Portugueses

Diz-me que português usas, dir-te-ei quem és. No desenho geométrico do quinto ano, umas linhas podiam ser tangentes como outras eram secantes, e livros havia também em que os sinos tangiam em vez de tocarem; no mais, o verbo tanger deu em tocar, para todos? não, quase, porque os mestres do português tabeliónico continuam a mostrar a sua diferença do vulgo escrevendo, em tudo o que é peça processual, “no que tange a…” (seja lá o que for), em vez do mais prosaico “no tocante a…”, ou do suburbano “derivado de…” (outra pérola). Por essas e por outras, é que os juristas (especialmente os que usam lencinhos na boutonnière) têm hoje o português mais ridículo de Portugal, terão eles noção disso?, perdi toda a esperança, e acho que a coisa só vai lá com a introdução de uma cadeira obrigatória de bom senso & bom gosto no currículo das nossas faculdades de Direito, à atenção das autoridades académicas.

Nos bons velhos tempos em que ainda havia professores de ginástica propriamente ditos, antes portanto da invenção do desporto teórico, por alturas do Dr. Veiga Simão, e das faculdades ditas de “motricidade humana” (recorde absoluto do nome mais absurdo do sistema educativo português), os desportos colectivos eram jogados por “equipas” (ou “times”, no Brasil: nós copiámos do francês, eles do inglês, eis toda a beleza de uma world tongue). Agora é muito pior: agora a bola é jogada por “grupos de trabalho” e a malta não se limita a ver os jogos, “lê” os ditos, de preferência com o apoio de vastos manuais explicativos. Mas ele há uma cura para isto, que já o velho Artur Jorge, dos bigodes fartos, in illo tempore explicou ao povo ignaro: é cortar o pio aos comentadores e pôr música clássica no seu lugar; hoje, só um cravo bem temperado pode salvar o futebol.

No grande mundo da arte, usa-se e abusa-se do verbo convocar: dantes convocavam-se os pais às escolas, greves mais ou menos selvagens, manifs. mais ou menos floridas; hoje, com a mesma displicência, convocam-se autores e mesmo escolas inteiras, tanta pessoa que até enjoa. A presença do verbo convocar no jargão artístico já é, por assim dizer, tão “natural”, que passou do escrito para o falado, e hoje como que flui da boca para fora dos nossos mais reputados teóricos. No outro dia, ouvi um a apresentar não-sei-o-quê e, numa conversa de cinco minutos, contei nada menos que três convocações. A seguir, como às vezes nestas coisas, houve comes e bebes, nada de especial, tudo muito verde, e muito biológico, e muito insosso, mas eu convoquei de pronto o sal e a coisa foi ao lugar.

PS Ouviram o rei de Espanha a mandar calar o Chavez? Foi notável por duas razões: primeiro, mostrou bem o primitivismo dos hábitos políticos dos nossos vizinhos, que bem se querem dar uns ares civilizados, mas um Bourbon é sempre um Bourbon, um daqueles que nada aprende nem nada esquece, alguém imagina a boa velha Elizabeth a saír do seu recato e a mandar calar um prócere africano qualquer da Commonwealth que chamasse fascista ao Blair?, a falta de chá d’el-rei foi abismal; segundo, revelou toda a rasquice do castelhano, a malta toda a tratar-se por tu, como se tivessem andado na escola juntos; não saberão eles dar-se “excelência”, quando falam aquela língua lamentável uns com os outros?

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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23 respostas a Portugueses

  1. João José Fernandes Simões diz:

    Embora não simpatize particularmente com o petroleiro Chavez, neste caso, o Rei bem que podia estar… calado.

  2. João José Fernandes Simões diz:

    Ou melhor… continuar calado.

  3. Sérgio diz:

    Notável!

  4. Em matemática a função que dá o declive da recta tangente num ponto é a função derivada.
    Será daqui que o “no que tange” evoluiu para “derivado a”?
    Também muito popular entre os suburbanos e o uso do “n” para identificar muitos (“…tive n casos…”). Isto é claramente semelhante ao vocabulário usado para provas envolvendo o conjunto dos numeros naturais.

  5. M. Abrantes diz:

    O rei de Espanha fez sua aquela que deve ser vontade de muitos venezuelanos, quando têm que gramar discursos de n horas [obrigado, Alberto Mendes] do indescritível Chavez. O mundo ainda não tinha luminárias suficientes que o servissem. Faltava-nos mais este postal.

  6. O “tu” castelhano é uma das marcas linguísticas do pós-franquismo. Não poderia o rei lhe ter dado melhor uso que no silenciar o insulto em questão.

  7. Lololinhazinha diz:

    Pois eu acho que foi um lindo momento e que o rei só fez aquilo que toda a gente tem vontade de fazer. Os espanhóis devem estar orgulhosos de ter um rei tão….espanhol…

  8. Al diz:

    Os espanhóis são gente singular, de onde o emprego do tu; nós, portugueses, mais esquizofrenicamente plurais, tratamo-nos no plural e damo-nos as excelências que não temos.
    Foi muito boa, a do Rei de Espanha, daquelas que valem por muitos discursos, daquelas que antigamente se diziam ter sido na mouche, ou lapidares – e percebe-se, por isso, o azedume e a inveja.
    A Rainha de Inglaterra não teria de intervir porque, desde logo, não estaria lá (mas também não é de se ficar…) A Inglaterra, onde se gosta de teatro e se vê o melhor teatro do mundo, é pouca dada a participar em entremezes de curiosos. O Rei de Espanha é que se pela por excentricidades: é o sangue do trisavô Roi Citoyen – não, não é erro: é Bourbon mas também é trineto de Louis Phlilipe, Rei dos Franceses (tal como o nosso Duque de Bragança, aliás).

  9. SL diz:

    Esperemos pelo tal acordo ortográfico com o “português brasileiro” e vamos ver como é bom! Começaremos a escrever “umidade” sem o dito “h”, substituir os acentos graves ou agudos por circunflexos e passaremos a ter “neurônios” em vez de “neurónios”! Bem, se eles tiverem melhor qualidade, lá entregaremos uma caixinha deles a alguns governantes!
    De governantes a Hugo Chavez e ao Rei de Espanha… segundo o próximo “el comandante”, a sorte do rei foi que ele não o ouviu a mandar calar!! Ai, ai, ai, ai, ai!!!!

    PS- quanto aos professores de ginástica… “fait attention”, porque se lhes chamarem isso… eles ficam ofendidos. São professores de desporto ou educação física. E eles até têm razão. Já lá vai o tempo em que era correr à volta do campo para aquecer e depois…saltar o trampolim, quando ele existia!

  10. Al diz:

    Lencinhos na boutonnière? Na boutonnière usam-se flores. «Lencinhos» são no bolso de cima.

  11. The Studio diz:

    Diz-me que português usas, dir-te-ei quem és.

    Diz-me quem defendes, dir-te-ei quem és.

    Na realidade o Rei de Espanha não mandou calar Hugo Chavez por este ter chamado fascista a Aznar. Estando Zapatero no uso da palavra, mesmo com o microfone desligado Chavez não se calou um momento impossibilitando o Primeiro Ministro espanhol de discursar. Foi neste contexto que Juan Carlos perguntou a Chavez porque não se calava. É que mesmo nos currais, quando um burro fala, ou zurra, os outros baixam as orelhas.

    Quanto o António Figueira se dispõe a distorcer os factos para defender um ditador de meia tijela, posso mesmo acrescentar:
    Diz-me quem defendes, dir-te-ei quem és.

  12. a.m. diz:

    Ainda gostava de saber o que será “o português mais ridículo de Portugal”… (havias de ver o português jurídico do Brasil!).
    Não é decerto o português das calinadas dos média, nem o dos que dizem abismal (bem sei, não será erro, mas…) por abissal (abyssus abyssum invocat…).

  13. “Esperemos pelo tal acordo ortográfico com o “português brasileiro” e vamos ver como é bom! Começaremos a escrever “umidade” sem o dito “h”, substituir os acentos graves ou agudos por circunflexos…”

    Cara Susana, ponhamos por um momento os acentos agudos de parte (embora o que disse nem para estes seja verdade). Dê-me um exemplo de um acento grave que, depois do acordo ortográfico, passe a circunflexo, por favor.

  14. nick name juan diz:

    É particularmente assustador. A inteligência parece que foi raptada. Uma tendência sul-americana. Será uma tendência. Será de esquerda.
    Rui Tavares interroga-se, hoje no Público, sobre o que diriam os portugueses de alguém que interrompesse um cabotino português que nos dirigisse. E azar nosso já dirigiu. E já recebeu as melhores oferendas por ele e pelos cinco dias. Eu só agradeceria o que o Rei de Espanha fez. Que alguém interrompesse quem estava a interromper. É lamentavel que no meio do habitual meio do politicamente incorrecto apareçam estas correcções.
    Por isso longa vida ao Rei de Espanha.

  15. CARLOS CLARA diz:

    NÃO É SÓ O VERBO “CONVOCAR” QUE COMEÇA A TORNAR-SE ENFADONHO NA TÃO “GRANDE ARTE SABE-SE LÁ PORQUÊ”. TAMBÉM SUBSTANTIVOS SE REPETEM COM RARA ERUDIÇÃO PLÁSTICA: “AFECTOS”, “RECORDAÇÕES”, “AMBIENTES”, ENCHEM PÁGINAS EXPLICATIVAS DE TAIS OBRAS, PORQUE DAS OUTRAS RARAMENTE SE FALA – OU SERÁ APENAS PORQUE ELAS FALAM POR SI?

  16. carreira diz:

    SILÊNCIO CULPADO disse…
    Perante uma grande sacanice que está a ser feita sobre alguns professores que não recebem vencimento,têm horários d e12 horas ou estão a recibos verdes sugere-se que todos os blogues publiquem a notícia que está no http://cegueiralusa.com

  17. SL diz:

    repondendo ao Filipe Moura… no actual “português” um mero leigo de gramática profunda também pode utilizar uma hipérbole…exagerando na expressão, ampliando a verdadeira dimensão das coisas.
    Mesmo nas coisas sérias, podemos dar um pouco de graça, para desanuviar… Podem os outros não achar piada, mas… há sempre um momento para sorrir.

  18. CARLOS CLARA diz:

    SR. “DE CARREIRA” É ESSE O SEU NOME? VOCÊS ATACAM EM TODAS AS FRENTES. NUNCA TINHA VISTO OS VOSSOS ROSTOS ANTES. PENA É QUE TRABALHADORES LICENCIADOS NÃO TENHAM O MESMO FOLEGO- ESTOU A FALAR POR EXEMPLO NESSE VOSSOS CONGENERES, TAMBEM ELES LICENCIADOS A QUEM OS BANCOS MULTIMILIONÁRIOS PAGAM 600 EUROS E DESPEDEM QUANDO QUEREM

  19. JoanaD diz:

    Eu estou farta de ideias que “preconizam” e não percebo porque raio toda a gente que aparece no telejornal está “convicta”… Falar Português tornou-se uma questão de moda. Há palavras ou expressões que estão “fashion” e senão as utilizamos passamos por ignorantes.

  20. topisciis diz:

    A cimeira ibérica entre os antigos senhores da terra da américa ibérica e os senhores de hoje pautou-se por uma arruaça..

    O senhor chavez está no poder vestido de palhaço revolucionário….

    mas foi eleito…. pelos venezuelanos .

    O senhor aznar também o foi pelos espanhóis…

    O senhor rei parece não o ter sido, salvo pelo franco e pelos marialvas castelhanos …

    Salvou-se nesta patuscada ibérica o senhor zapatero
    que manteve uma postura de homem de estado …..

  21. carmo da rosa diz:

    “o rei de Espanha a mandar calar o Chavez? Foi notável por duas razões: primeiro, mostrou bem o primitivismo dos hábitos políticos dos nossos vizinhos”

    Creio que não! Mas de qualquer forma, o que este comentário sem dúvida mostra, é que os nossos vizinhos já ultrapassaram a fase em que caluniá-los é perfeitamente admissível e politicamente correcto. Os espanhóis já fazem parte da elite, já estão quase ao nível dos americanos.

    Substitua-se ‘espanhóis’ por ‘marroquinos, e António Figueira por Pedro Arroja, e já se vai ferir susceptibilidades multiculturais, já a casa vai abaixo.

    Ouviram o rei de Marrocos a mandar calar o Kaddafi? Foi notável por duas razões: primeiro, mostrou bem o primitivismo dos hábitos políticos dos nossos vizinhos do outro lado do mediterrâneo, que bem se querem dar uns ares civilizados, mas um Almóada é sempre um Almóada, um daqueles que nada aprende nem nada esquece. (..) A falta de chá [de pequenino] d’el-rei foi abismal; segundo, revelou toda a rasquice da língua Árabe, a malta toda a tratar-se por tu, como se tivessem andado na madrassa juntos; não saberão eles dar-se “excelência”, quando falam aquela língua lamentável uns com os outros?

  22. samuel mor diz:

    este foi escrito a treze… vamos a 17… «onde estais agora… marchais sobre que estradas…»…? vá lá… ‘convoquemos’ o sal!…

  23. CARLOS CLARA diz:

    CARMO DA ROSA

    Mas qual é a sua ideia sobre cultura? Muitas torres gémeas em poucos metros quadrados, sem que se perceba muito bem onde ficam os palácios de Nara ou um belo banquete num pátio marroquino com dez músicos, e umas belly dancers em vez dum hamburguer bafiento com batatas fritas também elas bafientas à luz do neon. Claro que bons restaurantes há em todo o lado, eu prefiro os de Nara. Depois, da cultura também faz parte a educação e eu tenho amigos marroquinos duma finura de educação e nobreza que nunca vi no ocidente. Garanto-lhe que quando são educados são por nobreza de sentimentos e não por manual.E depois, essa dos espanhois estarem ao nivel dos americanos, espero bem que não. Onde iria eu depois comer uma boa paella ao som do flamengo e partir para um bar de ciganos com tablau, depois dum dia no Prado, o museu, claro. É um povo antigo. São europeus como eu.

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