Rui Tavares: a cidade com asas

Chego a Brasília a um sábado, por coincidência no mesmo dia em que o arquitecto da cidade, Oscar Niemeyer, faz cem anos. Da janela do avião olho as luzes da cidade e procuro distinguir o seu contorno, que tem também a forma de um avião. Ao centro o Eixo Monumental, para os lados as zonas residenciais, chamadas Asa Sul e Asa Norte.

Contrariamente ao erro comum, mesmo aqui no Brasil, Niemeyer não inventou Brasília. O político por detrás da ideia foi, como é sabido, o Presidente Juscelino Kubistchek. Mas quem desenhou a cidade em forma de avião foi o urbanista Lucio Costa.

Os edifícios mais importantes da nova capital brasileira, isso sim, foram criados por Niemeyer. Vão do sublime ao excelente e ao interessante, da catedral ao congresso e ao novo museu, dando origem a uma cidade percorrida toda ela pela mesma linguagem, harmónica e espaçosa. Brasília será menos bela do que Veneza ou o Rio de Janeiro? Sim. Mas é certamente muito mais agradável, equilibrada e, se quiserem, humana do que Casablanca, Uberlândia ou Dallas.

Muito antes de ter vindo aqui pela primeira vez, os amigos brasileiros diziam-me que, por decisão dos seus criadores, não havia árvores em Brasília. Essa historieta contribuía para criar um estereótipo de uma cidade anti-natural. Ainda recentemente a vi reproduzida no Expresso. Só tem um problema: é mentira. Na verdade, Brasília deve ser uma das cidades mais verdes do mundo. Enquanto escrevo esta crónica basta espreitar pela janela para ver uma vintena de belas árvores, que ocupam os espaços vazios entre os prédios perpendiculares às ruas (os prédios são perpendiculares às ruas e não paralelos, por decisão de Lucio Costa, o que deu origem a outro mito: o de que Brasília não tem esquinas).

O que justifica uma tão grande oposição entre o mito a realidade? Há talvez uma explicação simples: durante anos após a inauguração, as árvores recém-plantadas ainda não tinham crescido. Mas há também outra explicação: a rejeição instintiva que muitos humanos têm ao “artificial”, rejeição essa que se exprime através destes mitos. Da mesma forma, já ouvi dizer que a pronúncia do esperanto é horrível (não é: parece italiano) porque é uma língua “artificial”. E Brasília teria que ser supostamente desumana pelo simples facto de, paradoxalmente, ter sido uma criação humana ao invés de simplesmente ter aparecido na paisagem. Mas pensemos bem: não é, no fundo, qualquer das nossas cidades uma criação humana?

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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2 respostas a Rui Tavares: a cidade com asas

  1. CARLOS CLARA diz:

    Brasília mudou. As cidades hoje mudam muito rapidamente quando os países evoluem economicamente , na China por exemplo. Mas que Brasília nos finais dos anos 70 era um deserto, lá isso era. Era uma espécie de bienal de arquitectura. As pessoas como eu que tinham ido ver as obras de Niemeyer andavam quase sozinhas pelas ruas. Era a cidade dos ministérios e embaixadas. Durante o dia, estavam a trabalhar, há noite frequentavam as casas uns dos outros, disse-me um diplomata do Uruguay. Fui revisitar as fotos que ainda guardo, e na verdade não há quase verde, devia estar a crescer. O que vejo, sim, e ainda me recordo bem, é de bastantes esculturas em espaços livres. Belíssimas obras. Talvez por isso não achei Brasília desumana. Afinal não serão a arquitectura e a arte o melhor dos lados para a humanização de uma cidade? Tem razão Nuno, fala-se sempre de Niemeyer e nunca de Kubistchek quando se fala de Brasília, e muito menos de Lucio Costa de quem já não me recordava. Aquela ideia de Kubistchec de criar uma cidade de raiz, colocando serviços, com a a finalidade de desenvolver uma região, foi genial.

  2. Penso que a questão não será bem essa. Brasília difere das Cidades “comuns” (mas não tanto quanto se supõe…) sobretudo por ter sido integralmente planeada de raíz, não tendo “crescido” ao sabor de intervenções aditivas e consolidadas através de várias épocas.

    Parece-me a mim que o preconceito sobre Brasília radica mais no facto de ter por trás um “conceito global”, estatuído à nascença por uma decisão planeadora e directora, superior aos somatórios das habituais intervenções “avulsas” provenientes, casuísticamente, das iniciativas do tecido social e económico.

    No fundo, uma re-edição no plano do urbanismo da clássica oposição ideológica entre estatismo planificador e dinamismo “liberal”…

    Preconceitos à parte, sou dos que não têm uma opinião pré-formada sobre estas duas formas distintas de urbanismo, dado haver bons exemplos dos dois lados. Vejam-se os casos de Alfama e dos Olivais (bons exemplos dos dois conceitos opostos) e, como maus exemplos respectivos, Massamá e Chelas…

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