O lugar mais importante do mundo

Não gosto do IKEA, nunca gostei. Primeiro, porque o designex democrático que lá se vende é uma foleirada, e ir lá fazer compras um tormento, superior a ir comprar trapinhos com a minha filha. Segundo, porque me irrita o ar bonzinho daquela gente, hipócrita como os nórdicos sempre são, a mostrar os maridos na cozinha a ajudar, quando eles estão bêbados de tanta aquavit, a bater nas mulheres e a traumatizar as crianças. Agora o catálogo 2008 do IKEA oferece-me uma terceira razão para não gostar deles – filosófica, desta vez. A capa diz assim: “A nossa casa é o lugar mais importante do mundo” – o que, pirosice à parte, é uma perturbadora afirmação da hegemonia do value pluralism na sociedade portuguesa moderna. Eu não contesto que cada um goste da sua casa (eu gosto da minha), mas contesto que cada um ache a sua casa o sítio entre todos mais importante do mundo e que haja em Portugal dez milhões (ou dois ou três, se fizermos a conta aos fogos e não aos habitantes) de concepções diferentes sobre qual o lugar mais importante do mundo. Quando em Portugal ainda havia valores, os católicos deviam achar que o lugar mais importante do mundo era Roma, os descrentes podiam julgar que era antes outra coisa qualquer – do mausoléu de Lénine à taberna da esquina, as variações eram múltiplas – e até podia haver quem achasse que era a sua própria casa. Entre todos eles, tinha de haver tolerância, condição da paz civil; agora não havia era esta falta de ambição, este umbiguismo, este fechamento sobre si que implica não conceber um lugar no mundo mais importante do que o seu petit prè carré. Se a casa de cada um é, de facto, o lugar mais importante do mundo, se essa convicção íntima é por definição insusceptível de ser objecto de proselitismo ou de partilha, isso quer dizer que no mundo, por haver tantos lugares importantes, não há nenhum que o possa realmente ser. E assim, ninguém ambicionará a mais do que ter uma casa cheia de tralha do IKEA.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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21 respostas a O lugar mais importante do mundo

  1. Sérgio diz:

    O Sr. IKEA deve achar a sua homeland tão perfeita que prefere procurar países de linguagem desenvolvimentista modernaça e de fluente economês, com líderes políticos facilmente impressionáveis para instalar fábricas de mobília (barata ou cara, não importa o pretensiosismo) em zonas protegidas, agora esquecidas por esse acrónimo que diz tudo sobre a sua seriedade quando ressoa: PIN. Sujar? É em casa dos outros, de preferência pobres e pouco exigentes.

    Cumprimentos.

  2. ezequiel diz:

    value pluralism????

  3. António Figueira diz:

    Isso: a peçonha do pluralismo (tão certo quanto os nórdicos serem todos bêbados e baterem nas mulheres); não acreditas?

  4. JC diz:

    1.”quando eles estão bêbados de tanta aquavit, a bater nas mulheres e a traumatizar as crianças”. Desculpe, se substituir “aquavit” por vinho ou bagaço não estará a falar de Portugal?
    2. Os ingleses dizem “An Englishman’s home is his castle” o que significará que nela se sente mais forte, porque rodeado daquilo que reflecte a sua personalidade e o ajuda a sentir-se bem consigo próprio, faz parte do seu carácter. De facto, poucas coisas reflectem mais a personalidade de cada um do que o modo como decora a sua casa, quais os seus objectos, os seus livros e discos, as suas peças favoritas, as fotografias do seu presente e do seu passado. Para quem tem “espessura” os “seus” objectos não são apenas objectos, são tb a sua vida. Claro que a frase promocional dp IKEA é apenas isso mesmo – uma frase promocional – e como tal sempre um pouco redutora e destinada, fundamentalmente, a fomentar a compra, tal como tb redutoras são todo este tipo de frases e definições, mas parece-me que v. não o terá entendido e resoveu partir daí para um texto onde se vislumbra um certo racismo cultural (e social?) anti nórdico ou anti Europa do norte, muito comum a uma certa mentalidade latinocêntrica, pouco consentânea com a pluralidade que, por palavras, pretende afirmar. Não é assim?

  5. António Figueira diz:

    É; é evidente que eu não entendi que “a frase promocional dp IKEA é apenas isso mesmo – uma frase promocional” e que quero imenso afirmar “a pluralidade”, seja lá do que for.

  6. Compreendo que os jornalistas tenham dias com falta de inspirção.

    E t^m que ecrever alguma coisa!

    É a vida. E eu não sou incauto – já estou habituado!

  7. António Figueira diz:

    “Incauto”? Ora, ora, habituadíssimo…

  8. JC diz:

    Pois, uma frase promocional, mesmo assim um pouco menos redutora do que definir os nórdicos como hipócritas e com esta frase: ”quando eles estão bêbados de tanta aquavit, a bater nas mulheres e a traumatizar as crianças”. Será que os alemães são nazis, os espanhóis sanguinários, os polacos “bimbos, os ingleses “snobs” e… vale a pena continuar?
    Cumprimentos

  9. JC,
    São todos isso tudo e nós também.

  10. Carlos Fonseca diz:

    O que escreveue corresponde a um caminho espúrio, e infalivelmente xenófabo, para reduzir os homens nórdicos a ‘bêbados de aquavit, a bater nas mulheres e trumatizar as crianças’. Pretexto: não gostar do IKEA.
    Gosta do Pingo Doce ? E do Continente ? E da Tátá Rodrigues, onde a Fernanda Câncio fazia as suas ‘compritas’. Há alcoólicos em Portugal, anónimos e declarados? Quantos ? Sovam as mulheres e os filhos ? Responda com rigor estatístico. Caso ignore , …!
    Ao preocupar-se tanto com o estilo de vida nórdico, dê uma volta pelas ‘Noites Brancas’ das urgências hospitalares. Não resisto a classificar o seu texto de uma enorme grosseria, de contornos xenófobos e nojentos, próprio do pretenso intelectual de chinela no pé.

  11. topisciis diz:

    poderá entender-se que o post de AF é xenófobo q.b. ?

    desanca nos nórdicos.
    e eis logo aparecem os quixotes dos brankelas

    Questionamos os quixotes.

    Têm cabelo castanho ou escuro?
    Têm olhos castanhos ?
    Têm uma tez escura tipo mediterrânica?
    Têm viatura com um ” P” na matricula?

    Então vão até à Dinamarca, Finlândia ou mesmo Suècia
    e terão por parte de alguns nórdicos o tratamento à nórdico.

    Pois os quixotes deste país e com aquelas características são nesses países tratados como ” pretos ”

    Mal por mal prefiro os bifes ……

  12. ezequiel diz:

    Caro António.

    concordamos acerca disto: detesto ikeas, habitats e outras insípidas modas nórdicas..aquele aspecto clínico-higiénico, as cores soft (beiges etc) dão-me voltas à pandega. Preferiria ser eu a fazer o mobiliário se fosse confrontado com a possibilidade de herdar ou de ter que comprar esta merda.

    Quanto ao resto: “A nossa casa é o lugar mais importante do mundo”..repara que aqui o “nossa” desempenha a função subliminar de associar a tua casa ao ikea..é um nosso incorpora a tua casa no ikea. Logo, julgo que podemos entender isto como uma forma de conquista imperial universalista. (uma anexação da TUA casa-esta sim “pertencendo” ao value pluralism- ao universalismo omnipotente da ikea)

    estes hegemonic discourses!!!!

    cumprimentos
    eh eh eh eh 🙂

  13. CARLOS CLARA diz:

    GOSTO DOS NÓRDICOS, SIM SENHOR! E TENHO AMIGOS NÓRDICOS TAMBÉM.
    Quanto ao Ikea que conheço há muitos anos, dos países nórdicos também, também gosto, não por mim. Gosto do Ikea nos países nórdicos por se tratar de uma gama dirigida aos jovens e consequentemente barata e prática. Por lá, os jovens saem de casa para ster a sua própria vida. Não dormem em promiscuidade com as suas namoradas/namorados em casa dos pais. Depois, também não é normal nesses países os pais comprarem casa aos meninos e as estremadas mães levá-los a lojas caras para comprarem tudo o que os velhadas acham que os jovens devem ter. Depois, ainda, os jovens de lá também não andam de carro comprado pelos pais , fazem-se à vida e são cooperantes uns com os outros – até se ajudam entre eles a montar as mobílias do Ikea. Pessoalmente, o Ikea não faz o meu género, mas eu já não sou jovem. O que acontece em Portugal, é que muitos portugueses da minha idade adoram ir ao Ikea, quando já têm idade para ter juízo. Também foi assim com o Galeto- snack bar . O snack bar em Nova York era para os jovens como eu, pois não tinha dinheiro para os restaurantes, contudo, por cá quando abriram estavam cheios de canastrões e era chic. Saloísmos difíceis de curar. Quanto ao resto… isso é marketing. O português faz mais a onda do carro.

  14. carmo da rosa diz:

    @ topisciis:
    ‘poderá entender-se que o post de AF é xenófobo q.b. ?’

    Não.
    Porque não fala de pretos, índios ou árabes, os meninos queridos de estimação da esquerda, nos outros, pode-se desancar q.b.!

    A IKEA teve a ideia genial de fazer fabricar (por pretos, índios e árabes) coisas práticas, bem construídas, eficientes e a preços acessíveis a todas as bolsas. Por outras palavras, conseguiu popularizar o design, coisa que a elite não suporta nem com sauce béarnaise. Agora, a elite, para se poder diferenciar do povo, vai ser obrigada a pagar pelas mesmas mariquices (mas assinadas) um balúrdio.
    É bem feito, que é para não se armarem em carapaus de corrida…

  15. caro carlos clara e restantes blogoleitores

    nos países nórdicos os jovens saem de casa dos pais e tornam-se independentes mais cedo porque podem. isto não significa que os jovens portugueses sejam todos meninos da mamã, agarrados à chucha parental. significa apenas que nos países nórdicos existe uma rede socio-económica que permite a independência e em portugal não.

    exemplos? provas?

    o estado sueco providencia uma bolsa de aproximadamente 200 euros por mês a cada estudante universitário – leia-se DÁ. acrescenta a isso uma determinada quantia mensal que serve para cobrir as restantes despesas mensais do aluno e que ele terá de pagar com juros após terminar os estudos. no total, cada estudante a tempo inteiro recebe quase 750 euros por mês do estado. há uns anos a taxa era tão baixa que há ainda neste momento muitos professores universitários (exemplos que conheço) a pagar ao estado o seu empréstimo do tempo de estudante.

    a isto acresce o facto de a carga horária semanal dum estudante, mesmo a tempo inteiro, ser mais baixa na suécia do que em portugal (mais trabalho independente do que na sala de aula, creio), e organizada de tal forma que permite a quem estuda trabalhar para se sustentar – sem existir a marginalização do curso da noite, que pelo que me tenho apercebido tem vindo a desaparecer da maioria dos estabelecimentos de ensino superior portugueses, nem a necessidade do choradinho junto ao professor “mas eu sou estudante-trabalhador, não pode mudar a data do exame/da aula/da sessão?”.

    há igualmente a possibilidade de se fazer o curso a meio-gás (nesse caso a mesada estatal é reduzida, dependendo da carga horária escolhida).

    é claro que isto é uma análise simplista da questão, outros factores serão importantes para criar estas diferenças, mas perturba-me que se acuse portugal e se enalteçam outras realidades quando não se tem sequer a noção do que realmente acontece nos outros sítios. e isto é válido para esta questão como para outras. porque é que em portugal tem de ser tudo pior? é que, realmente, NÃO É.

    cumprimentos a todos

  16. CARLOS CLARA diz:

    Ana Anselmo

    Picou-se com os meninos da mamã? Sei muito bem das regalias , mas também dos deveres, dos jovens nórdicos. Eu disse que tenho vários amigos nórdicos e devo dizer-lhe que todos os anos recebo em minha casa filhos de amigos que vêm de férias. Sabe, da primeira vez que por cá estiveram, acharam que os jovens portugueses deviam ter óptimos empregos porque andavam na sua maioria de carro e tinham uma vida de consumo elevada. Serão esses, jovens estudantes, que vão no seu carro para a faculdade, que se vestem como os nórdicos não vestem, jantam fora com os amigos e muitos deles com mesadas de 200 euros que tanto defende como sacrificados? Claro que existem também os outros, os que não têm tudo isso mas a família vai dando o jeito para não ser menos que os tais. Depois ainda há os mesmo carenciados, que ainda são muitos, mesmo muitos , mas esses são os que saem mais cedo de casa e os que ainda fazem filhos.

  17. carlos clara

    se fui ou sou menina da mamã é coisa que não lhe diz respeito. acha que me piquei? acredite que podia ter sido muitíssimo mais incisiva na minha resposta, mas o que pretendia era apenas esclarecer uma situação que o carlos clara deixou numa zona cinzenta (assim num tom a dar para o muito escuro).

    eu também tenho amigos nórdicos. e lido com nórdicos todos os dias – talvez até com os filhos dos seus amigos, os tais que todos os anos recebe em sua casa. provavelmente por isso mesmo, tento usar com cuidado as generalizações às quais o carlos clara aparentemente não tem pejo algum em recorrer.

    é que, se eu fizer como o carlos clara, sou capaz de começar a dizer por aí que os jovens suecos são preguiçosos, que não estudam excepto quando obrigados, que vivem das benesses de professores demasiado indulgentes para os obrigar a entregar trabalhos com prazo fixo e sem possibilidade de revisão, que desenvolvem trabalhos de nível preparatório que são aceites (pasme!) como de nível universitário; posso dizer que são bêbedos, brigões, descontrolados, promíscuos; ou até que gastam os tais 750 euros que ganham mensalmente em álcool (muitas vezes clandestino) nos dois primeiros fins-de-semana de cada mês porque o que interessa é que o zumzum na cabeça não passe até conseguirem levar para o quarto o borrão humano que se balança a uns passos de distância na discoteca; posso até dizer que o que não gastam em álcool estoiram em roupa de marca (lacoste, fred perry, boxers bjorn borg, …) e gel para o cabelo.

    e, sabe, eu poderia dizer isto tudo e o mais espantoso é que seria tudo verdade – porque é! o que não impede que seja igualmente injusto e redutor. da mesma forma que o que o carlos clara escreveu acerca dos jovens portugueses é verdade, mas é igualmente injusto e redutor. porque não é verdade para todos os jovens, nem os jovens para os quais é verdade são apenas o que descreveu.

    consegue perceber isso?

  18. já agora um post-scriptum:

    acha realmente que uma mesada de 200 euros é uma exorbitância?
    se retirar 100 euros para os transportes públicos (e muitos estudantes pagam mais) e 40 euros para o almoço numa cantina universitária (admitindo 20 dias úteis por mês e 2 euros por refeição, o valor actual), sobram 2 euros por dia para fotocópias, livros, etc.

  19. carmo da rosa diz:

    Generalizações são sempre redutoras!

    Mas se me obrigassem, com uma arma apontada ao peito, a escolher qual deles é o mais menino-da-mamá, os jovens nórdicos ou os nossos rapazes?
    Eu, que conheço bem os dois espécimes, nem pensava duas vezes. A diferença é tão grande, os nossos rapazinhos são tão mimalhos, que nem vale a pena estudar o assunto ou avançar com exemplos e provas…

    Mas pronto, já que estamos com a mão na massa apenas um exemplo: o facto dos nossos meninos ‘andarem de carro comprado pelos pais’, exemplo sintomático que Carlos Clara cita e que a mim também me saltou à vista quando dei umas aulas de verão num instituto de design em Portugal. Quase todos os meus alunos vinham com o seu próprio carro para as aulas!!!
    Quando estudei fotografia na Holanda todos os alunos tinham bicicletas ou usavam os transportes públicos para se deslocarem…

    O meu rico filho, muito nórdico, muito cabeça de queijo, ia normalmente de bicla de verão e de inverno prá escola – este meio de transporte ainda foi pago por mim. Aos 16 anos deu-lhe na telha que queria uma motorizada. Foi trabalhar no verão para a pagar. Nada de mais natural nas redondezas. Aos 19 quis um carro, o que segundo ele dava mais jeito para ir ao engate. Muito bem, foi trabalhar para uma empresa de mudanças e ganhou o suficiente para tirar a carta e comprar um Toyota todo escavacado por 600 Florins… Nem sequer lhe passou pela caixa dos pirolitos pedir-me dinheiro para comprar um carro, com medo que eu, ao pagar o carro, me sentisse no direito de ir ao engate com ele…

    A Ana Anselmo diz que ‘nos países nórdicos os jovens saem de casa dos pais e tornam-se independentes mais cedo porque podem. (…)significa apenas que nos países nórdicos existe uma rede sócio-económica que permite a independência e em Portugal não.’

    A rede sócio-económica não caiu do céu, construiu-se com muito trabalho. Mas é sobretudo uma mentalidade, em que trabalho (manual ou outro) é visto como algo positivo, não é castigo. Ao contrário de Portugal, em que os pais no meu tempo ameaçavam os filhos com…. trabalho: – ‘Ai filho se reprovas vais trabalhar prás obras!!!
    Mas o mau exemplo começa logo de pequeno, em casa. Onde não é costume os meninos fazerem alguma coisa. Os pais estão sempre com medo que os meninos coitadinhos se cansem. Mais tarde tornam-se maridos insuportáveis para as suas mulheres, que já não estão para os aturar, como as mães deles.
    E esta mentalidade (citadina) de sangue azul ainda perdura, e infelizmente creio que até já chegou às nossas aldeias. Trabalho (sobretudo manual) é pró preto ou pró ucraniano. Os nossos meninos, ai coitadinhos, querem um trabalho limpinho…..e que não dê muito trabalho…

  20. luana diz:

    vc e feio de mais

  21. aNA PAULA SOARES DA SILVA diz:

    EU AJEI ISSO MUITO IMPORTANTE PARA A NOSSA APRENDIZAGEM, QUANTO MAIS PARA NOS QUE SOMOS ESTUDANTES AINDA, MAS QUE BREVE VAMOS NOS FORMAR UM DIA

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