7 de Novembro

Ontem, no 90º aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro, findo o jantar, levantei-me com os meus filhos de 16 e 11 anos e, de punho erguido, cumprimos um minuto de silêncio por todos os camaradas mortos nas trincheiras da luta de classes, cantámos “A Internacional” (em português e francês) e demos vivas a Lénine, ao comunismo e à revolução mundial. Contei isto depois a uma pessoa amiga e ela acreditou, o que me levou a concluir que a humanidade permanece dividida em duas, não necessariamente em vermelhos e brancos, mas em farsantes e crédulos, e que eu, embora desde há muito faça parte dos primeiros, não consigo viver sem os segundos (nem as segundas): é a minha forma de compromesso storico.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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40 respostas a 7 de Novembro

  1. Lidador diz:

    “Contei isto depois a uma pessoa amiga e ela acreditou”

    Provavelmente por boas razões.

  2. António Figueira diz:

    Só V. me faria rir a esta hora, ó Lidador! Tente sempre, AF

  3. Pedro Ferreira diz:

    António, grande malandro quando fui jantar lá a casa na semana passada limitaste-te a uma oração de graças pela comidinha ao Todo Poderoso, talvez fosse por ser véspera de dia de todos os santos 🙂

  4. eheheheh. tou-te a imaginar, antónio. não percebo é porque é que não acrescentaste a versão russa, tão mais épica.

  5. António Figueira diz:

    f.,
    eu só gosto de real things, chateiam-me as imitações – e a verdadeira Internacional é em francês (Debout, les damnés de la terre, debout les forçats de la faim…)

  6. Eu pela minha parte consigo viver bem sem os segundos. O que não consigo é viver sem as segundas…

  7. Ana Matos Pires diz:

    ihihih

  8. António Figueira diz:

    “ihihih”?! Mas olhe que isto é muito sério (conforme o Lidador logo percebeu, aliás). Quem finge e quem fala verdade? Trata-se, nem mais nem menos, de rever o marxismo-leninismo à luz de Jorge Luís Borges (o incontornável locus criminis: el jardin de los senderos que se bifurcan). Muito sério mesmo…

  9. António Nobre diz:

    Uma mentira sempre oculta qualquer coisinha… Bem lá no fundo, memo no fundinho, gorgoleja em certas gargantas as notas afinadinhas da Internacional que, se a seguir à noite dia não houvesse, aos meus netos teria sido imposto tão saudável hino…
    Nesta parcial realidade virtual, a verdade é uma forma de evitar as consequências… acredito que A. Figueira, depois do lauto manjar e do auto cantar, tenha palitado os dentes… com fio dental, homessa.
    Eu cá sou dos que ainda permanecem virginalmente crédulos.
    Obrigado pela fábula…

  10. M. Abrantes diz:

    Registo o prazer que tem em misturar várias línguas nos seus textos. As variações resultam, deixam marcas, como as arrancadas de um atleta queniano numa corrida pedestre. Quanto à cena de momentânea loucura em família que descreve, tinha mais piada se tivesse acontecido mesmo. Talvez sacasse umas boas gargalhadas ao seu miúdo de 11 anos.

  11. toix diz:

    Eu por acaso também gostava de fazer parte dos primeiros, mas parece que não consigo. É que estava a ler aquilo e até estava a acreditar.

  12. carmo da rosa diz:

    Versão Miguel Portas.

    Debout, les damnés de la terre,
    debout les forçats de la faim…

    Non! Rien de rien,
    Nooooon! Je ne regrette riens.
    Ni le bien que je n’ai pas fait,
    Ni le mal que j’ai partout instauré,
    Tout ça m’est bien égaaaaal

    Noooon ! Rien de rien
    Noooon ! Je ne regrette rien
    C’est payé, balayé, oublié
    Je n’ai rien à branler…

    Avec mes camarades
    J’ai allumé le feu
    Mes chagrins, mes plaisirs
    Je n’ai plus besoin d’eux !

    Balayées les Goulags
    Et tous leurs trémolos
    Balayés pour toujours
    Je repars à zéroooooooo.

  13. ezequiel diz:

    Caro António,

    Não quero ser chatinho mas gostaria de te pedir o seguinte: será que poderias escrever um post sobre a Émile e a volonté do Jean Jacques? Trata-se apenas da curiosidade de um leitor atento que gosta de ler o q tu escreves.

    Abraço,

    ezequiel

  14. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,

    Não estava esquecido; há-de ser no fim-de-semana.

    Abraço, AF

  15. ezequiel diz:

    merci, mon cher!

    à bientôt msr Antoine! 🙂 (eh eh eh)

  16. rvn diz:

    carmo caro da rosa,
    sinceramente: foi o texto mais bem cantado que eu já li.

  17. Al diz:

    Os seus amigos são, de facto crédulos. Também, para ser sincero, creio que se não fossem crédulos não eram seus amigos, nem se exporiam a ver a sua – deles – boa fé servir de tema jocoso de «post».

  18. Al diz:

    Ah, já me esquecia, em que consiste, e-xac-ta-men-te a perversão de Sir Isaiah Berlin?

  19. António Figueira diz:

    Caro Al,
    V. combina uma tendência fastidiosa para o moralismo com uma dificuldade de compreensão que exasperaria um blogger menos paciente. Quanto a Isaiah Berlin já respondi e sugiro-lhe que vá ver o que escrevi como comentário ao post em questão; quanto ao meu putativo “abuso de confiança”, o seu raciocínio tem uma falha lógica: se só os crédulos podem ser meus amigos, isso implicaria que os incrédulos fossem meus inimigos; ora sendo eu um farsante entre farsantes, o argumento cai pela base, percebe?

  20. Alba diz:

    Eu acho esta fantasia do A.F. muito, muito curiosa.
    Há alguns anos, na sequência de um “chagrin d’amour” (em francês, claro!) receitaram-me Prozac.
    No primeiro dia não houve grande coisa a assinalar mas, no segundo, acordei a cantar a Internacional. Em Português. Com a letra que a UDP adoptara trinta anos antes, quando eu era bem pequenina. Julgava que já não me lembrava mas, afinal, sabia aquilo tudo.
    No terceiro dia, zás, a droga torna a reclamar a presença da minha “bolchevista interior”. Não achei bem. Afinal, há 3 anos eu já me didentificava com a “esquerda moderna”, ora essa! Que assomos de atavismo eram aqueles?
    Deixei de tomar Prozac por indicação médica.

    Agora, ao ler este post, interrogo-me sobre o motivo de, durante esse estado alterado de conciência não ter cantado a música da Heidi, sei lá, em japonês, por exemplo.

  21. joséjosé diz:

    “A ociosidade é a mãe de todos os vícios” . Ia a passar por este “7 de Novembro” e deu-me para “postar”esta frase – não sei porquê – talvez pq passei á pouco descontraidamente pela 161 – agora tão em moda – dum livro achocolatado da Esquivel.
    Talvez seja da ressaca. É que realmente hoje é 8 e passei pelo 7 ontem…

  22. rvn diz:

    Alba,
    Se o prozac lhe fez efeito em 48 horas, sugiro que contacte com urgência o seu dealer. Diga-lhe que o pessoal já sabe, ele que fuja.

  23. Alba diz:

    rvn,
    Esta história, ao contrário da que conta o AF é verdadeira. Se calhar não foi só 48 horas. Se calhar os sintomas de nostalgia da mística da esquerda começaram algum tempo depois. Mas o resto passou-se como contei.

  24. ondevaisorioqueucanto diz:

    Alguém sabe o que se celebra actualmente na Rússia em substituição da Revolução de Outubro? Ou seja, o velho 7 de Novembro?

  25. Al diz:

    Não implica absolutamente nada: por uma lado, implicaria apenas que alguns não-crédulos não seriam seus amigos ( o que não é a mesma coisa do que ser seu inimigo, como notará se reflectir um pouco ), por outro, teria de se apurar as suas qualidades como farsante, a sua capacidade de embuste, por exemplo.
    Agradeço o achar-me fastidioso. Também me acho. E quando o descobri, senti-me bem: um ser levemente obtuso e fastidioso e que gosta de ser assim, numa terra de génios arrojados pareceu-me ser estimável: não repara na quantidade de livros, ditas, teorias, sistemas, repentes, tudo absolutamente genial, que Portugal produz anualmente? Pois bem, eu não tenho a menor culpa disso, o que me faz sentir, enfadonhamente, uma pessoa de bem.
    Li agora o que escreveu. Determinismo é o de Rousseau, esse vadio petit bourgeois, como lhe chama, e passo ao último assunto, esse homem terrível, Berlin: logo vi, uso inadequado da palavra «perverso» (apenas por modismo?) Teria dito, com mais propriedade, desculpe que lhe diga, contradição. A questão que põe tem, no entanto, cabimento, pelo menos teve para mim, pelas minhas dificuldade de entendimento -que já tão bem observou. Resolvia-as em parte ao ler o que Berlin diz de Vico – que não considera um relativista – e as considerações sobre a obra de Maquievel.
    P.S. Sim Nabokov era anglófilo, mas entre sê-lo requintada e longinquamente e viver no país, frequentar as escolas, crescer lá, etc.. Enfim, entenderá.

  26. Cantar a Internacional, sempre!

  27. costa diz:

    “Contei isto depois a uma pessoa amiga e ela acreditou”
    “Provavelmente por boas razões.”
    Ó lidador, por amor de deus, estamos em democracia, por que raio havia de haver aqui encenação de AF?…
    Vê, lá mais à frente um amigo de AF testemunhando que o viu em oração de graças pela comidinha: “António, grande malandro quando fui jantar lá a casa na semana passada limitaste-te a uma oração de graças pela comidinha ao Todo Poderoso, talvez fosse por ser véspera de dia de todos os santos.”
    Deixe lá isso lidador, não desencadei os mecanismos, o senhor até tem dois filhos menores e tudo para alimentar.
    PS-Mas não sei se não foi bem feito tê-lo apertado um pouco, para que não brinque com coisas sérias…
    PS2-Caro AF, cara ou coroa, isto é, estou a brincar ou não?…

  28. António Figueira diz:

    Isso queria eu saber!!!

  29. sei que isto não é coisa que se confesse e muito menos num blogue ‘de esquerda’ por uma pessoa do blogue (e portanto ‘de esquerda’) e que vou dar um grande desgosto a muita gente diferente, ou melhor, diferentes desgostos a gente muita — grande e pequena –, mas não fazia ideia que a revolução de outubro se comemora a 7 de novembro. então raio da revolução não foi em outubro? isto há com cada mistério.

  30. ezequiel diz:

    estes trocadillos de los comentarios estan-me botando con els neuronios cor de rosa, Priviet* Illyich (It should not be translated as Private. This loonie tune´s name is twofold: Democratic Centralist, no less)

    mucho mucho el importante de lo ser muizito planetariamente lógííco..si los credulos son mis amigos then enzetonzes los incredullos son mis inimigos…non sequitur, natura experientialis

    mais como tu non savere siempre si tons amigos son tons amigos ou si los credulos son veramente credulos es absurdamente impossivel de determinar assim metafisicamente uma coisa ou a outra. uma outa cosita es la distiensione temporale…puedes ser credulo religioso (na logica da coisa) sendo laico..in periodos distintos, invertendo logicas (avec la aprehendizage…par example…Jaimito, de la harvard, muchito interessante nos assuntitos de crença.

    e tenemos tambien el factito que las perceptiones san nan raramente compostas de falsas crencas, um terreno de colages de verdade e falsidade:paradoxales in extremis.

    questo es une ataquezito de ciberimbecilidade

  31. Pedro Ferreira diz:

    Cara Fernanda Câncio, o facto da revolução de Outubro se comemorar a 7 de Novembro é culpa do papa Gregório XIII ter em 1582 decidido mudar o calendário. Como na altura a Rússia já era ortodoxa há uns séculos lá ficaram com o velhinho calendário de Júlio César…

  32. shyznogud diz:

    A “culpa” é da adopção tardia do calendário gregoriano pela Rússia, Fernanda. Só depois da revolução é que por aquelas bandas foi abandonado o calendário juliano. Mania de complicarem tudo, mazé…

  33. ondevaisorioqueucanto diz:

    No mistery my dear Fernanda. Check this out: http://www.sptimes.ru/index.php?action_id=2&story_id=23552

    Live and learn, is what I always say. Dobra, dobra!

  34. emepê diz:

    E é também assim que o Natal ortodoxo se comemora a 7 de Janeiro.

  35. Eu penso que a f. sabe perfeita/ porque é em Novembro, e não em Outubro, no nosso Outubro, esta coisa da revolução bolchevique. Ela estava apenas a jogar aos farsantes 😉

  36. Al diz:

    Em tempos de google a ignorância linear é um efeito de retórica.

  37. Ana Matos Pires diz:

    Sim, António, mas o Lidador é o Lidador, vê sempre até ao infinito e mais além, eu sou uma simples rapariga simples, desculpe-me por isso, por favor.

  38. António Figueira diz:

    E para além de tudo isso, não me consta q seja uma assadora de carnes castelhana… Sim, está infinitamente desculpada…

  39. luis eme diz:

    Grande metáfora dos nossos dias, em que obrigam os jovens que entram no mundo do trabalho, a tirarem especializações de vendedores de banha da cobra, a impingir coisas quase do género da Ponte 25 de Abril…

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