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a racista em mim

25 Novembro 2007 | por Fernanda Câncio

Apetecia-me escrever: não compreendo o racismo, nunca compreendi. Mas será? Se fizer uma arqueologia dos meus sentimentos, dos meus sentidos, das minhas perspectivas e preconceitos, nada encontrarei que se pareça com um julgamento apriorístico dos outros baseado em características étnicas?

Vejamos: nasci nos anos 60, nos arredores de Lisboa. Os primeiros elementos que identifiquei disso a que se convencionou chamar outra “raça” – ou, melhor dizendo, isso que é percepcionado como “outra raça” – eram ciganos. Mais exactamente um grupo de ciganos, elas de cabelos e saias longas, eles de chapéu e botas bicudas de quem vai dançar o flamenco. Por causa deles ou da ideia que algum livro me fizera deles, achei-os extraordinários, romanescos, quase épicos na sua passada orgulhosa e na sua lenda nómada. As crianças ciganas sujas e desgrenhadas mas quase sempre lindas que fui vendo em acampamentos sucessivos num descampado perto da minha casa misturadas com tendas e fogueiras surgiam-me invejáveis no seu estreito convívio com cães e cavalos, os meus animais favoritos, e numa vida que eu imaginava aventurosa e trepidante. Longe estava das estritas regras impostas às mulheres e de tudo o resto que no modo de vida cigano (se é que se pode dizer isto) me foi criando, ao longo dos anos, desagrado e estranheza.

São racismo, essa estranheza e desagrado, esse julgamento desfavorável? Não creio: não é em características ditas “inatas” de um grupo de indivíduos que baseio esse julgamento, mas em comportamentos. Comportamentos que, de resto, identifico em muitos outros grupos étnicos – incluindo esse a que pertenço e que não sei bem qual é (nada como uma volta pelo mundo para perceber que a forma como nos vemos, por exemplo, a forma como aprendi a definir-me, europeia branca, pode ser transmutada noutras paragens em para mim improváveis e quase chocantes definições – na China já me tomaram por indiana, em França por argelina, em Israel por judia, e nos EUA poderei ser mil coisas, de judia a latina, passando por árabe, na Alemanha fui turca… enfim).

Não me lembro da primeira vez que vi um asiático. Mas recordo o meu primeiro encontro com um negro. É quase ridículo recordá-lo, mas na verdade havia muito poucos negros em Portugal quando eu era criança, e menos ainda nos meus trajectos. Lembro-me pois que foi no metro, em Lisboa, e que fiquei fascinada. Teria uns sete anos e ia pela mão da minha mãe quando o vi. Era um homem novo e muito escuro – ou pareceu-me assim, a mim que nunca tinha visto um em pessoa e só os conhecia da TV –, cor de chocolate preto. Fiquei a olhá-lo fixamente toda a viagem, primeiro um pouco envergonhada e depois determinada a fazê-lo entender que o meu olhar era benigno, o olhar de uma criança “branca”, sim, mas sem malícia nem isso que os meus pais me haviam explicado ser o racismo. Apliquei-me nisso, em fazê-lo perceber que não lhe queria mal – que sabia como os negros eram maltratados e perseguidos pelos brancos por serem negros e queria dizer-lhe que eu, apesar de branca, não era assim , ao contrário, estava pronta a gostar de todos os negros só por serem negros.

Não faço ideia do que poderá ter pensado o homem do insistente (e sim, mal educado de tão intrusivo) olhar daquela menina que ele retribuiu durante toda a curta viagem. Talvez tenha achado que era o que também ou sobretudo era: a curiosidade e o fascínio da “diferença”. Mas também uma espécie particularmente insidiosa de racismo, aquela que permitiu até a uma criança colocar-se no lugar de superioridade que diz “eu aceito-te, vês?”. E desse racismo, o mais difícil de identificar e sacudir de nós, o que disfarça o desrespeito com supostos bons sentimentos e a desigualdade com uma teoria geral da compensação, não estou certa de estar livre.

(publicado na coluna ’sormões impossíveis’ da notícias magazine de 18 de novembro)

Comentários

Comentário de Model 500
Data: 25 Novembro 2007, 18:33

Eu também nasci na década de 60 mas tive mais sorte que a Fernanda. Não nasci em Lisboa. Mas por outro lado, a Fernanda tem a vantagem de ser romântica, coisa que eu não sou.

Recear o que se desconhece é perfeitamente humano. Viajar ajuda muito a combater esses receios.

Comentário de Gasel
Data: 25 Novembro 2007, 18:53

Esse racismo é inato.
A formulação de juízos aprioristicos, mais ou menos desfavoráveis, mais ou menos condescendentes, sobre os “outros” é inata. Esses “outros” podem ser os vizinhos de baixo, os tipos da outra rua, ou da outra aldeia. Pode ser outro país, outra religião ou outra etnia. Ou apenas o outro sexo…

Comentário de tric
Data: 25 Novembro 2007, 18:57

agora compreendo o seu odio aos Judeus!! povo mais racista não existe, raramente aceitam misturas de sangue não judeu…

Comentário de rvn
Data: 25 Novembro 2007, 20:47

f,

E não está livre, de facto. Mas ninguém é perfeito, caramba.
“no modo de vida cigano (se é que se pode dizer isto)”. Pode sim senhora, sem hesitação mínima no degrau da diferença. Estranho, é certo, mas um modo de vida sem dúvida. O deles.
Vá por mim nesta.

Comentário de luis eme
Data: 25 Novembro 2007, 21:17

Eu não sou racista nem preconceituoso, ou pelo menos tento…

mas existem situações em que lá aparece o pior de nós, a trair-nos, ignorando até a nossa educação, livre…

Pois, e também sou da geração de sessenta…

Comentário de Paula C.
Data: 26 Novembro 2007, 2:36

Quando era miuda havia três mercearias à volta de casa - a maria carvoeira, o cesteiro e o zé preto. Já só resta a do sr. José.
Da tal geração sessenta, tal como eu, é o filho do sr. José. O João Preto. Era o João Preto quando eramos amigos e miudos e continua a ser o João Preto agora que somos todos bem graúdos e amigos na mesma.
O senhor dado ao pai disfarça a incomodidade de quem o baptizou de preto. Mudaram a forma de tratar, mas não mudaram o tratamento. No João não mudámos nada, nem nós nem ele, porque nada havia para mudar e estava tudo certo desde o princípio.

Comentário de A. Castanho
Data: 26 Novembro 2007, 14:17

Eu sempre fui intrinsecamente racista desde pequenino (se calhar por ter nascido na década de cinquenta): gostava de ver os índios a morrer às balas dos “cow-boys”, reconfortava-me ver os portugueses medievais a decepar cabeças aos mouros, sossegava quando os ciganos lá do Bairro eram presos (e até houve um que um belo dia foi morto, com uma metrelhadora, por um soldado de artilharia do nosso quartel, o R. A. L. 1)), irritavam-me aquelas notícias sobre o “black power” na América e aqueles punhos erguidos do Collins e do Mathews, no pódio das olimpíadas do México’68.

A primeira melodia que trauteei em pequenino, nos idos de 61, até foi o célebre «hit» “Angola É Nossa”!…

Mas depois cresci. E o meu consciente libertou-se do pensamento racista (já do resto da mente não sei se posso ser assim tão afirmativo…), mas ainda assim me foi, ao princípio, inexplicavelmente difícil aceitar um namoro com uma preta, de origem angolana. Hoje convivo normalmente, penso, com o facto de ela ser minha mulher, mas, acima de tudo, nunca me passaria pela cabeça, ou pelo coração, pensar em raças quando olho para o nosso rebento…

Comentário de ezequiel
Data: 26 Novembro 2007, 17:32

“Hoje convivo normalmente, penso, com o facto de ela ser minha mulher, mas, acima de tudo, nunca me passaria pela cabeça, ou pelo coração, pensar em raças quando olho para o nosso rebento…”

bonito! muito bonito.

:)

Comentário de Dogma-Central
Data: 26 Novembro 2007, 18:38

Eu nasci (nos início dos 80s) e cresci numa cidade não particularmente pequena, mas no norte. Extremamente nortenha, no entanto apesar de ser um meio onde as pessoas são extremamente conservadoras (tipo “enquanto estiveres debaixo do meu tecto fazes o que eu mando”) nunca senti não só preconceito racial, como nunca me lembro de questionar a diferente cor de pele (infelizmente no que diz respeito à orientação sexual a questão é completamente diferente e de uma magnitude estúpida). Ao ponto de só muito tarde pensar conscientemente sobre o facto de pessoas que eu conhecia desde sempre serem de uma etnia diferente da minha.

Sou no entanto frequentemente acusado de racismo quando digo preto porque para mim dizer negro é enfatizar mais do que reconhecer, ou ainda quando digo mal da cultura cigana porque acho que não é a melanina ou a cor dos olhos que trata as mulheres como animais ou proíbe as crianças de irem à escola.

Comentário de mariafrade
Data: 26 Novembro 2007, 20:20

Eu sou um pouco mais velhinha e nasci no Alentejo. Havia muitos ciganos, quase sempre metidos em zaragatas que levavam à sua prisão com todo o folclore das mulheres e crianças sujas armadas em carpideiras. Não gostava deles. Além deles havia na minha cidade e eram meus colegas de liceu, dois jovens irmãos de Angola, um rapaz e uma rapariga de quem era amiga. Apaixonei-me por ele nos meus sonhadores catorze anos. Era um sentimento mesclado de atracção pela diferença e quase compensação por todo o mal que os brancos tinham feitoaos negros. Ele era mais velho, apesar das minhas tentativas nunca falámos. Não sou racista. Mas por vezes, em determinados contextos, poderei tomar atitudes que podem parecê-lo.

Comentário de Prakash
Data: 26 Novembro 2007, 23:43

“O OUTRO é o inferno”…..quer seja de nacionalidade…de cultura….de raça….quer mesmo de sexo:(…..Apenas o AMOR redime (ver o comentário acima de A. Castanho)

Comentário de José Luiz Sarmento
Data: 27 Novembro 2007, 1:58

Eu deixei há muito tempo de me entregar a essas introspecções. Se num refego do meu inconsciente ainda há algum foco de racismo, e se esse foco se revela de vez em quando por algum lapso de língua ou trejeito de linguagem corporal, so what?
Decidi ser responsável apenas pelos meus actos e omissões. Se inadvertidamente ofender alguém, peço desculpa: mais não posso. E por fim de contas, caramba, as pessoas não são assim tão frágeis.

Comentário de carmo da rosa
Data: 27 Novembro 2007, 2:29

“irritavam-me aquelas notícias sobre o “black power” na América e aqueles punhos erguidos do Collins e do Mathews, no pódio das olimpíadas do México’68.”

Aiiii mãe, credo, que filhos esteeeeeeees….
Aiii, todos eles falam mal dá genti, de nós mendros!!!
Aiii mãe, e onde é que o Castanho foi arranjar um Collins, e um Mathews de punhos erguidos nas olimpíadas de ’68 ?
Aiii mãe, que para esta a genti os pretos são todos iguais?

Aiii mãe, atão não foi o Tommie Smith e o John Carlos….

Comentário de A. Castanho
Data: 27 Novembro 2007, 16:17

Sim, do “Tommie” lembro-me muito bem, era ceguinho, mas um “mago dos matraquilhos” e era o protagonista da “ópera-rock” homónima dos THE WHO (não sei é a que Jogos Olímpicos terá ido…).

Dos Carlos lembro-me ainda deles quatro: do famoso Terrorista e dos músicos ROBERTO, ERASMO (brasileiros, mais antigos) e ORGASMO (português, de Campo de Ourique, e felizmente ainda em actividade).

Mas se o nosso rosado Carmo conhece outros, explique-nos lá a nós, brancalhada ignara: esse T. Smith e essoutro John C. praticavam que modalidade e subiram a que pódio?

Comentário de carmo da rosa
Data: 27 Novembro 2007, 19:20

“explique-nos lá a nós, brancalhada ignara: esse T. Smith e essoutro John C. praticavam que modalidade e subiram a que pódio?”

Brancalhada ignara não direi, mas desinteressada talvez!

Explico com todo o prazer sr. Castanho:

Jogos Olímpicos do México em 1968. 200 m homens (normalmente pretos) 1.Tommie Smith medalha de ouro no tempo fabuloso de 19,83 s; 2. medalha de prata, um branquinho australiano, Peter Norman em 20,06 s (ainda é o recorde australiano); 3. medalha de bronze para John Carlos em 20,1 (não tenho certeza em relação ao tempo!).

É precisamente nestes jogos, a 18 de Outubro de 1968, que Bob Beamon salta a julgada impossível distância de 8,90 m!!! Também Jim Hines (pretinho) bateu o record do mundo dos 100m em 9,95 s creio (mas não tenho a certeza, e não tenho tempo para procurar – tenho a Santa Bolinha à minha espera!) que foi a primeira vez que alguém correu a distância em menos de 10 s.

Aqui tem um foto, não sei se sai no post!!!

Comentário de Piscoiso
Data: 28 Novembro 2007, 1:44

O que está a dar, são os amarelos.
Fico inebriado nas lojas dos chineses.
Comprei lá uns chinelos
Que me duraram dois meses.

Comentário de CARLOS CLARA
Data: 28 Novembro 2007, 6:40

Dos ciganos que passavam em caravanas pelos campos das Beiras, recordo de criança, o sentimento de liberdade que me deixavam. Do livro “Raças Humanas” cheio de imagens coloridas que o meu pai me ofereceu, em criança também, guardei para sempre o fascínio. Das grandes viagens,que encetei jovem adulto, pouco ou nada juntei ao que levava, excepto recordações humanas .
Do racismo que encontrei por todo o canto no mundo, fiquei sempre estupefacto - porquê tal postura?
Quanto aos filmes de cowboys, adorava os índios que enfiavam setas venenosas no traseiro dos invasores. Seria isso racismo meu?

Comentário de A. Castanho
Data: 28 Novembro 2007, 11:18

Para Carmo da Rosa:

A foto não saíu, mas também não faz falta: eu lembro-me muito bem dessa imagem (e acredito na sua pesquisa). Posso ter feito confusão com os nomes: Matthews e Collins foram igualmente dois grandes velocistas norte-americanos que participaram nessas olimpíadas, ou eventualmente nas seguintes, em Munique.

Infelizmente não disponho do precioso tempo que parece não lhe faltar (ainda bem) e citei de memória, não por “desinteresse”. Afinal de contas, sempre são já trinta e nove anos e meio de distância…

Comentário de carmo da rosa
Data: 28 Novembro 2007, 14:45

Caro Castanho,

Eu também citei de memória o Tommie Smith e o John Carlos, porque tinha a certeza absoluta do 1º e do 3º lugar. Eu vi a cena ‘life’ na TV. Lembro-me até de eles correrem nas eliminatórias com meias pretas compridas – coisa invulgar e comentada na Tv. – e só no pódio é que calçaram as luvas pretas. Lembro-me também do salto do Bob Beamon. Quem não se lembra de um salto destes?
O que eu já não me lembrava, e isso sim tive que procurar, é o nome do australiano que ficou em segundo lugar, nem dos tempos dos atletas…e fi-lo só para a coisa ficar mais completa.
Do Matthews e do Collins nunca ouvi falar e, apesar de ter tempo de sobra, não vou procurar - espero que não se zangue…

Mas vou ver se arranjo tempo para escrever algo sobre futebol e racismo…

Comentário de A. Castanho
Data: 29 Novembro 2007, 16:27

Bom, apesar de limitado, talvez ainda consiga arranjar um tempinho para procurar lá em casa elementos sobre esses dois atletas e esclarecer o Carmo da Rosa, que já me apercebi possuir como eu uma grande paixão por desportos…

Quanto a Futebol e racismo, vou ficar à espera, com curiosidade.

Só para aperitivar, um apontamento que me lembro de uma reportagem televisiva, já de há bastantes anos, de um jogo internacional em que entrava um defesa inglês, negro, de nome Samuel.

Por essa altura havia também um defesa-central no Benfica com o mesmo nome e de origem africana.

A dada altura, o enviado especial da RTP (não posso garantir ter sido o Rui Tovar…) achou por bem dizer: “- Curiosamente, este jogador tem o mesmo nome do defesa benfiquista…”.

Ao que o comentador em estúdio replicou: “- É verdade. E a mesma côr!”…

Comentário de carmo da rosa
Data: 30 Novembro 2007, 2:36

Comentário de A. Castanho
“Ao que o comentador em estúdio replicou: “- É verdade. E a mesma côr!”…

Ao que o outro retorquiu: Ainda bem que desta vez têm equipamentos diferentes…

“não posso garantir ter sido o Rui Tovar”

Dos comentadores desportivos só me lembro do Alves dos Santos (o melhor do mundo) e o Artur Agostinho…
Ainda vivem?

O racismo e o futebol está quase a sair, prometo…

Comentário de A. Castanho
Data: 30 Novembro 2007, 12:24

É verdade. O Alves dos Santos, esse, viverá sempre, na nossa memória.

O Artur Agostinho creio que está aí, ainda, a publicar livros…

Comentário de carmo da rosa
Data: 30 Novembro 2007, 16:47

Caro Castanho,

Sabe porque é que torcedor di futjibol bráásileiro, quando si referi ao Fluminense, ainda hoje fala di ‘timi pó-de-arroz’?

Porque o desporto era, nos fins do século 19 princípio do século 20, uma actividade elitista, mesmo no Brasil. O futebol não escapa à regra. E apesar de na altura já haver pretos que tratavam a bola por tu, os planteis eram conservados o mais branco possível. Como actualmente ainda é a regra na política em Portugal, ao contrário de França (de Sarkozy) e dos EUA (de George W. Bush). Mas por volta de 1914, e pela primeira vez, o mulato Carlos Alberto cobre a face de pó-de-arroz, tornando-se um pouco mais branco aos olhos da torcida, e entra em campo para jogar no Campeonato Carioca contra o América… A partir dessa altura foi o deboche rácico com as consequências (para os outros) que sabemos – PENTACAMPEÕES DO MUNDO…
Mas entre o Carlos-Alberto-pó-de-arroz e os pentacampeões dos nossos dias muitas tragédias humanas ocorreram.

Dou agora a palavra a August Willemsen.
(Extraído do seu livro O Divinal Canarinho traduzido por mim, mas ainda não publicado)

Por volta de 1910 o primeiro grande jogador, o primeiro verdadeiro ídolo do futebol brasileiro, o mulato Friedenreich, teve que entrar pela porta do cavalo. Não fosse ele filho de um alemão de posses, nunca poderia ter jogado no Germânia, um clube da elite; não fosse ele filho de uma preta de condição modesta, provavelmente nunca teria passado de uma decente imitação de jogador inglês. Mas ele era as duas coisas ao mesmo tempo: grande e forte (apesar de magro), como todos os avançados de tipo britânico; elegante e rápido, como os rapazes pretos do futebol de rua com quem fora criado. E os seus olhos verdes-claros davam mais nas vistas que o castanho-claro da sua pele. (…)
Durante uma digressão do Paulistano pela Europa, em 1925, o clube ganhou, entre outras equipas, à selecção nacional francesa por 7-2. Friedenreich, com onze golos, o maior goleador da digressão, foi muito elogiado pela imprensa francesa, sendo aclamado (muito antes de Pelé) como ‘un roi du football’. Ele é também o maior goleador de toda a América-Latina e, com 1329 golos registados pela CBD e reconhecidos pela FIFA, provavelmente do mundo inteiro. Jogou o seu último jogo internacional em 1935, já com quarenta e três anos de idade, como uma lenda viva entre os grandes jogadores da nova geração, tais como Domingos da Guia, Leónidas da Silva e Fausto dos Santos.

Se o Friedenreich conseguiu, depois da sua carreira de futebolista, manter-se como o ídolo que já era – o Fausto é um caso diferente. Friedenreich não somente era quase branco de pele e rico, como também queria agradar ao establishment, era uma pessoa de tratamento fácil. O Fausto, ao contrário, era bastante escuro de pele e arruinou-se completamente na sua revolta contra o regime vigente branco – arruinando ao mesmo tempo a já pouca saúde que tinha. Em 1929 ainda fez um campeonato formidável com o Vasco da Gama. Fausto, que tinha dupla fama de boémio e de prodigioso médio-atacante, ganhou o último jogo por 5-1 contra o América e o nome dele ficou consagrado.
Mas o que o revoltava era que não ganhava nada com isso. Como negro pobre do nordeste brasileiro pobre, vivia em casa da mãe e mal conseguia sobreviver com os prémios que lhe davam nessa época de transição do futebol amador para o profissional. O Russinho do Vasco da Gama, ou o Carvalho Leite do Botafogo, ambos brancos e filhos de médicos, recebiam automóveis de prémio – o Fausto tinha que andar de eléctrico. O Carvalho Leite aliciava a imprensa com cocktail parties – Fausto bebia uma cachaça no botequim. Estas diferenças, que os negros naquele tempo aceitavam e com que ainda hoje se conformam (‘é a vontade de Deus…’), punham o Fausto virado ao avesso, tornavam-no intratável. Muita gente estava de acordo que, não fosse ele tão rebelde de carácter, teria sido o maior médio-ofensivo de todos os tempos.

Um ano depois (1931), durante uma digressão do Vasco da Gama por Espanha e Portugal, ficou-se pelo Barcelona por causa dos honorários. Não tinha amor à camisola, nem tão pouco fortuna: mudava de clube para melhorar a sua situação económica. Mas em Espanha a discriminação era ainda pior. O Fausto e um companheiro de equipa, igualmente preto, eram comparados com ‘escravos’, com ‘cavalos’, por causa da pele suada e luzidia, e mesmo os elogios eram de tal maneira formulados que faziam doer até a alma: ‘Com todo este talento estes tipos podem bem dar-se ao luxo de não serem brancos.’

Um desafio contra o F.C. do Porto degenerou de tal maneira que a polícia viu-se obrigada a entrar em campo de sabre em riste. À noite, o hotel onde estavam alojados os brasileiros foi cercado por adeptos portugueses que gritavam slogans racistas, o que fez com que o Fausto mandasse baldes d’água para cima da populaça. O cônsul brasileiro teve mais tarde que intervir para o tirar da esquadra.

Depois do Barcelona o Fausto ainda tentou a sua sorte no Nacional de Montevideu, mas nessa altura o seu estado de saúde era já tão débil que ele só podia jogar a toda a velocidade durante meia-parte. A imprensa, que desconhecia que a tuberculose lhe definhava o corpo, escrevia ‘que ele não era um bom exemplo para os jogadores da sua cor’. Desiludido, regressou ao Brasil, onde ainda jogou no Flamengo e morreu num sanatório em 1939, um mês depois de completar trinta e quatro anos, alheio ao futebol e já esquecido de grande parte da torcida.

Friedenreich e Fausto, os dois primeiros gigantes do futebol brasileiro, ambos de cor, são um exemplo de carreiras antagónicas (tal como mais tarde Pelé e Garrincha). Dois exemplos ‘do rumo que a vida pode levar’ – e se pensarmos que abordamos apenas alguns grandes do futebol, é claro para toda a gente que milhares de jogadores anónimos tiveram, e continuam a ter, a mesma triste sina do Fausto.

Friedenreich e Fausto são provenientes da época pioneira do futebol brasileiro. São claramente um produto da ‘Belle époque’ do futebol. Dos tempos em que se fazia vista grossa a todo o tipo de regras, treino, condição física e outras coisas deste género, que faziam o charme da época. Tanto assim é que, no princípio do século vinte, não causava estranheza ver jogadores beber álcool antes de entrar em campo. Desconheciam provavelmente a expressão ‘Dutch courage’, mas era mesmo disso que se tratava: uns valentes copázios de cachaça (para os pretos) e whisky (para os brancos) acalmavam os nervos e davam confiança.
E sobretudo para os jogadores de cor, que já eram vistos com desdém, um pouco mais de confiança não lhes fazia nada mal.

Veja-se o caso Heráclito, o guarda-redes do Bangu dos anos ’10 do século passado. Um grande guarda-redes – quando não estava com os copos!
Claro que os adversários estavam ao corrente desta pequena carência do Heráclito. E apesar de todas as precauções que o clube tomou, estava o Heraclito em 1912 na baliza, num jogo contra o Flamengo, a abanar com o corpo como se fosse um metrónomo. Cada bola que ia à baliza, entrava. . Ao tentar fazer uma defesa, semicerrava os olhos e dava um soco na bola – mas como via a dobrar, ‘acertava’ na bola imaginária, perdia o equilíbrio e caía redondo no chão. Para se levantar tinha que se içar agarrado a um dos postes. E o público logo: ‘Estão a ver, é o que faz meter pretos na equipa. São todos uns borracholas. Futebol é para brancos’ – esquecendo-se de que também os ingleses frequentemente entravam em campo perdidos de bêbados.

No entanto, os brasileiros utilizam a palavra ‘crioulo’ como um popular e carinhoso eufemismo quando se referem a ‘negros’ ou a ‘pretos’. E em especial a Pelé. É que ele, com o seu imenso prestígio, adquirido com o seu talento e a sua personalidade, conseguiu dar à palavra crioulo um estatuto superior – e por analogia à cor da sua pele. Para ele, o sumo do que um negro podia alcançar, era a própria negação da sua cor. Como no caso de Robson, um jogador negro que, depois de atingir o auge da sua carreira, respondia ironicamente a um novato que se queixava de discriminação: ‘Eu sei o que isso é; eu também já fui preto.’

Comentário de A. Castanho
Data: 30 Novembro 2007, 17:10

Gostei! Obrigado e bom fim-de-semana…

Comentário de carmo da rosa
Data: 1 Dezembro 2007, 12:30

Soube ontem que August Willemsen, que eu cito no post anterior, faleceu na quinta-feira.
Morreu o maior tradutor de Português. Aquele que deu a conhecer Fernando Pessoa, Camões, Machado de Assis, Drummond de Andrade e tantos outros à Holanda. Em Portugal, é o desconhecimento total…. Que cabrão de país!!!

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