. As perseguições e prisões mantiveram-se até 1874. Nos escandalosos julgamentos ocorridos durante esse período, foram proferidas mais de 13.500 condenações, designadamente em penas de morte, trabalhos forçados, deportação, prisão, desterro e internamento em reformatórios. Paris viu reduzida a sua população em mais de 100.000 pessoas. O estado de sítio manteve-se até 1876.
    Mas o liberalismo era insustentável. E a partir do final da I Guerra Mundial várias Repúblicas Soviéticas foram tentadas em diversos países europeus. Naturalmente, a reacção liberal foi ainda colossal. A “Guarda Branca do Capitalismo” e os “Freikorps” conseguiram derrubar a República Soviética da Baviera, tendo então executado cerca de 2.000 pessoas. O mesmo se passou noutras Repúblicas Soviéticas do Ocidente e do Leste. A Rússia soviética foi invadida por exércitos do Reino Unido, da França, dos E.U.A. e do Japão, que mantiveram o país a ferro e fogo até 1921.
    Todavia, nada ficou como dantes. A partir daí e, sobretudo, após a II Guerra Mundial, os Estados, tanto a Lesta como a Ocidente, passaram a submeter o sistema económico ao sistema político, a intervir na actividade económica, designadamente detendo empresas relevantíssimas, e, em consequência, a conceder direitos sociais aos trabalhadores, restringindo assim o sacro direito de propriedade privada e o princípio da “liberdade natural”. E, ao mesmo tempo que diminuíram extraordinariamente as desigualdades económicas, sociais e culturais, nunca esses países cresceram tanto durante tantas décadas consecutivas.
    Ora, nos últimos anos da história, fruto da confluência de diversos factores que não cumpre aqui dissecar, verifica-se uma regressão no sentido da reimplantação do velho modelo liberal. Para que essa reimplantação seja plena chaga-se ao ponto de pugnar pelo fim do Domingo como dia de descanso semanal, com o argumento de que esta realidade se deve apenas ao facto de o Domingo ser um dia sacralizado pelo cristianismo. E a generalidade das pessoas vai nisto, sem ter consciência das suas dramáticas consequências.

  28. CARLOS CLARA diz:

    JC

    Quando as máquinas infernais do marketing se põem a funcionar no seu pior, ou no melhor para eles, e a informação alimenta algum estrabismo e uma grande falta de ideais, pode ter a certeza que o que resta é rebanho de cordeiros mansos. Eu já nem acredito que os portugueses se sintam felizes arrastando os passos nos centros comerciais ao Domingo, olhando com ar de tédio para montras sem qualquer peva de imaginação . Muito menos, acho também, que se sintam realizados a olhar para telenovelas tontas , concursos para anormais e alarido constante sobre futebol. As sociedades elevam-se ou atrofiam-se conforme aquilo para que são convocadas e da qualidade de instrução e comunicação que se lhes der. Claro que uma revolução não será mais possível, deve sabê-lo, como não seria possível noutro país qualquer ocidental. E cada vez mais, isso sim, ganhará mais eleições o que melhor contar anedotas.

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