Diz que é uma espécie de polaróides

Às vezes, na rua, cruzo-me com pessoas que não podem ser, nunca vos aconteceu isso?, pessoas a quem vamos falar e que depois nos lembramos que moram noutra cidade, a não-sei-quantos quilómetros dali, ou que já morreram, o que torna a conversa difícil, no mínimo. Até esse clarão de realismo se acender, sinto-me em casa no meio da rua, e que esta cidade é todas em que já vivi, e onde encontro gente na rua aos pontapés, como quando era puto e morava em Campo de Ourique e de cada vez que saía encontrava gente que nunca mais acabava na geometria chata daquele bairro. Depois, quando a cara que parecia conhecida se revela indiferente, percebo que à medida que a vida avança as pessoas se afastam, como o universo se expande a ponto de os planetas ficarem tão longe uns dos outros que não se podem falar.

Os directores técnicos das nossas farmácias são uma raça estranha, que se distingue dos outros portugueses por assinar sempre com o nome completo (e como quase sempre são directoras, e muitas vezes são casadas e tomam nomes de família dos maridos, são muito completos os seus nomes completos). Por exemplo: Farmácia do Meu Bairro, Direcção Técnica da Dr.ª Maria Idalina Sousa e Castro Velez da Cunha Silva Pinto. Terá a Dr.ª Idalina Silva Pinto fundados receios que existam muitas outras Dr.ªs Idalinas Silva Pinto à solta, prontas a imposturar e a conspirar para lhe roubar a Direcção Técnica da Farmácia do Meu Bairro? Ou será apenas o caso de os licenciados em farmácia (e as licenciadas, a fortiori) terem uma reverência absurda pelas fórmulas encantatórias do Bilhete de Identidade e medo de ofender o Portugal oficial se não recitarem, de cada vez que lhes é pedido o nome, a totalidade (longa, de preferência) dos seus nomes próprios e apelidos? Ah, as farmacêuticas!

Do passado que vejo nos filmes antigos, o que me faz mais inveja é o hábito masculino de usar chapéu, não tanto por razões estéticas, mas sobretudo pelo conforto que o chapéu dá. No Verão, detesto andar ao sol, e este ano dei pela falta do “chapéu da minha vida”, um modesto panamá com uma fita azul à volta que comprei em Londres com a minha filha quando ela ainda me ouvia (há muitos anos, portanto), o que terá sem dúvida contribuído para a série de pensamentos escaldantes que marcou o meu Verão de 2007. No Inverno, as primeiras chuvas fizeram-me lembrar com saudade os tempos em que vivia lá fora, fosse aonde fosse, porque em qualquer lugar aonde não sou conhecido a primeira coisa que faço é andar de chapéu, nas tintas para o que os outros pensem porque de qualquer modo não pensam nada. Cá pelo burgo, as minhas proverbiais modéstia e discrição impedem-me de tais ousadias; mas ando a pensar comprar um bigode postiço à Groucho Marx para fazer pendant com o chapéu e permitir-me passar despercebido das massas em dias de chuva.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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13 respostas a Diz que é uma espécie de polaróides

  1. CARLOS CLARA diz:

    “Cá pelo burgo”… tem toda a razão, as senhoras Directoras Técnicas, gostam de exibir todos os seus nomes, mais todos os nomes do marido. São o espelho duma profissão antigamente considerada “nobre” – elas servem a humanidade, uma espécie de “Cruz Vermelha”. Noutros tempos, eram mesmo seres superiores porque tinham “Alvará”, o que nem todos conseguiam, e consequentemente lugar na primeira fila na missa.
    Mas à maneira que determinadas classes ganham estas vaidades de ir acrescentando nomes e fazendo questão em se mostrarem nas primeiras filas – não fazendo mal a ninguém- outros há que encurtam o nome e se escondem, como por exemplo determinada casta de deputados.

  2. antónio, deixa-me ir contigo ao azevedo rua escolher chapéus. e com uma máquina de polaroids. vá lá.

    (por acaso acho que deves ficar lindamente de chapéu, se queres saber, e não sei por que raio te haverás de ralar se olharem para ti)

  3. JC diz:

    O panamá é mesmo autêntico? Handmade in Equador with Toquilla straw? Nesse caso será tudo menos modesto… mesmo que não tenha sido comprado na Lock & Cº. Ou será que é um chapéu de lona, esse sim, modesto, que cá pela “piolheira”, maioritariamente na cabeça das crianças, usurpa o nome do autêntico panamá?

  4. ezequiel diz:

    Amigo António,

    Não te conheço, como bem sabes. A Julia quase q te conheceu. Mas concordo com a Fernanda, um chapéu talvez te ficasse muito bem. Resta saber q tipo de chapéu. Nada de cocos, a meu ver.

    http://www.kangolstore.com/is-bin/INTERSHOP.enfinity/WFS/Hats-Kangol-Site/en_US/-/USD/ViewProductDetail-Start;pgid=0Ysg00M7qcU000odyzTad.6s0000L2Uv6K3M?
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    Que tal?? 🙂

    Muito bom este texto. Esta Sra Dra Idalina precisa de tomar uns ropnols!! ehe heehhe 🙂

  5. António Figueira diz:

    Caro JC,
    Obviamente, tratava-se de um falso panamá, de um panamá de tipo infantil, mas ainda assim panamá é o nome que por cá lhe dão.
    Caros f e Ezequiel,
    Obrigado pelo voto de confiança; vou dar uma vista de olhos pelos modelos disponíveis, depois aviso.
    PS A Dr.ª Idalina não existe, claro, a mere confabulation.

  6. joséjosé diz:

    … e que tal complementar o chapéu e bigode ( postiço?) com o capote e cajado alentejano.
    A foto!!! Bem a foto, sempre poderá ser na farmácia da Drª. Idalina.

  7. ezequiel diz:

    classic 504, no doubt! eh eh 🙂

  8. ZeM diz:

    Qual chapéu, qual carapuça: ou carapuça ou boina.

  9. topisciis diz:

    … boina seguramente, acho bem
    pois temos k renascer o tapume das nossass berças….

  10. Ana Matos Pires diz:

    Voto no chapéu, António.

  11. Prakash diz:

    ….e umas botas altas:)

  12. sara monteiro diz:

    Às vezes na rua, também encontro gente que não pode ser. Adoro. Principalmente quando são mortos e por um breve instante me dão aquela sensação de que estão vivos e que vêm ao meu encontro. Já me aconteceu até segui-los só para matar um pouco a saudade.
    Há um homem que de vez em quando se senta no banco do jardim, debaixo da minha janela a ler um livro. Visto de cima, é o meu pai.
    Há coisas no mundo muito bem pensadas. E esta é uma delas: sermos parecidos uns com os outros. Ao contrário de si, António, não penso que o mundo se expanda e nos vá deixando cada vez mais afastados. Sinto que há algo de amigável (amável) num universo que tem tantas maneiras de nos consolar. O mundo expande-se, sim, mas em vez de nos afastar, aproxima-nos.

  13. José Manuel M. de Azevedo Rua diz:

    Enquanto lia os comentários,mais força sentia para continuar a preservar e dinamizar as lojas que o meu avô nos deixou.

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