Quantidade & qualidade

“Imagina o sofrimento das poucas pessoas que conseguiam sofrer por mim. Quando são poucas as pessoas que podem sofrer por outra, o sofrimento é maior, ainda que menos espectacular e repercutível. Quando morre um artista famoso, um montão de pessoas grita as suas lamentações, mas na verdade cada um sofre um pouquinho apenas, mas tudo junto parece um maremoto de dor. Mas vamos imaginar uma mulher sozinha cujo único filho morre. Isso não tem a menor repercussão, mas o sofrimento dessa mãe singular é maior do que o sofrimento epidérmico das outras centenas de pessoas lamentando a morte do ídolo, e todos os ídolos têm pés de barro e cu de hemorróidas.”

Rubem Fonseca, em “A Grande Arte”

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

6 respostas a Quantidade & qualidade

  1. ezequiel diz:

    Caro António&Nuno&Marta&Fernanda e restantes membros do 5dias.

    Por favor reunam-se urgentemente e publiquem um texto colectivo sobre a importantíssima questão dos “antípodas ideológicos.” OuVi dois minutos do pros e cons e sinto-me repentinamente paralisado por esta grande questão… a dos antípodas. Já não me ria assim desde anteontem. Nem os Gatos Fedorentos conseguem fazer melhor. Fantástico. Quality!

    Eu é que, às tantas, estou a ficar antipodizado. Dinheiro público para um programa destes. O nosso país está a ficar luuunnnnniiee.

  2. CARLOS CLARA diz:

    Ao enterro do poeta pobre e desconhecido, foi apenas essa mulher. Eram vizinhos. Gostava dos poemas dele e pedia ao filho para lhe levar comida. Um dia descobriram a poesia do poeta morto. Fizeram uma gala de homenagem. Estavam lá todos os que vão ao enterro dos ídolos. Não deixaram entrar a mulher e o filho.

  3. joséjosé diz:

    Olha ao ezequiel deu-lhe para rir a mim para vomitar…
    Drª. Ana (por favor) qual de nós está doente ?

  4. É verdade. E é um belo texto que nos fala do sofrimento.

  5. inês diz:

    Viva AF, seja bem aparecido.
    Que ‘engraçado’ este seu post. E eu que sempre pensei que o sofrimento era uma vivência solitária, partilhando-se no máximo o momento em que o sentimos.
    Confesso que o texto não me parece lá grande coisa. O coitado do ídolo ao que consta sofreu (e dizem que se sofre muito) de hemorróidas, algures entre as centenas de pessoas que lamentavam a sua morte (o tal do sofrimento epidérmico que parece um maremoto de dor) estaria possivelmente uma mãe num sofrimento tão solitário como o da outra solitária mãe. E para além disso, no sofrimento perante a ‘morte’ (a derradeira ou qualquer outra) estamos sempre sozinhos, acompanhados por centenas de pessoas ou sem um única que nos abrace.
    O meu sofrimento é maior do que o teu. O teu sofrimento é maior do que o nosso. O nosso sofrimento é menor do que o dele (que coitado está só). Mas isto faz algum sentido?
    Não conheço Rubem Fonseca nem ‘ A Grande Arte’, possivelmente não entendi ‘patavina’ da leitura deste mensurar sofrimentos ou será que mensurava apenas o espectáculo???
    Conto consigo (supondo que leu o livro) para me explicar o que queria o Rubem dizer… (como se eu tivesse oitenta e muitos anos, por gentileza)

  6. Ana Matos Pires diz:

    Joséjosé, nenhum, espero. Mas a mim também não me deu para rir.
    E porque há-de ser o sofrimento uma vivência solitária, Inês? Quanto muito é única a forma como cada um de nós o sente, mas a sua vivência pode ser partilhada. Frequentemente essa partilha muitas é uma forma de sublimação mais efectiva. Em qualquer dos casos, para mim, é sempre desprezível, o sofrimento.

Os comentários estão fechados.