Luís Rainha: A bússola dourada do engenheiro
20 de Dezembro de 2007 por Nuno Ramos de AlmeidaJá repararam nas amplas avenidas escoltadas por palmeiras que irromperam algures em Xabregas? Já deram pelo Silicon Valley que medra florescente pelo Alentejo afora? E já temos direito a um líder hollywoodesco e musculoso, assim tipo o Arnie dos californianos? Não? Estranho. Então se a grandiosa campanha “Portugal: Europe’s West Coast” já está no ar… os efeitos deviam estar bem à mostra, omnipresentes, esmagadores, rutilantes.
Esta campanha espelha às mil maravilhas um estilo de governar bem nosso conhecido: urge é inventar siglas, acrónimos, frases que encerrem um propósito de dinamismo, que nos dêem a ideia de que as coisas mexem, mesmo que a pasmaceira real teime em permanecer. Portugal é a pátria de acolhimento de uma horda de miríficos animais exóticos, do calibre de um “Plano Tecnológico”, de uma “e-escola” e muitos outros. Entes mitológicos desenhados para projectar espectaculares sombras nos fundos da nossa caverna esquálida, animando o palonço, deslumbrando o tonto e banhando o decisor numa aura de taumaturgo imparável.
Aliás, o nosso Primeiro parece ter por fim encontrado um guru mesmo à sua imagem.
O publicitário Pedro Bidarra andava há anos a tentar vender uma suposta “grande ideia” que teve um dia: fazer Portugal “sair do Sul” e emigrar para o West. O imaginário do Orange County, dos Cowboys, das donzelas patinadoras ziguezagueando entre as palmeiras… tudo isto vai agora trabalhar em nosso favor. Criando, segundo o guru, “uma poderosíssima rede de associações que induzirá o estrangeiro a reavaliar o país”. Mas como é que um pensador assim ainda não tem um ou dois ministérios a seu cargo? Sul é pobre, West é showbizz, lantejoulas, o “Pugresso”, enfim. Basta associarmo-nos a uma ideia supostamente residente na cabeça de todos — que “West Coast” é coisa fixe — para que todos nos vejam através de rosados óculos de Sol DKNY.
Conseguimos passar para a cauda do pelotão sulista? Não faz mal, pois vamos berrar que agora somos a Califórnia da Europa. O país continua a mesma choldra exótica dos últimos 20 anos? No problemo: fazemos de conta que somos uma espécie de Disneylândia peninsular.
A campanha está aí, estranhamente veiculada para que o portuga também dê pela inopinada mudança: umas fotos de artista estrangeiro misturando paisagens, caras mais ou menos (nossas) conhecidas e gajas boas, anunciando a fuga do famélico Sul para o deslumbrante West.
Em breve, devemos começar a discutir uma outra iluminação do guru: mudar a bandeira portuguesa. A que temos parece, de acordo com o guru, coisa “africana”; mudá-la para um design mais cosmopolita será meio caminho andado para chegarmos ao Futuro.
Eis o pensamento publicitário em todo o seu duvidoso esplendor: para ter um grande e vendável produto, não é mesmo preciso torná-lo melhor, pois isso são coisas complicadas e fora do alcance de mentes formatadas pelos templates do Power Point. Basta fazer um novo logótipo, um slogan “impactante” para o acompanhar e voilá: a realidade não tardará em seguir o desígnio dos “criativos”. Música para os exigentes ouvidos do nosso Primeiro, claro.
Um dia, vamos é acordar a viver numa espécie de Second Life dos pobres; lindos de morrer nos anúncios, burros e feios como sempre no implacável espelho da vida a sério.

Comentário de Tárique
Data: 20 de Dezembro de 2007, 20:40
A Bandeira e o Hino, que para o Bidarra hino como deve ser tem de mandar vir com “os paneleiros”. Enquanto a marca Portugal, à semelhança de todas as outras em que toca, não for vendido como se de cerveja se tratasse, Bidarra não descansará.
ps.: o que é feito do Luís Rainha ?