A “boa” notícia do Diário Económico

Manchete de hoje: “Saiba como será mais fácil despedir em 2008”.

1. Repare-se na utilização da palavra “Saiba”, muito exibida pelos jornais populares. A notícia revela-se pedagógica: não se pretende apenas elucidar o leitor sobre as propostas do “Livro Branco”, propõe-se, sobretudo, ensinar a utilizar esta legislação para despedir mais e melhor.

2. É fácil perceber quem são os leitores que o Diário Económico escolhe. Entre patrões e trabalhadores, o jornal sabe quem são os seus. Está no seu direito. É pena é que não haja jornais em Portugal que defendam a opinião contrária e titulem assim: “Saiba todos os truques para evitar ser despedido em 2008” ou que chamem nomes a uma legislação que serve para transformar todos os trabalhadores em contratados a prazo.

3. Pelo contrário, os outros jornais portugueses que não se dirigem aos patrões, mas por inusitada coincidência pertencem aos mesmos, esforçam-se por convencer toda a gente que a flexibilização dos despedimentos fará nascer empregos… Brilhante exercício de ilusionismo. Não há nada como convencer as vítimas que é para para seu bem que vão para a rua, perdem o trabalho e o ordenado … Está-se mesmo a ver os patrões com um ar compungido a dizerem: “doi-me mais a mim do que a ti”.

Depois dizem que na Rússia é que não há pluralismo informativo. Sempre me sairam uns grandes filhos do Putin…

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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12 respostas a A “boa” notícia do Diário Económico

  1. A.Silva diz:

    Ainda não li o “livro Branco”,ontem ouvi o Sr.Ministro pedir para não se rejeitar á partida a discussão e eu apoio essa posição.Contudo na emissão do programa Negócios da Semana da Sic Noticias ouvi os representantes patronais muito aborrecidos dizendo que não se foi tão longe quanto o que era precisso,que não foram atendidas as suas opiniões.Aguardo para ouvir a opinião das centrais sindicais,que se queixaram e bem do documento ter sido entregue á comunicação social antes de ter sido entregue aos parceiros sociais.Veremos o que vai sair do debate na Concertação Social,certo que faltando pouco mais de um ano para as eleições,Sócrates já anda em campanha eleitoral,talvez não façam muitas maldades.Quanto aos jornais só lhes interessa o que vende,tal como acontece com as televisões,não temos orgãos de comunicação social competentes para tentaram tratar dos assuntos de forma independente

  2. O único jornal independente e que defende os trabalhadores é o Avante, dito por josé casanova numa conferência nacional em junho de 2001. Será que tem razão?

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    JMF,
    Como é óbvio não é isso que eu defendo. A única questão que eu levanto é que não existe pluralismo ideológico nos media. Hoje, é impossível um grupo de esquerda fazer um jornal. Eu participei no Já e sei das dificuldades que tivemos. Não é por falta de leitores que esse jornal não se faz: os jornais dependem muito mais da publicidade do que da venda e essa tem critérios de rentabilidade mas também políticos e sociais. Uma revista interessante de direita, a Atlântico tem inúmeros anunciantes, coisa que não sucederia a uma revista equivalente de esquerda.
    É isto que eu discuto. A sua alusão ao Avante só serve para tapar o sol com a peneira.

  4. xatoo diz:

    NRA
    E que tal falar com os fulanos do El Publico aqui ao lado em Espanha e trazer para cá um género de franchising da coisa?
    Aquilo parece-me um trabalho escorreito e, além do mais, a 50 cêntimos abria-se uma boa brecha nos tablóides ditos de referência cá do burgo

  5. Diogo diz:

    É filhos da puta que se diz. Você trocou o «a» pelo «in».

  6. Model 500 diz:

    Isso até deverá ser assim com dizes. Mas esqueceste do outro lado da moeda. Do outro lado temos mais crescimento económico e, por isso, mais riqueza para distribuir.

  7. CARLOS CLARA diz:

    Assunto delicado, este de patrões e empregados. Em tempos, o patrão fazia o que queria e lhe apetecia com apoio da ditadura. Uma corja de imbecis esses empresários e industriais. Tão imbecis que ao longo do tempo foram falindo e substituidos por outros não muito melhores. Os trabalhadores, ninguém se deu ao trabalho de os qualificar e educar, armas essenciais para a constante luta que é o trabalho. Alguns, com mentalidade criticável tipo “o importante é estar metido lá dentro”, abençoados por palavras de ordem género “o trabalhador tem sempre razão” não fizeram melhor o seu papel. Criaram-se novos ódios. A incompetência de uns e de outros têm provas dadas. Patrões competentes e responsáveis com trabalhadores à altura, fica um assunto adiado. Decide-se por uma nova legislação.

  8. João diz:

    A culpa cá deste lado é sempre dos pequenos…por isso são sempre os pequenos a pagar a factura…
    quanto a jornais…respondem todos à voz dos seus donos…

    que saudades do diário, do já e….

    e ja nem tu estás na focus…

  9. luis eme diz:

    Eu vou mais longe, além do ilusionismo, nunca se manipulou tanto…

    grande máquina socrática…

    Boas Festas para a equipa “magnífica”.

  10. Nos anos oitenta gostava do “Ponto”, não me lembro quem era o director. É verdade João o Já era quase uma “biblia”.

  11. A.Silva diz:

    A Carlos Clara,a questão dos nossos atrasos radica essencialmente no problema das baixas qualificações,situação que não conseguimos resolver durante os últimos 30 anos.Há paises em que as familias fazem muitos sacrificios para que as suas crianças estudem o mais possível,mas na cultura dominante na nossa sociedade a importancia do esforço e rigor nos estudos e no trabalho não é valorizada.Há certos meios onde impera a cultura da mediocraridade.Assim não vamos a lado nenhum.

  12. CARLOS CLARA diz:

    A.Silva

    Não a que “meios” se refere onde “impera a cultura da mediocridade”, para mim ela é generalizada em todos os meios. Não sei se quando se refere “Há países em que as famílias fazem muitos sacrifícios para que as suas crianças estudem o mais possível”, se está a referir a Portugal, onde para alguns é com sacrifício, porque na Europa é normal as crianças estudarem.
    Quanto a Portugal não ser um país de grandes empresários e de gente qualificada, é uma realidade. Conhece algum país bem preparado com as mesmas “fatalidades” e “fado” que o nosso? E olhe que no mundo nada anda fácil. Para alguns não? Isso a gente já sabe.

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