Celan

Já não sei sob que pretexto, o Ezequiel – o nosso íntimo Ezequiel, que nunca nenhum de nós viu, mas faz parte da mobília desta casa – escreveu uma frase de Celan (deveria eu dizer horrorosamente que o “convocou”?) num comentário seu a um post meu (“Les murs finissent en nuit noire”); o Ezequiel quer que eu escreva sobre Hanna Arendt e eu ando a esquivar-me (preferia escrever sobre Mary McCarthy), mas o caso Celan é diferente, “é a pura imanência das palavras sem garantia” (António Guerreiro dixit) em plena terra de ninguém; por isso, enquanto escrevo e não escrevo alguma coisa de meu, permito-me, hoje, sábado, a um quarto para as sete da tarde, enquanto não se faz noite negra e como se fosse um locutor de continuidade, retribuir-lhe o gesto:

“Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
Ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção a ti.

Um nada
fomos, somos, continuaremos
a ser florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.”

Quem quiser conhecer o fim do poema (“Salmo”, retirado do livro “A Rosa de Ninguém”) pode encontrá-lo na antologia bilingue de Celan organizada e traduzida por João Barrento e Yvette Centeno “Sete Rosas Mais Tarde”, editada pela Cotovia. Bom resto de fim-de-semana.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Celan

  1. ezequiel diz:

    Caro António,

    A insistência na Arendt tem que ver com aquela magnífica discussão sobre o multiculturalismo, a negociação da diferença. Pluralismo e Arendt is like cocoa&chocolate&same thing! 😉 Não sou um expertola na matéria, apesar do interesse ser genuíno.

    Descobri Celan muito tarde, tarde demais talvez, julgo que através da minha querida Sister. Não era rapaz de grandes leituras, apesar das intervenções pedagógico-familiares recorrentes..eh eh e hehehehh 🙂 Mas esta passagem que aqui citas, uauuu, sublime!

    Vou encomendar o livro. Fantástico. Adorei. 🙂

    Grande abraço,
    ezequiel

  2. “o nosso íntimo Ezequiel, que nunca nenhum de nós viu”, diz o António Figueira, mas eu vi, aliás, ainda o vi na semana passada. Devo dizer que é simpático, bom conversador, culto. Assim um rapaz que leu praticamente tudo:) sobre filosofia e política e que gosta duma boa polémica! beijinho Ezequiel.

  3. ezequiel diz:

    Olá Fátima, 🙂

    obrigado mas, psst, aqui págente que ninguém nos ouve, acho que exageraste um bocadinho…eu não li tudo, mas sou um rapaz simpático.

    esqueceste-te de mencionar que eu sou campeão de ballet aquático (pela Jamaica) eh eh eh eh

    beijinho&abraço para o Monte,
    ezequiel

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