O “Público”, hoje e sempre

Que seria de nós sem o “Público”? Que seria dos nossos domingos, da vida em família? De que falaríamos nós, como nos ilustraríamos? Dois exemplos ao acaso, encontrados no “P2” de hoje, permitem antever o terrível deserto em que nos perderíamos: o primeiro encontra-se num excerto de um livro a publicar de Dalila Rodrigues (ex-directora do MNAA e pessoa por quem eu tenho muita consideração, NB) sobre Grão Vasco e reza assim: “Fortemente ancorada numa tradição local de impressionante densidade histórica, e apoiada na evidência visual das monumentais pinturas que fez para a Sé e que aí se exibiram ao longo de dois séculos em diversas capelas, a história mítica [de Grão Vasco] é, antes de mais, um excelente testemunho das impressionantes ressonâncias que o pintor e a sua obra provocaram nos corredores do tempo“.

Quem não tenha ficado suficientemente “impressionado” com a beleza sem afectação desta prosa pode avançar duas páginas e encontrar mais uma das “lindíssimas” crónicas de João Bénard da Costa (“escritor”), vasto texto que não tive fôlego para ler, mas que se anunciava deste modo: “Quando me voltei para um último olhar à fachada, reparei que o corpo cimeiro dos três corpos que a constituem se tingia de um laranja suave, vagamente avermelhado. Último raio do poente que atravessava as núvens?” Pelas razões antes expostas, não soube responder à poética pergunta; mas ela acordou em mim a lembrança de um dos melhores textos de sempre da blogosfera portuguesa (e só por isso, o meu agradecimento ao autor de “O clamor do silêncio”), que se reproduz de seguida:

“A melhor sociedade lisbonense anda fascinada com os famosos «textos lindíssimos» de JBC. Para aqueles, muitos, que não querem esperar pelo «Público» com mais um «texto lindíssimo» de JBC, aqui vai um «texto lindíssimo» de JBC. Chama-se

Amor mundi

1. Na curva do caminho para Vestalli há uma pequena abadia, longe da estrada e dos guias turísticos. Entro devagar na solidão da capela, em busca do que há muito os meus olhos perseguiam. Lá estava, não longe do altar-mor, a pequena maravilha que nas longas tardes da meninice contemplei reproduzida no álbum de gravuras que existia em casa dos meus avós. La Donna e la Ragazza, de Calippo Calimero, uma alegoria das idades da vida, dava-se agora diante de mim, na penumbra do altar-mor de uma abadia lombarda de que nem sabia o nome. Ali fiquei, olhando longamente o delicado traço do colo da senhora desconhecida que Calimero pintou circa 1556. Saio para fumar um cigarro agnóstico e deixo que os meus passos me conduzam pela alameda de ciprestes que leva ao antigo refeitório dos monges. Os ciprestes despertam os mortos adormecidos que trago comigo. Nessas alturas, penso sempre em Guicciardini, um florentino dos Orto Oricellari: «É um facto notório que iremos morrer. No entanto, vivemos como se fôssemos viver para sempre».

2. Na piazzeta de Vestalli, folheio os jornais do dia, que um turista alemão ali deixou por desleixo. Ou seria o destino a anunciar-me que na véspera morrera Katherine Hepburn? Deixo deslizar os meus dedos pelo jornal, passando as mãos no rosto anguloso da rainha africana da minha juventude, senhora muito lá de casa e de todos os meus tempos. «Entre a Audrey e a Katherine mon coeur balance», dizia-me o António Alçada, com os seus olhos travessos, numa tarde de chuva miudinha à porta da Moraes. Uma tarde em que a Helena e o Alberto ainda discutiam como reagir ao «caso» do Béjart. Pouco dado a artes de palco, eu nem sabia bem quem era o Béjart. Encontrei-o anos depois, num festival de cinema nas Molucas, e, quando lhe confessei a vergonha que na altura tive de ser português, confessou-me que já nem se lembrava do salazarento incidente. Mas eu lembro-me de tudo o que não vimos e ouvimos nesses anos em que éramos muito novos e muito felizes. No tempo que me resta, terei dias para me vingar daqueles que furaram os meus olhos?

3. Deixo Vestalli e estes pensamentos edipianos. A patroa espera-me na hospedaria onde sempre me alojo e oferece-me uma pasta divina, que acompanho a golpes de Chianti e cigarradas. Preciso manter esta voz cava de barítono que constitui uma das minhas imagens de marca. O afilhado da mamma, cinéfilo impenitente como já restam poucos, espécie em vias de extinção incapaz de se render à tirania do vídeo e do digital, queria falar comigo sobre a textura da luz branca do último Oliveira. O Amaretto di Saronno, porém, toldava-me o espírito e preferi ir para o quarto, tentando conciliar o sono e a música dos sonetos de Petrarca que sempre me acompanham nestas jornadas italianas. No tecto do quarto, uma antiga cela beneditina, projectavam-se sombras buxuleantes e perfis ocultos, como num filme de Murnau. Seria já o sonho que, numa fábula onírica de gosto duvidoso, reflectia nas traves o perfil rubicundo da minha calva? Procurei dormir. Na vigília, acorreram-me à memória as palavras de Lampedusa de Il Gattopardo: «Il sonno…, il sonno è ciò chie i siciliano vogliono». Com as sombras expressionistas no tecto do quarto, continuei às voltas e reviravoltas na cama áspera da cela beneditina. Corsi i ricorsi de um mamute congelado nos anos sessenta.

4. Se houve um Deus católico em Auschwitz, era um católico não praticante.”

In http://oteuumbigo.blogspot.com/, Julho de 2003

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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Uma resposta a O “Público”, hoje e sempre

  1. CARLOS CLARA diz:

    Nuno… é o que se impõe na imprensa dos grandes grupos económicos. Como afirmou noutro dia, os outros fecham. Há neste jornal e não só um aparvalhamento selectivo. Uns são tontos, outros não são de tempo nenhum.

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