Causas & efeitos

N'”Uma família inglesa”, há um episódio em que o sr. Manuel Quintino, pai da Cecília, tem um amok no meio da rua, o Carlos vai à procura dele e trá-lo para casa, e então chamam o “facultativo”, que diagnostica “uma das sete formas de congestão cerebral recenseadas pelo Prof. X [nome alemão impronunciável], felizmente a mais benigna”, e lhe receita caldos e repouso absoluto; depois sangra-o, para alívio de todos os presentes, e sai de cena.

Durante séculos, a humanidade sangrou-se alegremente para fins medicinais (sangrou-se ainda mais para outros, mas esses agora não contam); poucas décadas volvidas, percebe-se que, fora o eventual efeito de placebo, o exercício foi no mínimo inútil, no máximo fatal. Entre o que a medicina fazia e o curso que depois as doenças tomavam, estava longe, muito longe, de haver uma relação de causa e efeito; às vezes havia coincidências felizes, mas mais nada. Os facultativos da época de Júlio Diniz (o próprio Júlio Diniz, que era um deles), a despeito do prestígio crescente da ciência, estavam mais próximos dos seus antepassados das dark ages do que da sofisticação do Dr. House.

À pequena escala, as intervenções que o bravo J., “administrador de sistemas” do sítio onde eu trabalho, opera sobre o conjunto do parque informático e sobre o meu portatilzinho em particular, fazem-me lembrar as desses pioneiros da ciência: em termos relativos, parece-me que a informática do princípio do século XXI está ao nível da medicina do fim do século XIX. A uma escala mais vasta, quando olho pela janela do escritório e vejo o cartaz do “Portugal, Europe’s West Coast” e depois tropeço na pobreza, tão vasta e tão patente, fico com a impressão de que os propagandistas oficiais vivem noutro mundo e mais ainda, de que tudo o que eles conseguem é sangrar o pobre mundo em que nós vivemos.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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10 respostas a Causas & efeitos

  1. Ana Matos Pires diz:

    Nem isso, António, nem isso os propagandistas oficiais conseguem fazer. Um lírico, é o que V. é, meu amigo – e também em relação aos avanços da medicina do século XXI. Já agora, não menospreze o efeito placebo, responde por aproximadamente um terço do efeito terapêutico, sabia?

  2. al diz:

    Uma sangria pode salvar vidas, ainda hoje em dia. Pergunte ao seu médico – ou a um bom médico.

  3. Ana Matos Pires diz:

    Qual, al, a de vinho branco ou a de vinho tinto?

  4. r.m. diz:

    Eu cá, prefiro a de champanhe, ou melhor, a de champagne. Já que pertenço à esquerda caviar, ao menos sou consequente.
    Ah, e por falar em esquerda caviar, gostei da tua tese.

  5. Saloio diz:

    Quem sangra o portuguezinho médio (a maioria da malta cá no rectângulo), é o Eng.º e os seus boys, com os seus refastelados jobs – não é Sr. Dr./Eng. Vara?

    Mas onde anda esta malta aqui do “cinco”??????

    Como são todos da esquerda-caviar, devem ter ido todos para a neve, na Suiça, que isto de irem a caminho do socialismo está bem, mas só de BMW com ar condicionado. Aquela pequena do PS com muitos jobs, que dá aulas, trabalha para um ministro, faz cosultoria privada e é advogada, deve aproveitar a “ponte” para escrever mais um livrinho.

    Feliz Ano Novo a todos…todos!

    Digo eu…

  6. É tudo uma questão de mentalidades!

  7. is a bel diz:

    Eu estou com o r.m. e por falar em champagne e lírios de Teixeira de Pascoaes e minorias… wish you a successful and serene new year!

  8. Bom Ano para o 5 Dias.
    Cumprimentos
    Eugénio Almeida

  9. D. Sebastião II diz:

    Sr. António, em que contribui o senhor para acabar com a pobreza?
    Quanto dinheiro cede você aos pobres?
    Pronto, apague lá este comentário impretinente…

  10. CARLOS CLARA diz:

    Pois sangram, que nem vampiros. Em breve é a água, coitada da água, a ser vampirizada. E quem vê vampiros cor-de-rosa e não vê os alaranjados, só tem um olho, com certeza. Viva a cegueira!

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