Portugal, a França e a Rússia

Faz quase oito dias, Vasco Pulido Valente escreveu no “Público” uma crónica (?) com piada (pese embora o seu mal escondido intuito publicitário) chamada “Nasceu torto” (foi o Portugal moderno) e que diz, muito a correr, isto: as invasões francesas foram varridas da memória nacional pelo republicanismo e por causa da sua filiação francesa; a resistência popular às ditas invasões, épica a outros olhos, porventura menos preconceituosos, foi assim esquecida, e subsumida no quadro geral da Guerra dita “Peninsular”, de cujos 200 anos muito pouca gente se lembrava (não fora o caso de VPV publicar um livrinho comemorativo, que eu ainda não li, mas que me parece obscenamente caro).

VPV não serve a sua tese com provas (teria de?, um homem não tem direito a especular com inteligência?), mas eu compro-a na mesma: acredito que a França desempenhou entre nós durante um século, que vai grosso modo dos contemporâneos de Gomes Freire aos últimos seareiros, o papel ingrato que a URSS teve na segunda metade do século XX: o de um Estado-nação, com apetites e comportamentos e egoísmos estritamente nacionais, e ao mesmo tempo o de incarnação, não de um nacionalismo estreito, mas de um vasto ideal; e essa contradição (insanável, digo eu) entre o particularismo de um país e a universalidade de uma ideologia, ainda que libertadora, produziu aquilo que, com felicidade, alguém definiu como um “defeated universalism” – que é uma outra maneira de designar o chauvinismo napoleónico ou estalinista.

Hobsbawm escreveu uma vez (no “Bandits”, acho eu, a propósito de um lutador social da Itália do Sul que uniu os seus propósitos emancipadores à anacrónica causa dos Bourbons) que um gesto objectivamente progressista não deixa de sê-lo por ser praticado em nome de uma causa reaccionária. O mesmo se aplica a todos os nossos antepassados que lutaram pela “santa liberdade” do trono e do altar. As campanhas napoleónicas, é sabido, tiveram um efeito perverso: desencadeadas pela “Grande nation” contra as velhas monarquias, acordaram as “pequenas nações”, que têm tanto direito a um lugar ao sol como as maiores, e por isso acabaram como acabaram em Waterloo. Eu, apesar de todo o meu amor por Stendhal, nunca achei particular encanto à epopeia dos Cem Dias – e gosto de França como nunca gostei nem acho que gostarei da Rússia: a ter de gostar de alguém, gosto da malta das casas pardas.

PS: A frase mais reaccionária que eu conheço ouvia-a uma vez, por alturas do PREC, à mãe de um colega do liceu (alentejana em processo de expropriação, pré-Lei Barreto): “Portugal merece tudo, os portugueses nada”.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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26 respostas a Portugal, a França e a Rússia

  1. ezequiel diz:

    Belo post. 🙂

    Eric Hobsbawm, grande prof!!!

  2. Frase não reaccionária, mas sim muitíssimo sábia, que ainda muito recentemente também ouvi, desta vez proferida por um estudante erasmático húngaro, a milhares de quilómetros de Lisboa, e a que tive de assentir, embuchado…

    Aplica-se na perfeição a Vasco P. Valente: na sua sanha evangelizadora anti-francesa, anti-europeia, anti-revolucionária, anti-progressista, pró-britânica, pró-liberal, pró-atlantista e pró-salazarista quer-nos enfiar pelas nossas goelas abaixo a História de Portugal, vista das profundezas amargas e obscuras do seu espírito ressabiado e invejoso, procurando lutar contra o inevitável – o reconhecimento gradual do nefasto papel desempenhado, em Portugal, pela Coroa Britânica, desde o desgraçado Tratado de Meethwen até à nossa adesão europeia e com alguns episódios particularmente dramáticos, como durante o período negro da “vassalagem” pós-napoleónica, sob a ditadura de Welsley, que aliás culminaria na carnificina da Guerra Civil (essa sim, “retirada” dos nossos compêndios de História pela historiografia salazarista e anglófila), o “Mapa Côr-de-rosa” e, ainda, o nosso absurdo envolvimento na 1ª Grande Guerra, onde servimos de “carne para canhão” no mesmo plano subalterno e desonroso das outras tropas coloniais de Sua Majestade, provenientes das áfricas e das índias…

    A luta de V. P. V. é apenas uma: provar que o Portugal de antanho, submisso às ordens imperiais, de Londres ou de Washington (que sempre se confundiram, desde meados do Séc. XIX até hoje), é superior ao Portugal moderno, democrático, livre, republicano, laico e orgulhosamente… europeu!

    Que sempre o deveria ter sido, pelo menos desde o Liberalismo…

  3. Parece-me que devo corrigir “Welsley” por “Beresford”. Ou não? Algum especialista, por favor, que se chegue à frente…

  4. Al diz:

    Estava a dizer-me que há coisas grátis que me saem mais caras do que os livros caros do Doutor VPV quando me apercebi que, perante «o papel ingrato URSS » e os «gestos objectivamente progressitas» estava a ser muito mal-agradecido.

  5. Al diz:

    Sr. Castanho,
    Estará indeciso entre Wellesley (o seu «Welsley») e Beresford, mas deixe lá, esse é um problema menor.
    Desculpe, já leu algum livro do Doutor Pulido Valente?

  6. Al diz:

    Deve ter-se perdido um «comentário» meu que lhe era dirigido, Sr. Castanho, e em que lhe dizia que deve querer dizer Wellesley, Duque de Wellington, quando diz «Welsley» e que deve querer referir-se, afinal, a Beresford e perguntava-lhe ainda se alguma vez leu algum livro do Doutor VPV.

  7. “Aplica-se na perfeição a Vasco P. Valente: na sua sanha evangelizadora anti-francesa, anti-europeia, anti-revolucionária, anti-progressista, pró-britânica, pró-liberal, pró-atlantista e pró-salazarista”

    É uma pena, o adjectivo para descrever este molho de broculos de pros e contras ainda está por inventar

  8. Car@ e solícit@ Al,

    agradeço ter-me relembrado que entre Beresford e Wellesley (Duque de Wellington, concerteza, em terras de Sua Majestade) – e perdoar-me-á a síncope de uma sílaba do seu nome, no meu propositadamente desajeitado inglês, o que porém o não impediu de identificar de pronto o personagem -, a minha indecisão “é um problema menor”.

    Quanto ao Doutor Pulido Valente, o Médico, de facto nada li escrito por ele, que me lembre.

    De Vasco Pulido Valente, o historiador, já li muita coisa publicada em jornais. Os seus livros, como ávido leitor de História, talvez os consiga ler um dia, se para isso o tempo me chegar o tempo de leitura que me resta.

    É que têm ainda muitos milhares de Obras à sua frente…

  9. Al diz:

    O título de Doutor, por extenso, cabe aos doutorados, o que é o caso do Senhor Doutor Vasco Pulido Valente, licenciado em filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa e doutorado em História na Universidade de Oxford, uma das mais prestigiadas do mundo.
    Convém que se dê a cada um aquilo a que tem direito, principalmente quando por estes lados já haja quem use oficialmente designações a que, clara e limpidamente, não tem direito.

  10. ezequiel diz:

    Caro António,

    às tantas vais gostar disto.

    cumps

  11. CARLOS CLARA diz:

    VPV escreve bem, é um facto. Esporadicamente estou de acordo com algumas das suas análises, de um modo geral cínicas, também é um facto. Ou será fleuma? – soa melhor. Mas também vá lá saber-se porque odeia ele tanto a “escumalha” que fez a Revolução Francesa e a França do país das “luzes” por longo tempo, quando outra “escumalha” fizeram outros impérios de tão frouxas luzes. Vá-se lá mesmo também saber porquê o outro lado do Atlântico ainda hoje tem “complexo francês”. Contradições.

  12. is a bel diz:

    Viva António,
    este seu post lembra-me o dia em que ‘conheci’ Hobsbawm (grata memória) e do ‘principio do limiar’ aos efeitos políticos secundários que acelerariam uma ‘nova reestruturação supranacional do globo’ foram horas de dedicação. Ao ler que o autor invocava o testemunho de um autor francês (qual???) que descrevia a independência de Portugal como ‘ridícula’ vista a sua diminuta extensão…pensei em ficar pela ‘História Social do Jazz’ (imaginando que seria mais jazz e menos marx).
    Gosto por tal de o ler aqui, mais do que a concordar com o VPV ou em declarações amorosas, a referenciar o ‘Bandits’. Afinal, meu caro António,
    na frase imorredoura do Observer, as obras do Hobsbawm “have become part of the mental furniture of educated Englishmen”.
    (gastar dinheiro por gastar compre antes ‘Os Dias Loucos do PREC’ e deixe que alguém lhe ofereça o VPV no natal)

  13. carmo da rosa diz:

    Comentário de David Lourenço Mestre:
    “É uma pena, o adjectivo para descrever este molho de broculos de pros e contras ainda está por inventar”

    contraproducente…

  14. Caro Figueira

    A crónica do VPV que refere está acima de bom, como costume nele.

    E´ também certo que a modernidade em Portugal nasceu à francesa, isto é, torta, em lugar de ter nascido à inglesa, isto é, uns bons anos antes e sem necessidade de carnificinas.

    O último livro do VPV volta a ser uma delícia. O AF, ainda que não goste, tem estofo para o ler o que o torna diferente de quase todos à esquerda.

    Tal como o Figueira, também eu gosto da França, mas da França profunda. Quanto à França dos políticos, revolucionária, palavrosa e pretenciosa, é o que se vê desde há duzentos anos, sempre a piorar e a perder importância. Após a IIGG, não fosse o dinheiro dos alemães e ela estaria ainda pior do que está.

    A herança cultural e política da revolução francesa vai continuar a diluir-se. No Ocidente acabará por ficar apenas o que é profundo, isto é, a liberdade das nações e dos indivíduos, a recusa dos grupos de autoproclamados conhecedores do que é melhor para os outros. Isto é, ficará o Atlântico.

  15. Caro Paulo Porto, permita-me, não é à esquerda que falta estofo para leitura, e/ou – mesmo não (des)singularizando o Figueira – para esta leitura.

  16. “sem necessidade de carnificinas”? – infelizmente, Sua Majestade não nos deu a escolher, antes escolheu para nós a servidão e, depois, já era tarde demais…

    “isto é, ficará o Atlântico (“por ficar apenas o que é profundo, isto é, a liberdade das nações e dos indivíduos”) – mas isso não é o Atlântico (que tem dois lados, para quem não se lembra, ou não costuma reparar…), mas sim talvez a Atlântida, onde existirá sempre a mesma liberdade, para ALGUMAS Nações e para ALGUNS indivíduos, que já existia também na França do Marquês de Launay e da Maria Antonieta dos brioches…

  17. Car@ Al, tem toda a razão:

    “Convém que se dê a cada um aquilo a que tem direito”, mas eu dispenso-o de ter de me dar o meu título académico e profissional, ok?

    Sempre poupa dez letras de cada vez que se me dirigir…

    António das Neves Castanho.

  18. Al diz:

    Sr. Carlos Clara,
    Creio que não estará bem dentro dos horrores que a revolução francesa produziu: a ela se deve o primeiro genocídio da nossa época, justificando-se o termo pelo facto de que houve pessoas- alguns milhares – assassinadas pelo mero facto de pertencerem a uma classe social. O povo em geral também sofreu e foi executado aos milhares, com extremos de crueldade (v.g. massacres de Lyon ). A revolução francesa marca a falência do estado iluminista (do iluminismo francês, que agora se começa a separar do anglo-saxónico) e não trouxe nada que a Revolução Inglesa de 1688 não tivesse já delineado antes.
    Sobre as admirações de muita gente pela «anglofilia» de VPV e outros autores, trata-se apenas do fruto da melhoria do ensino do inglês: a nossa ignorância da cultura inglesa era tão profunda a caricata que Eça, um anglófilo, ridiculariza várias vezes esse facto. Sobre a influência e submissão às ideias francesas, aos autores franceses, etc – que se prolongou até aos anos 70 deste século, já falava também Eça, no «Francesismo» um ensaio fundamental para perceber o pensamento português do séc XIX*. Quanto a mim «descobri» a Inglaterra (e a chateza francesa) através de Eça, um dos muitos favores que lhe devo…
    Apenas uma nota final: a ideia da decadência da França não é propaganda da pérfida Albion: os próprios franceses descobriram – e interrogam-se – sobre o total declínio da influência francesa no mundo.
    *Sobre a influência do positivismo no republicanismo português e em geral no Portugal do séc XIX e começos do XX há uns trabalhos interessantes de Fernando Catroga. Encontra na Revista de História das Ideias, e há uns títulos publicados.

  19. Lidador diz:

    Quando alguém cita Hobsbawn, o mais marxista dos historiadores marxistas, como autoridade histórica, está tudo dito.

    Que diria o bom do Hobs do nariz de Cleópatra?
    Provavelmente considerá-lo-ia irrelevante…e contudo foi por ele que o Marco António se deixou ficar.

    O que deveras espanta é que, hoje, 7º ano da graça do séc XXI,
    não haja qq pudor em ir buscar Hobsbawn ao jazigo da História e incensá-lo como se fosse o Profeta…
    Coroas de louros em cadáveres de derrotados é patético.

  20. JJ diz:

    “sem necessidade de carnificinas”

    E eu que o pensava que tinha havido uma “Glorious Revolution”, uma Guerra Civil, Cromwell na IRlanda, etc e tal…devo ter sonhado.

  21. P.Porto diz:

    Caro Castanho

    As carnificinas da Revolução Francesa não tiveram nada a ver com Luis XVI. O milhão e meio de mortos gerados pela Revolução Francesa ocorerram na sua quase totalidade quando o poder revolunário estava já mutiíssimo bem instalado. Acontece que a lógica da revolução passada pelo terror. O resto é tentar encontrar naqueles de que não gosta a culpa dos erros daqueles de que gosta.

    Depois sitou de modo incompelto esta minha frase “A herança cultural e política da revolução francesa vai continuar a diluir-se. No Ocidente acabará por ficar apenas o que é profundo, isto é, a liberdade das nações e dos indivíduos, a recusa dos grupos de autoproclamados conhecedores do que é melhor para os outros. Isto é, ficará o Atlântico.” Diz-me até que eu não percebo que o Atlântico tem dois lados. Acha que não percebi mesmo? Releia bem e tente perceber melhor o que realmente escrevi. Desde logo sugerindo-lhe ponha de parte as suas referências à Atlãntida ou a Maria Antonieta que não tem nada a ver com o caso

    Uma outra sugestão, leia o comentário imediatamente acima do Al, certamente ficará a conhecer algumas coisas que definitivamente desconhece.

    Por fim, pode olhar para a História como História, ou olhar para a História como algo a enviezar e recortar para dourar pílupas. A diferença entre uma coisa e outra é a diferença que vai da honestidade à desonestidade intelectual.

  22. Al diz:

    JJ,

    Não foi comigo, bem sei, mas não compare uma guerra civil – dois (dois ou mais) exércitos,batalhas etc (e as guerras eram pouco letais), com outra, muito diferente, o Terror, o terrorismo de estado exercido contra cidadãos indefesos e inocentes.
    Mas sabe isso, não sabe?

  23. CARLOS CLARA diz:

    AL

    Há classes sociais casmurras, não acha? E nunca desmontam… olhe que ainda estão bem vivas na França de hoje, deixe lá!

  24. Al diz:

    Há e estão vivas: as que se alimentam do estado francês a um ponto tal que, por exemplo, o investimento público nas faculdades públicas quase desapareceu. Não desmontam, de facto.

  25. Pingback: cinco dias » Portugal, a França, a Inglaterra e a Suécia

  26. Caro P. Porto,

    se com esta idade “definitivamente desconheço” certas “coisas”, então nem vale a pena ir ler o comentário do Al…

    Quanto ao essencial, se acha que o seu mítico “Atlântico” contém os valores que acabarão por sobrepôr-se no Ocidente, nomeadamente a tal liberdade das Nações e dos Indivíduos (ocidentais, presumo), sugiro-lhe que isole o Ocidente (E. U. A., Reino Unido e Polónia?) e deite o resto do Mundo fora: aí dar-lhe-ei absoluta razão…

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