Ana Matos Pires: Mais do mesmo

De acordo com o programa, as primeiras duas sessões do “I Encontro de Estudos Médicos sobre a Vida Humana”, que hoje se iniciará em Lisboa, abordarão temas relativos à saúde mental – “Trauma, Perturbação Stress Pós-Traumático e Aborto” e “Investigação em Saúde Mental Pós-Aborto”

Antes de continuar, dois pequenos textos que me parecem resumir o actual estado da arte relativamente ao Síndrome Pós-Aborto e ao binómio aborto e psiquiatria.

Recuso-me a acreditar que qualquer um dos psiquiatras portugueses presentes nas referidas mesas – Prof. Doutor Adriano Vaz Serra, Dr. Carlos Ramalheira e Dr. Pedro Afonso – subscrevam a informação que está a ser veiculada pela organização do referido Encontro e que me chegou por email, nomeadamente “Doenças mentais graves como a depressão, a doença bipolar, a esquizofrenia e comportamentos de risco, como o suicídio, estão fortemente associados à prática do aborto”

Aparentemente os dados postos a circular baseiam-se num estudo levado a cabo por Priscilla Coleman «Quatro anos depois de um aborto, as mulheres continuam a receber tratamento para doenças mentais. Esta é uma das principais conclusões do Estudo “Abortion Mental Health Research: Update and Quality of Evidence”. A Dra. Priscilla Coleman, coordenadora do estudo americano…».

Onde foi publicado o estudo? Pesquisei, pelo título, nas principais bases bibliográficas médicas e não encontrei. Que dados científicos são estes?

Dessa informação consta, também, o seguinte «Em 2006, um estudo da Nova Zelândia, levado a cabo por David Fergusson, revela que a mulheres mais jovens correm um maior risco de sofrer de patologias mentais.»

A referência bibliográfica não é apresentada, em todo o caso julgo que é a este artigo que se referem «Abortion in young women and subsequent mental health. Fergusson DM, Horwood LJ, Ridder EM. Journal of Child Psychology and Psychiatry. 2006 Jan;47(1):16-24».

Começo por fazer notar que os autores do artigo do Journal of Child Psychology and Psychiatry estão certos, e são cientificamente honestos, quando consideram que as suas conclusões carecem de confirmação. Estão certos, também, quando referem como conclusão mais sólida do estudo a de que “a questão de o aborto ter ou não efeitos prejudiciais na saúde mental permanece por resolver” e apelam ao desenvolvimento de mais investigação neste domínio.

O estudo foi desenvolvido com mulheres jovens – teve em consideração a experiência de gravidez de mulheres com idades entre os 15 e os 25 anos. Os investigadores não produzem qualquer inferência genérica sobre as mulheres; com efeito, o seu interesse parece dirigir-se apenas à experiência de adolescentes e jovens adultas.

A palavra “pode” é o termo mais importante das conclusões do estudo.

Do ponto de vista das eventuais generalizações dos resultados é necessário atender a algumas limitações metodológicas:

a) Os autores do artigo científico referem que os resultados não tiveram em conta outras variáveis que não o aborto, isto é, não foi retirado o efeito das chamadas “variáveis parasitas”.

b) Do mesmo modo, os autores fazem notar que existe uma diferença estatisticamente significativa entre a taxa de aborto da amostra e a verificada na população em geral.

c) Existem factores contextuais associados à decisão de abortar a que o estudo não foi sensível. É dito no artigo “é claro que a decisão de fazer (ou não fazer) um aborto envolve um processo complexo” e que, como resultado “pode ser proposto que os nossos resultados reflictam os efeitos de uma gravidez indesejada, ao invés dos efeitos do aborto per se, na saúde mental”.

Este último ponto, relativo aos efeitos da gravidez indesejada, é particularmente importante. A amostra de casos – mulheres jovens que efectuaram um aborto – foi comparada com dois grupos de controlos – um grupo de mulheres que declararam não ter experimentado uma gravidez e outro de mulheres que levaram a gravidez a termo. Foi neste cenário que emergiu uma associação entre o aborto e uma deficiente saúde mental.

Importa ainda referir que o estudo foi efectuado num contexto em que o aborto é legal e de acesso relativamente livre. Deve ser, portanto, tomado em consideração que provavelmente o único grupo de mulheres – de entre os três grupos comparados – que experimentaram uma gravidez clara e consistentemente indesejada foi o grupo de casos.

Uma vez que este estudo foi conduzido num contexto em que o aborto é legal e acessível, é provável que as gravidezes das mulheres que levaram o processo até ao fim e que pariram possam ser classificadas como desejadas. Assim sendo, que experiências vivenciais estão a ser comparadas?

O mais válido grupo de referência para comparar as mulheres que abortam é o grupo das mulheres com uma gravidez indesejada, às quais é negado o aborto e que dão à luz. Quando estes grupos são comparados deve, pelo menos, ser assumido que o contexto da gravidez é similar e que o que está a ser comparado são os efeitos da resultante da gravidez (nascimento ou aborto). No entanto este estudo – e por razões óbvias face à legislação do aborto na Nova Zelândia – não inclui este tipo de controlos.

Mas esta comparação existe, foi feita por outros autores – em particular os de Henry David, talvez o investigador e autor mais prolífico nesta área – e conclui-se que a negação do aborto e o nascimento de uma criança indesejada tem uma associação mais forte com o prejuízo da saúde mental do que o aborto.

Aqui fica a referência de um texto português, da autoria do Prof. Doutor Adriano Vaz Serra – “O Distúrbio de Stress Pós- Traumático”, editado em 2003 por Vale & Vale Editores, Lda. Faço notar que, ao longo das 363 páginas do livro, não surge uma única menção ao Síndrome Pós-Aborto e que, na pág. 33, há uma referência expressa à gravidez não desejada, num capítulo cujo título é, exactamente, “A relevância de certos tipos de acontecimentos traumáticos”: «A violência interpessoal, para além das lesões e morte que pode determinar pode dar origem a um largo número de problemas que se repercutem sobre a saúde. Estes incluem consequências graves de saúde mental, doenças transmitidas sexualmente (entre as quais o vírus da SIDA), gravidezes não desejadas ou problemas do comportamento»

Ps: Já agora aproveito para aqui deixar, também, um outro documentado saído da última Assembleia Geral da Associação Médica Mundial, realizada em Outubro passado na cidade de Copenhaga – World Medical Association Statement on Family Planning and the Right of a Woman to Contraception.

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SEXTA | António Figueira
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