E

Escreveu o Ezequiel, em comentário ao meu post “Às voltas com Rousseau”: “Existirá uma tensão irresolúvel entre o ‘liberalismo’ de Émile e o conceito da vontade geral? Parece-me que sim.” A mim parece-me que não, e vou tentar explicar muito brevemente porquê:

É um facto que falta no “Émile” algo que sobra no “Contrat Social”: o sentido do dever. A educação que J. J. Rousseau prescreve no primeiro destina-se a desenvolver livremente o “eu” de cada infante, através de um percurso da sua própria criação, e que é suposto familiarizá-lo com as coisas do mundo. É desse conhecimento directo das coisas que resultará o seu auto-conhecimento, e a afirmação da sua personalidade, indispensável segundo Rousseau para conhecer a Deus, porque Deus não pode ser conhecido pela fides implicita da religião tradicional dos católicos, nem tão pouco pelo testemunho das escrituras caro aos protestantes.

Pelo contrário, a submissão à famosa “vontade geral” que Rousseau prescreve no segundo torna, prima facie, a disciplina do “Contrat social” muito pouco condicente com o “liberalismo” do ideal educativo do “Émile” – não fora o “Émile” ser isso mesmo, uma descrição ideal da educação de cidadãos ainda inexistentes, e o “Contrat social” uma obra sobre a legitimação política possível da cidade dos Homens tal qual ela existia no presente em que também existia J. J. Rousseau.

No futuro, quando a razão, acordada justamente pela educação, fizer nascer em cada um, na falta de um instinto social, um amor racional pela sua comunidade política, e cada Homem puder ser também, por via da educação que tiver obtido, um cidadão, a “vontade geral” não será apenas uma vontade colectiva mas também uma vontade universal; mas é apenas no plano do futuro que o “Contrat social” e o “Émile” convergem, em torno do mais fundamental dos conceitos de Rousseau: o de personalidade – autêntica e livre.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

8 respostas a E

  1. ezequiel diz:

    Caro António,

    Afirmas a complementaridade dos textos. Quando li estes textos, há quase 20 anos (1 ano de curso, e nunca mais lhes toquei) fiquei com a ideia de que haveria uma tensão entre as duas oeuvres, entre o dever do contrat e o “expressivismo” (formado cultivado, é certo) romântico de Émile. Talvez seja por isso, pergunto eu, que não encontramos a noção do dever em Émile…porque o expressionismo leva-nos exactamente ao mesmo lugar do que o dever, sem a imposição de uma vontade “geral”: a comunidade como espaço formativo.

    Belo texto.

    Muito obrigado pela explicação. 🙂
    ezequiel

  2. Sérgio diz:

    É uma leitura com que concordo. Do pouco que conheço de teoria política, parece-me um esforço ideológico conservador fazer de Rousseau um proto-totalitário por causa de um putativo absolutismo da vontade geral que em JCE tem designações como «falácia de Rousseau» ou «democracia despótica» (por ex. no prefácio à «Da democracia na América»)

    Bom texto, António, com efeito.

    Cumprimentos,
    Sérgio.

  3. castro diz:

    SILÊNCIO CULPADO disse…
    Perante uma grande sacanice que está a ser feita sobre alguns professores que não recebem vencimento,têm horários d e12 horas ou estão a recibos verdes sugere-se que todos os blogues publiquem a notícia que está no http://cegueiralusa.com

  4. ezequiel diz:

    Caro António

    Isto tem alguma coisa a ver com a Émile e a volonté???

  5. ezequiel diz:

    isto, oops, esqueci-me…

  6. ezequiel diz:

    sublime

  7. ezequiel diz:

    Quem tiver tempo visite a expo do meu primo e artiste preferido, João Decq Motta (eu sou um primo babado)…galeria fonseca macedo @ fil, lisboa…e a de André Almeida e Sousa (arco), outro grande maluco genial…:)

    http://www.fonsecamacedo.com/default.php?lang=pt

    (a malta aqui do 5dias que me desculpe pelo oportunismo publicitário…adoro os gajos…e os seus trabalhos…:)

    beijins

  8. CARLOS CLARA diz:

    BELO TEXTO. SAUDADES DO TEMPO EM QUE SE LIA ROUSSEAU E ESPERANÇA SOBRE UMA SOCIEDADE LIVRE E EMANCIPADA. A ANTÍTESE DE HOJE, E JÁ DE ONTEM, UMA SOCIEDADE APENAS COM PREOCUPAÇÕES DE CONSUMO E OBJECTIVOS CIFRADOS. HÁ VINTE ANOS, A SOCIÓLOGA DUMA GRANDE EMPRESA BELGA CHAMOU-ME DE NOVO SELVAGEM POR DEFENDER AINDA OS IDEAIS DE ROUSSEAU…. NOVA SELVAGEM ERA ELA

Os comentários estão fechados.