Outubro Novembro dentro

Prosseguem no lar as comemorações do 90.º aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro. Em evocação dos ciclos de cinema associativos e cineclubísticos da mamã e do papá, foi oferecido às crianças (as que sobraram do pequeno-almoço) “O Couraçado Potemkine” em versão remasterizada. A cena da escadaria de Odessa serve para explicar o logro reformista e mostrar do que são capazes, nas situações limite (as únicas que verdadeiramente contam), os esbirros do poder; a cena final, a tensão entre o Couraçado e o resto da esquadra e a subsequente vitória da solidariedade proletária (“et le navire amiral battant pavillon rouge passa fier devant toute l’escadre“, c’est trop beau), reforça a confiança devida nas forças próprias e aponta o caminho do futuro. Após Eisenstein, Chostakovitch, em memória da velha fotografia do compositor-soldado no cerco de Leningrado afixada na parede do meu quarto de rapaz (lembras-te, meu irmão?): à las nueve en punto de la noche tocou a Sétima, versão Toscanini, claro, porque o ruído dos ovos a estrelar e da tosse do público é mais do que compensado pela magia do momento, e o momento era o da grande aliança anti-fascista, a partitura micro-filmada e levada pelos soviéticos até Teerão, e daí até à América, que a ouve pela primeira vez, em directo, na rádio, numa noite do Verão de 42. Oh, a Sétima de Chostakovitch! Natal é em Dezembro, mas Outubro é quando um homem quiser.

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SEXTA | António Figueira
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