O sol rompia a custo o plúmbeo céu

A jovem inglesa, poética organização setentrional, delicada como o arminho, subtil e vaporosa, vaga e imaterial, quasi celestial, parece a nós, entes grosseiros, rodeada de uma atmosfera de uma castidade virginal, no seio da qual os desejos – esses filhos alados da imaginação – se abatem asfixiados (belezas como ela foram por certo as que inspiraram as imagens das virgens dos cantos do bardo Ossian!).

Nela, a paixão de amante, a ter de inquietar o coração, dificilmente se revelaria, a não ser adivinhada; mas depois, se o fosse, ou havia de consagrar-se na de esposa, de sublimar-se na de mãe, ou lentamente a consumiria; ser-lhe-ia fatal, se por não compreendida, não chegasse a realizar essa santificada evolução.

O sol rompia a custo o plúmbeo céu e os nossos aliados ingleses, fatalmente perseguidos de spleen, imaginam-se lúgubres e soturnos, como se a cada momento saíssem de uma mina de pit-coal (por lhes faltarem os vívidos raios do nosso desanuviado sol, ou a face desassombrada da lua no firmamento penínsular, vertendo alegrias nas almas e mandando aos semblantes o reflexo delas).

Quem me mandou a mim, coleccionador de lugares-comuns literários, voltar na idade adulta a ler o insuperável Júlio Diniz?! De copo na mão, dei por mim a altas horas a acordar a família e a decompor em rima farçola a Família Inglesa, estropiando-lhe o sentido, sempre que necessário, só para apanhar o verbo fácil, o redondo vocábulo, o lugar-comum perfeitinho como eu gosto, e com aquele perfume de selecta literária dos liceus que me dá a volta à cabeça! E depois a referência a Ossian, esse genial embuste do nacionalismo europeu: hei-de escrever-lhe um post, quando acabar o da Lynn Hunt e da história da pornografia, e antes do da Arendt e do pluralismo que devo ao Ezequiel, está prometido.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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11 respostas a O sol rompia a custo o plúmbeo céu

  1. Lololinhazinha diz:

    Ó António Figueira…o Júlio Diniz??? deve ser responsável pela aversão à leitura por parte de duas gerações inteiras!! O Júlio Diniz? Não fiz mal a ninguém…
    (parece um comentário ignorante mas é apenas uma reacção alérgica)

  2. ezequiel diz:

    Júlio Diniz! Já não ouvia este nome há muito tempo.

    ok, António, a promise is a promise….with no deadlines, obviously. 🙂

    Sobre Arendt, encontrei recentemente um Caderno, publicado pela UNL (julgo eu), que resultou de uma conferência sobre Arendt que teve lugar em Lisboa. O caderno-livro, apesar de ser carote (20 e tal euros) tem textos excelentes. Um deles foi escrito por Annie Hewitt, uma amiga minha…gostei muito de o ler. Fiquei todo babado de orgulho pela Annie! 🙂

    É provável que conheças isto António. Mas, no caso (remoto) de não conheceres, fica aqui a ref. http://www.ifl.pt/cadernos/

    abraço, ezequiel

  3. ezequiel diz:

    as férias do Natal estão quase aí…

    a capital da luminosidade está linda…! jantar no 1 de maio e depois FUN FUN!!

    O Dinis (Gomes) djying hoje no lux…um FUNKY revival!:)

  4. al diz:

    Mas cita João de Lemos e fala de Júlio Dinis?
    Já leu a “Lua de Londres”?

  5. António Figueira diz:

    “Cita João de Lemos”?
    A ignorância é atrevida e às vezes um bocadinho maçadora.
    Leia as páginas 8 e 13 de “Uma Família Inglesa” (2ª edição, de 1870), confronte com o post e poupe-me as provas de erudição, sff.

  6. al diz:

    Quase tão atrevida e maçadora quanto a falta de princípios.
    Fui consultar (não a 2ª edição, mas a existente cá por casa). Júlio Dinis cita João de Lemos. Eu não lhe assaquei confusões autorais, mas a mera omissão do nome do poeta da Lua de Londres.
    Entre ser alcunhado de atrevido a propósito de Júlio Dinis – que escreve muito bem, diga-se de passagem – e o prazer genuíno que tive pelo apodo de ignorante a propósito de uma Familia Inglesa acabei por me rir.

  7. António Figueira diz:

    É sempre com surpresa e prazer (“genuíno prazer”, claro) que encontro alguém que se levanta quase às duas da manhã de um dia de semana só para vir aqui provar que tem imensa razão. Acontece que não tem: e a menos que a edição que tem lá por casa seja em tudo diferente das outras, os três parágrafos aqui glosados da Família Inglesa (logo do princípio, quando o A. descreve a família Whitestone) não têm nenhuma espécie de relação com outro autor que não Júlio Diniz (e se isto não for verdade, agradecem-se citações que façam prova do contrário). Poupe-nos por isso – repito – às suas inúteis mostras de erudição, à Lua de Londres ou de outro lado qualquer, mas volte sempre, para não se rir sozinho.

  8. Helena Fernandes diz:

    Esta discussão é ridícula.
    Fui ver o livro e as passagens estão lá, embora um pouco modificadas, e não há sinal de João de Lemos nenhum.
    Porque haveria o António Figueira de escrever que isto era do Júlio Diniz se não fosse?
    Afinal, nunca haveria plágio nenhum, porque ele cita a fonte – e tanto se lhe devia dar citar um como citar outro, ou não?
    Já é mania de embirrar…
    Continua, António, que aqui a tua colega apoia-te! (mas não gosto de Júlio Diniz, ficas sabendo…)

  9. al diz:

    Na minha edição está em itálico, pag. 5, no parágrafo que começa por “Teimam de facto estes (…) e depois fala da lua do firmamento peninsular que não tem de romper a custo um plúmbeo ceu – que é o começo do célebre poema de João de Lemos. Júlio Dinis não diz mais porque os seus leitores, ou a esmagadora maioria deles, identificaria de imediato o poema como hoje identificamos as letras das canções que são grandes sucessos, mas a citação está lá.
    Não há nada de erudito no meu comentário e claro que nem me passou pela cabeça acusá-lo de plágio.
    Anoto a preocupação com a hora. Muito stazi.

  10. António Figueira diz:

    Al,
    Pela última vez, vou responder-lhe:
    Há muitas diferenças entre nós:
    Eu assino com o meu nome, V. assina com um pseudónimo de duas letras.
    Eu (e mais quatro) criámos um blogue, onde até mostramos as nossas caras, V. nem por isso.
    Eu não sei quem V. é mas isso não me incomoda; V., que também não sabe sobre mim mais do que aquilo que eu escrevo, aproveita todos os pretextos, por mais desconchavados, para fazer insinuações políticas (a propósito do Churchill foi o comportamento do PCF durante a Guerra, a propósito do Júlio Diniz a Stasi…)
    Eu colecciono lugares comuns literários – e “plúmbeo céu” é um deles, como os “vívidos raios de sol” ou mesmo o seu “genuíno prazer”; V. anda à cata de pretextos para exibir erudição, do tipo comparativo (género “apanhei-te”) e em quinze ou vinte linhas de Júlio Dinis descobriu – vitória! – uma frase que é do João de Lemos. Ora sucede que o “plúmbeo céu” é tanto do João de Lemos como o “genuíno prazer” é seu, ou seja, é de facto seu, mas é também de mais alguns milhões de repetidores de banalidades. Acresce que quem rompia o “plúmbeo céu” na “Lua de Londres” era… a lua, e não o sol; e dizendo isso estou a dar-lhe pretexto para agora me acusar de filo-soviético – ou não fosse a URSS o “sol” do nosso planeta, na conhecida frase de Álvaro Cunhal.
    Olhe, permita-me uma sugestão: deixe-nos partilhar o seu saber e o seu bom feitio e faça um blogue que seja só seu, ou então a meias com o Lidador.
    Passe bem.

    PS: Obrigado Lena

  11. al diz:

    Não se preocupe.

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