A estação dos presentes

Um dos primeiros chegou na sexta, cortesia da minha excelente colega D., e foi o “Ir pró maneta”. Li-o ontem e tenho a assinalar, apesar da edição mais que cuidada, o que me parecem ser dois erros: a meio da p. 49, a palavra “arquétipa”, que eu julgo que não existe (o substantivo é arquétipo e o adjectivo arquetípico ou arquetípica) e na 83, 8.ª linha, “omimosamente” em lugar, suponho, de ominosamente. Fora isso, a única coisa que prejudica a leitura é a abundante utilização das palavras “nacionalismo” e “nacionalista” ao longo do livro, um anacronismo que a pequena digressão de VPV sobre o assunto na dita p. 49 ajuda a perceber (mas não a justificar): temo que, à conta de valorizar tanto a história política stricto sensu, o autor não reflicta como deveria sobre conceitos que usa algo acriticamente. De resto, VPV parece em definitivo ser prisioneiro da sua idade: por mais à direita que sejam algumas das suas crónicas jornalísticas, esta pequena peça historiográfica – pela maior parte dos instrumentos que usa e das análises que faz – poderia perfeitamente ser subscrita por um autor que se reivindicasse do marxismo; mas quem sou eu para criticar o mestre?

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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5 respostas a A estação dos presentes

  1. pporto351 diz:

    Caro Figueira

    Fico-me pela sua conclusão de que discordo profundamente de que lhe deixo uma visão alternativa.

    O livro é uma visão rara de factos que o ‘politicamente correto’ de há 7 ou 8 gerações para cá trata de omitir, esconder:
    -os franceses não se limitaram a saquear tudo o que cabia nos baús, como já se sabia, mas também a matar crianças, mulheres e velhos, quer por estratégia inumana de punição da resistência popular, quer por mero gozo animalesco dos soldados de Napoleão;
    -foi essencialmente a guerrilha organizada espontaneamente pelo povo fez o trabalho de acantonar e isolar os invasores em algumas poucas localidades do país; o auxílio inglês resultou apenas no combate a um exército invasor acantonado pelas guerrilhas portuguesas.
    -as guerrilhas portuguesas foram muito mais eficazes e temíveis do que as guerrilhas espanholas no combate aos invasores; essa eficácia é por regra omitida, sendo apenas glorificada a resistência dos guerrilheiros espanhóis;
    -o colaboracionismo português esteve longe de se restringir aos poucos jacobinos que havia em Portugal; estendeu-se largamente à Igreja e aos previlegiados que só mudaram de campo quando perceberam que o povo amotinado matava qualquer um que colaborasse com os franceses, fosse ele de ‘esquerda’ ou de ‘direita’.

    Não é difícil perceber porque razão é melhor fazer esquecer que as coisas foram assim.

    Por último, é interessante que é a partir dos membros das juntas locais que preenchem o vazio de poder que, afinal, se virá a formar mais tarde a massa humana que defenderá o liberalismo português. Também a este respeito as coisas costumam se contadas de outro modo.

    Só mesmo VPV poderia desenterrar sem assombro, nem medo, os factos que a historiografia e os historiadores de rigime tratam de disfarçar tão empenhadamente.

  2. jose albergaria diz:

    Subscrevo por inteiro, tirante os detalhes linguísticos (que, parece-me terá razão…) o texto do António Figueira sobre o livro recente de VPV.

    Sendo o VPV da dita corrente historiográfica “neo-positivista” (Oliveira Marques, Maria de Fátima Bonifácio, Maria Filomena Mónica, etc..), pauta a sua abordagem do Século XIX SEMPRE com aquilo que a Escola des Annales sugeriu: o historiador é uma espécie de investigador policial, a quem se exige eficiência na pesquisa, na critica das fontes e IMPARCIALIDADE na síntese que opera quando “escreve” a história (como tão bem explicitou Paul Ricoeur – na sua tese sobre os três níveis de cientificidade da Historiografia).

    Ora bem!, VPV é, porventura, o MELHOR dos historiadores “políticos” no que ao NOSSO século XIX diz respeito.

    Muitas das vezes, só preconceitos ideológicos (que não deveriam vir ao caso da historiografia, dos historidores e da escrita da história) permite a “critica” destemperada e desajustada do objecto criticado.

    Achei curioso o seu “espanto” relativo á possibilidade de “encaixar” o VPV na historigrafia feita por marxistas!

    Isto da historiografia é como a música: existe a muito boa historigrafia (é o caso daquela que faz o VPV) e a OUTRA, quer os autores venham da escola marxista, neopositivista, nouvelle histoire (Paul Veyne, Ladurie, etc), dos primeiros (Marc Bloch e Lucien Fevre) e dos segundos Annales (Fernad Braudel e Geoges Duby)…mesmo até da historiografia pós-moderna!

    Leia a Revolução Liberal, Os militares e a Política, O Poder e o Povo e mesmo até Um Herói Português/Paiva Couceiro e perceberá que o VPV (com o qual não partilho o seu, dele, paradigma ideológico, de sistema político e até de cultura política…) é um dos nossos melhores e maiores Historiadores políticos e, particularmente, em relação ao século XIX.

    José Albergaria

  3. Sérgio diz:

    Caro Paulo Porto,

    Não sou ainda muito velho, nem muito culto nem muito sabedor para postar com tamanho desprezo pela historiografia dita oficial ou pelo rigor.

    Tenho vinte e oito anos e sou professor de História.
    Quer no básico e no secundário e mesmo na universidade, as invasões francesas eram descritas como isso mesmo: invasão, , humilhação, fúria sanguinária e saque. Daí o «viver à francesa» de que fala o povo (esquecimento e omisssão?) Quem permitiu que um exército derrotado saísse com a pilhagem? Olhe Olivença, por exemplo que se perdeu por estes anos do alvor do século XIX. Olhe a governação do «mui liberal» Beresford e dos nossos amigos ingleses dos tratados de Methuen ou, ao tempo, o de 1810. Já agora, onde está Gomes Freire? Quem o enforcou?
    Não ficcione, por favor. Garrett e Frei Francisco de S. Luís justificaram a revolução de 1820 nos termos conhecidos. E olhe que eram pouco dados a revolucionarismos, tendo em mente, precisamente, o terror de França. Aliás, talvez Montesquieu entre mais nestes dois do que Rousseau, mas pronto. E olhe que o futuro Cardeal Saraiva pertenceu a uma junta patriótica (de Viana, salvo erro). E talvez tenha deitado um par de franceses por terra. Só mesmo os sectários de um lado e de outro é que vêm em Napoleão um libertador. E se muita gente se enganou a respeito do novo César (Filinto Elíseo, por exemplo), depressa corrigiram. Garrett fala dessas ilusões. Eu gosto de regressar ao «Dia Vinte e Quatro de Agosto».

    Cumprimentos e votos de Bom Ano de alguém que deveria ser filho de Rousseau e do politicamente correcto, gruta larga para um refúgio quando dá jeito.

    Cumprimentos,
    Sérgio.

  4. Para o Paulo Porto, com serenidade:

    «O livro é uma visão rara de factos que o ‘politicamente correto’ de há 7 ou 8 gerações para cá trata de omitir, esconder (…)»

    O exagero desmesurado cai sempre na insignificância: o que será para P. Porto o “politicamente correcto” de há sete ou oito gerações atrás?

    Parece-me a mim que aquilo que ele sarcasticamente qualifica de “politicamente correcto” de hoje já nem tem nada a ver com o que era a historiografia oficial e académica há apenas duas gerações atrás, mas ele lá saberá…

    Não preciso de repetir as oportunas chamadas de atenção de um Professor de História que acima comenta. Apenas relaço mais esta pérola: «o povo amotinado matava qualquer um que colaborasse com os franceses, fosse ele de ‘esquerda’ ou de ‘direita’.»

    Compare-se com esta sua asserção: «os franceses não se limitaram a saquear tudo o que cabia nos baús, como já se sabia, mas também a matar crianças, mulheres e velhos (…)».

    Descubram as diferenças…

    Preconceitos e desonestidades intelectuais à parte, razão parece apenas ter o Fernão Mendes Pinto (ou o Fausto?):

    « – A guerra é a guerra!»…

  5. al diz:

    Não creio que a obra “Ir pro maneta” pudesse ser marxista. Em VPV encontramos a valorização de particularidades (locais ou até pessoais) que não fariam sentido para um marxista ou seriam desprezáveis.
    O uso do termo nacionalista não constitui qualquer anacronismo, desde logo por possuir dezenas de acepções. Pode-se falar de nacionalismo britânico com os Tudors, ou do Sec. XV e XVI português.
    Com o resto concordo, Vasco Pulido Valente é um grande historiador.

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