Sophia

Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal

Quando Helena Lanari dizia o “coqueiro”
O coqueiro ficava muito mais vegetal

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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12 respostas a Sophia

  1. Há gostos para tudo, claro.

    Eu prefiro outras graphias e outras pronúncias. Agrada-me, por acaso, as sonoridades dos portugueses cá de Portugal. Sobretudo a dos alentejanos e a dos beirões de Viseu, algo menos a dos algarvios e muito menos a dos lisboetas da “Linha”. Mas tudo isso está fora de moda. O que está a dar é escrever sophia e gostar de brasileiro…

    Também outras coisas estão fora de moda, como o espírito crítico, entre muitas outras. Na moda está sim a ignorância (a minha, por exemplo, que não faço a mais minúscula e desprezável ideia de quem possa ser a senhora Lanari, muito menos como pronunciar este vocábulo, sem ser talvez em italiano), mas me preocupo com minudências como sejam o próprio conteúdo concreto deste poema (?).

    Qual a subtil diferença (menos de um quinto de vogal, sem dúvida) entre as pronúncias portuguesa e brasileira de “coqueiro”?

    Será na sílada “co”, que em Portugal se dirá, porventura “cu”? É que não estou mesmo a ver diferenças nas restantes duas sílabas (para além da variante “ai” do linguajar lisboeta na maioria dos ditongos “ei”). Mas nem em Campo de Ourique se chega ao exagero de dizer “cucairo”. Seré então que Helena, a Lanari, diria “cóquêirô”? Então a conclusão poderá ser: o cariz mais ou menos vegetal está na vogal semi-aberta final “ô”.

    Poderemos então daqui deduzir que, no Reino Vegetal, o famoso provérbio se diz “o Rei vai nô”?…

    Sofia de Istambul.

  2. “Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro» (…)”

    deveria escrever-se, em bom (ou até mediano) Português:

    “Quando Helena Lanari dizia «o coqueiro» (…)”.

    É apenas um pormenor “sem importância”…

  3. Gosto de ouvir a nossa língua em todos os cantos do mundo, falada por todas as pessoas, por almas de todas as cores…

    Cumprimentos do meu Labirinto de Olhares.

    FMOP

  4. mesquita diz:

    Helena Lanari era uma figura destacada entre a “beautiful people” do Rio de Janeiro (casada com um industrial riquíssimo, conhecida pelas suas actividades mecenáticas) que Sophia conheceu numa viagem pelo Brasil, em 1966, salvo erro.

    Sophia deve por isso ter tido em mente o sotaque fluminense, com as vogais muito mais abertas do que em Portugal (todas elas, o que também vale para o ditongo “ei”) e com um “r” muito “rolado”.

  5. CARLOS CLARA diz:

    Não gosto do calão brasileiro nem das frases transformadas em vocábulos preguiçosos, muito menos da utilização de termos ingleses, mas por influência americana, dos quais os portugueses também grandes adeptos ( low cost, target, pocket money, e par aí fora às centenas). Quanto ao sotaque, sim. É um português cheio de sonoridade onde as palavras são ditas. É um português cheio de alma aberta ás sensações e circunstâncias.É um português possível de cantar ópera ou uma canção de qualquer estilo.É um português intimo para uma bela representação.É também um português lindíssimo para ler Camões ou para uma declaração de amor.É também o português ideal para um estrangeiro aprender português.E depois, ainda, é o português que imprime ao dia a dia e a todas as chatices do mundo uma leveza sublime. O coqueiro de H. Lenari é lindíssimo em forma e movimento. Desculpem lá, o coqueiro do alentejano mais parece um torpedo.Quanto à açorda, aí mudo de opinião.

  6. al diz:

    Cada um é livre de escrever sobre o que quer, mas não deixo de estranhar que em tempos de cimeira e de extraordinários discursos (The Summit ended, as do most meetings of this sort, with smiling photocalls.
    The Portuguese Prime Minister, Jose Socrates, gave an extraordinary closing speech which spoke about bridges being built, steps forward being taken, and visions being pursued.
    He went off on such an oratorical flight, in fact, that I became mesmerised by the beauty of the Portuguese language and the elegance of his delivery.
    I was so bewitched that I didn’t register any concrete points in the speech at all.
    Perhaps there weren’t any. But it certainly sounded good.) nao se fale do assunto.

  7. ezequiel diz:

    estás inspirado

    “Sem perder sequer um quinto de vogal”

    não perdes porque eles musicalizam a linguagem regressando, quiçá, à própria origem da linguagem (na música). Não fui eu que pensei isto. Não me recordo do nome de quem o disse. Seria interessante se toda a base da lógica fosse a música. Seria fenomenal. Não sei se os ditos cientistas gostariam muito desta hipótese.. eh eh eh ehe
    Nada, provavelmente. Adoro pronuncias, em especial as do norte da inglaterra, da working class from manchester…também tem o seu quê de brazuca ! (a frenética Slag do little britain recorre a este perform-synthetic…má criação em último grau, mas muito brazilian)…e é assim com todas as pronuncias, parece-me…são os vestígios da musicalidade na linguagem?? Who knows homes?

    cumps

  8. fosca-se diz:

    Mim,fica esparramado a ver a vasta coltura dos comentadores.Ele é politica(da alta),assunto de tias com vasta referência na bibliografia da especialidade,literatura,astrologia,etc.E,que tal matemática?,é que há uns anos atrás o Pacheco Pereira a mandar uns bitaites.Uns génios,de certeza…
    Tenho saudades NRA.isto sem ele,não vale um chavo!!!!Fosca-se!

  9. Prakash diz:

    A musicalidade do “negócio” brasuca é um “barato”;)

  10. ezequiel diz:

    como é que é, a malta já não pode conversar????? A “comunidade” também tem destas coisas, António. :)…”assunto de tias” trulilú…isto tá tudo mas é MALUCO! Tias a falar de algoritmos e de equações não sequenciais.(???? o que isto significa, nem a mais pequena ideia) Tudo acompanhado por um chazin de poejo. Mas é, de facto, uma grande ideia para um skecth.

  11. xatoo diz:

    os angolanos não dizem “coqueiiiiro” dizem “kôkéro” – certa vez chegou-se-me um ao pé de mim e inquiriu:
    “isso é o kôkéro!?”
    só algum tempo depois é que percebi que queria ouvir o “Thats all I want”

  12. ezequiel diz:

    Kôkéro

    mt bom, xatoo…
    respect, com direito a vénia e tudo 🙂

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