Amigo dos seus amigos

Odeio o Trichet. Todos os meses confirmo o meu ressentimento quando pago ao banco a prestação galopante da casa. Detesto aquele ar lampeiro de quem tem só certezas. Acho o Banco Central Europeu muito mais monetarista do que o seu congénere norte-americano que se preocupa com o desenvolvimento para além da inflacção. As razões desta atitude de Trichet e dos seus pares estão bem espelhadas nesta notícia, do Diário Económico, em que se dá eco às críticas do líder dos conselheiros económicos da chanceler Angela Merkel, Bert Rurup, que acusa o BCE de exagerar na liquidez que está a injectar nos mercados para facilitar a vida aos especuladores.

Quem é amigo, quem é? Quem vai ter um excelente emprego num grande banco quando acabar a comissão de serviço no BCE, quem vai?

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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8 respostas a Amigo dos seus amigos

  1. A.Silva diz:

    Não são só os conselheiros do Governo Alemão,o presidente frances tambem já criticou a politica do BCE

  2. Luís Lavoura diz:

    O Nuno deveria era estar muito satisfeito com o Trichet por ter podido comprar a sua casa com o juro tão baixo. É que os juros estiveram durante muito tempo abaixo do nível da inflação para quem quisesse poupar dinheiro. E isso aconteceu devido aos Trichets deste mundo.

    Os juros atuais não estão, de forma nenhuma, altos. Estão apenas ligeiramente acima da taxa de inflação. Tal como é saudável que estejam, uma vez que quem poupa deve ser premiado por esse facto.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Luís Lavoura,
    Se os juros não estivessem baixos, a maior parte dos portugueses não conseguiria ter casa. Poupar o quê? Se temos os salários mais baixos da Europa e mesmo com estes juros que você acha baixos, a maior taxa de endividamento per capita…
    Agora à cerca da questão substancialmente e para sair da vulgata liberal, aconselho-lhe-lhe este texto do João Rodrigues sobre o assunto:
    «No Parlamento Europeu o presidente do BCE apontou para tempos de riscos de inflação e, obviamente, taxas de juro elevadas. Jean Claude Trichet parece acreditar que a inflação vai subir. Continuo sem perceber bem o mecanismo» (Helena Garrido). Não há mecanismo, só uma obsessão. A economia europeia dá sinais de desaceleração, o euro aprecia-se e estiola a competitividade da indústria europeia e o desemprego permanece elevado. Coisas menores. Pelo menos parece que a estabilidade do sistema financeiro, corroída pelas dinâmicas concorrenciais engendradas por processos de liberalização irresponsáveis, é agora uma prioridade. Pena é que o BCE não pareça retirar ilações sobre a arquitectura institucional que dá origem a esta desestabilizadora alternância de períodos de euforia e de pânico (aqui vale a pena ler o euromemorandum de 2007). De qualquer forma, a marca genética liberal do BCE bloqueia soluções que reintroduzam algum controlo sobre os desmandos da finança de mercado. Os eurodeputados, por sua vez, limitam-se a ouvir as palavras de Trichet e parece que também podem fazer perguntas. A falta de controlo e escrutínio democrático do BCE, aliada a um mandato absurdo, estão a custar demasiado caro à Europa.

  4. Diogo diz:

    Caro Nuno,
    Sou um leitor fiel do 5dias mas posts populistas e ocos como estes fazem-me alguma confusão…
    Repare na contradição no seu próprio raciocínio… como é que acha que o BCE injecta liquidez nos mercados? A única forma que o banco tem de fazer isso é baixando o custo do dinheiro, i.e. a taxa de juro (ou neste caso não a aumentando tanto como seria necessário para evitar as pressões inflacionistas).

    Infelizmente a política monetária é um pouco mais complicada que uma conversa de café…

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Diogo,
    Continuando a conversa de café: a expressão “injectar liquidez ao mercado” é do Diário Económico e refere-se aos sucessivos empréstimos que o BCE concedeu aos bancos privados a juros inferiores à taxa de juro de referência.

  6. xatoo diz:

    Os empréstimos que o BCE concedeu aos bancos privados destinam-se a evitar uma situação de falência generalizada e a corrida aos bancos como em 1929 (e como agora ao NorthernRock). No caso do Barclays o Banco de Inglaterra emprestou-lhes biliões a um juro de 6,75% quando os clientes apenas lhes estão a pagar juros de 3/4%; qual é o negócio aqui? – é chutar a crise para a frente e depois logo se verá.
    No mais, isto tem de ser visto na óptica de que o BCE é uma mera filial do FED americano (que é uma entidade gerida por privados, e que “fabricam” livremente a partir do nada o dinheiro que muito bem entendem)
    Contudo, os prejuizos do esquema da pirâmide em beneficio da ínfima oligarquia de investidores são para socializar por todos, através dos bancos nacionais e da acção dos governos neoliberais (p/e em mais valias cobradas nas prestações das casas, do consumo de combustiveis, e do aumento generalizado do custo de vida devida à inflação galopante – provocada pela inundação do capital ficticio)

    e que tal fundar o partido PNPENACNCNCC ? (Não Pagamos Empréstimos,Não Andamos deCarro, NemCompramosNada em CentrosComerciais)

  7. Luís Lavoura diz:

    Nuno, se a Helena Garrido não percebe bem por que é que a inflação pode subir, eu explico. O mecanismo da subida da inflação é o aumento do preço do petróleo (e, atualmente, também dos produtos alimentares), por efeito da escassez desse petróleo (e desses produtos alimentares). O aumento do preço do petróleo faz aumentar todos os preços e, por arrastamento, tende a fazer aumentar os salários. Há então uma grande pressão para que se contrabalance o aumento do preço do petróleo através de um aumento da massa monetária, criando dinheiro através do crédito e/ou da impressão de mais papel-moeda. Essa criação artificial de dinheiro gera ainda mais inflação e ainda mais aumento do preço do petróleo (uma vez que a moeda no qual ele é pago fica desvalorizada), e assim por diante. Gera-se um ciclo de estagnação económica acompanhada de inflação, o qual ficou conhecido por “estagflação” e caraterizou largamente os anos 80 do século passado – antes de a China ter entrado em força no mercado mundial e, com os seus baixos salários, ter dado cabo da inflação.

    Mas este efeito chinês está a passar e corre-se agora o risco de regressarmos à estagflação. É por isso importante que os bancos centrais não entrem em parvoíces e evitem a criação de dinheiro através do crédito fácil, criação de dinheiro essa que não cura doença económica nenhuma, apenas alivia a dôr.

    Quanto ao mais, reitero o que disse no meu comentário anterior: agradeça ao Banco Central Europeu o cuidado com que ele governa o sistema monetário, pois é esse cuidado que permite que os juros estejam tao baixos e que, por isso, Você (e muitos outros portugueses) tenha podido comprar casa. Se estivéssemos no tempo do escudo, em que a moeda portuguesa era governada à paiadão, os juros seriam 10% mais altos e Você viveria numa casa alugada.

    Não diga mal do Trichet: abençoe-o.

  8. eee diz:

    Boas noticias para o lumpen neo-liberal :
    ‘QUEM SALVA O SALVADOR?
    O banco britânico Northern Rock esteve à beira da falência, severamente afectado pela crise financeira estado-unidense. Para a sua sobrevivência o Banco da Inglaterra teve de dar-lhe um empréstimo de emergência no montante de 23 mil milhões de libras (32 mil milhões de euros]. Agora anuncia-se que o Banco da Inglaterra poderá não voltar a ver esse dinheiro: os srs. administradores do Northern Rock transferiram a dívida hipotecária do banco para uma sociedade offshore por ele controlada. O Banco da Inglaterra perdeu assim a garantia colateral para fazer valer os seus direitos. Assim vão as finanças capitalistas mundiais. A crise ainda vai no adro.
    A notícia está em Jornal de Negócios .
    Adenda notável:
    A augusta revista britânica The Economist já defende a nacionalização!
    “Este jornal, para dizer suavemente, nunca foi um fan da nacionalização. Mas com o Northern Rock isto parece crescentemente como a opção menos má do ponto de vista do contribuinte (a menos que apareça um comprador crível). Em qualquer caso, o dano está semi-feito: o Estado já possui realmente um bocado dele” (sic), afirma a publicação. Ver em The Economist .
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    THE WALL STREET JOURNAL RECONHECE O PICO
    “O mundo está a aproximar-se praticamente do limite do número de barris de petróleo bruto que podem ser bombeados a cada dia”, admitiu na primeira página The Wall Street Journal, principal porta-voz do capital financeiro.
    A notícia está em Oil Officials See Limit Looming on Production .
    Durante longo tempo aquele jornal omitiu tal informação, desinformando os seus leitores com notícias irrelevantes de descobertas no deep-offshore (ignorando o custo da extracção em águas profundas) ou da recuperação de petróleo de areias betuminosas (ignorando o custo energético do vapor para extraí-lo).
    Tal omissão e desinformação — praticada pela generalidade dos media que se dizem “de referência” — não abona a credibilidade da imprensa corporativa. O problema mais importante com que se depara a humanidade foi até agora sistematicamente omitido, ou escondido, por estes media.
    Depois deste reconhecimento explícito só falta os provincianos media portugueses, com pretensões a serem “referência” (do que?) começarem a falar do Pico Petrolífero. Acreditarão eles que o silenciamento que praticam altera a realidade física do começo do fim do petróleo? Ou será que aguardam autorização dos que lhes pagam a publicidade? ‘ in resistir.info

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