a racista em mim
25 Novembro 2007 | por Fernanda CâncioApetecia-me escrever: não compreendo o racismo, nunca compreendi. Mas será? Se fizer uma arqueologia dos meus sentimentos, dos meus sentidos, das minhas perspectivas e preconceitos, nada encontrarei que se pareça com um julgamento apriorístico dos outros baseado em características étnicas?
Vejamos: nasci nos anos 60, nos arredores de Lisboa. Os primeiros elementos que identifiquei disso a que se convencionou chamar outra “raça” – ou, melhor dizendo, isso que é percepcionado como “outra raça” – eram ciganos. Mais exactamente um grupo de ciganos, elas de cabelos e saias longas, eles de chapéu e botas bicudas de quem vai dançar o flamenco. Por causa deles ou da ideia que algum livro me fizera deles, achei-os extraordinários, romanescos, quase épicos na sua passada orgulhosa e na sua lenda nómada. As crianças ciganas sujas e desgrenhadas mas quase sempre lindas que fui vendo em acampamentos sucessivos num descampado perto da minha casa misturadas com tendas e fogueiras surgiam-me invejáveis no seu estreito convívio com cães e cavalos, os meus animais favoritos, e numa vida que eu imaginava aventurosa e trepidante. Longe estava das estritas regras impostas às mulheres e de tudo o resto que no modo de vida cigano (se é que se pode dizer isto) me foi criando, ao longo dos anos, desagrado e estranheza.
São racismo, essa estranheza e desagrado, esse julgamento desfavorável? Não creio: não é em características ditas “inatas” de um grupo de indivíduos que baseio esse julgamento, mas em comportamentos. Comportamentos que, de resto, identifico em muitos outros grupos étnicos – incluindo esse a que pertenço e que não sei bem qual é (nada como uma volta pelo mundo para perceber que a forma como nos vemos, por exemplo, a forma como aprendi a definir-me, europeia branca, pode ser transmutada noutras paragens em para mim improváveis e quase chocantes definições – na China já me tomaram por indiana, em França por argelina, em Israel por judia, e nos EUA poderei ser mil coisas, de judia a latina, passando por árabe, na Alemanha fui turca… enfim).
Não me lembro da primeira vez que vi um asiático. Mas recordo o meu primeiro encontro com um negro. É quase ridículo recordá-lo, mas na verdade havia muito poucos negros em Portugal quando eu era criança, e menos ainda nos meus trajectos. Lembro-me pois que foi no metro, em Lisboa, e que fiquei fascinada. Teria uns sete anos e ia pela mão da minha mãe quando o vi. Era um homem novo e muito escuro – ou pareceu-me assim, a mim que nunca tinha visto um em pessoa e só os conhecia da TV –, cor de chocolate preto. Fiquei a olhá-lo fixamente toda a viagem, primeiro um pouco envergonhada e depois determinada a fazê-lo entender que o meu olhar era benigno, o olhar de uma criança “branca”, sim, mas sem malícia nem isso que os meus pais me haviam explicado ser o racismo. Apliquei-me nisso, em fazê-lo perceber que não lhe queria mal – que sabia como os negros eram maltratados e perseguidos pelos brancos por serem negros e queria dizer-lhe que eu, apesar de branca, não era assim , ao contrário, estava pronta a gostar de todos os negros só por serem negros.
Não faço ideia do que poderá ter pensado o homem do insistente (e sim, mal educado de tão intrusivo) olhar daquela menina que ele retribuiu durante toda a curta viagem. Talvez tenha achado que era o que também ou sobretudo era: a curiosidade e o fascínio da “diferença”. Mas também uma espécie particularmente insidiosa de racismo, aquela que permitiu até a uma criança colocar-se no lugar de superioridade que diz “eu aceito-te, vês?”. E desse racismo, o mais difícil de identificar e sacudir de nós, o que disfarça o desrespeito com supostos bons sentimentos e a desigualdade com uma teoria geral da compensação, não estou certa de estar livre.
(publicado na coluna ’sormões impossíveis’ da notícias magazine de 18 de novembro)

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