Bolinhos da sorte

A Cristina Ferreira de Almeida, minha vizinha em Ranholas, pede-me para integrar uma cadeia estranha com objectivos esconsos: tirar um livro ao calhas da estante e ler a quinta linha da página 161. Cá vai. Estendi a mão e tirei um livro grandito…. os Essais de Montagne. A página 161 tem um título que não me convence. Parece Que Philosopher c’est apprendre à mourir. Era fixe que se a gente se recusasse a tirar lições sobre essa nobre arte, o funério desfecho não se verificasse. Pretendo baldar-me às aulas. Adiante. Vamos à quinta linha que reza (bem apropriado) o seguinte: “Par le commun train des choses, tu vis pièça par faveur extraordinaire”. Como vêem, é melhor que os signos da Pública.

É suposto cravar cinco pessoas, sem muita esperança que tenham tempo para isto, vou fazer os pedidos: Rodrigo Moita de Deus do 31 da Armada, Inês Almeida do Corta-Fitas, Besugo do Blogame Mucho, Paulo Pinto Mascarenhas do Atlântico e Laura Abreu Cravo do Mel Com Cicuta. Dois dos visados não conheço, podem perfeitamente recusar um pedido tão pueril. Os outros três têm que me aturar.

Nota: A ciosa da Fernanda diz, com razão, que já tinha desafiado dois da minha lista com 24 horas de antecedência.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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22 respostas a Bolinhos da sorte

  1. querido nuno, era o mínimo que tivesses reparado que eu neste mesmo blogue já entrei nesse jogo e que dois dos teus desafiados, o besugo e a laura, já desafiei eu. com 24 horitas de avanço. vá lá, vê se varias, pá.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Era porreiro ter-te lido antes, pá. Ó rapariga ciosa e territorial, deixa lá, não vai mal ao mundo na repetição: os blogs podem ser lidos por várias pessoas ao mesmo tempo.
    Bjs

  3. The Studio diz:

    Parabéns Nuno, já todos sabemos que tens livros em Francês. Eu achei piada e decidi tirar também um livro perfeitamente ao acaso (o meu foi mesmo ao acaso, nem sequer olhei para a estante quando o tirei). Saíu-me o livro “Marxismo e consciência de classe” de Henri Weber. Na quinta linha da página 161 diz, “Inversamente, um período de crise generalizada da sociedade bur-“.

  4. eheheh. vista cansada, hã?

  5. nuno diz:

    Ninguém me encomendou o sermão (ou a citação) mas pq será que nos blogues anda tudo com livros tão intelectuais?
    Eu fui à minha biblioteca e para quebrar o enguiço peguei num livro que me ofereceram , mas nunca li (é mesmo verdade que nunca li, acho sequer que nunca o folheei de forma a ler uma linha que fosse tirando as das páginas, tenho o Vai Onde te Leva o Coração, da Susanna Tamaro). Azar dos Cabrais, nem sequer chega à página 161. Ao lado, arrumado por ordem alfabética fui dar com o pequenino 8 Ícones, de Arsenii Tarkovskii, publicado na Gato Maltês da Assírio e Alvim. Má sorte, queda-se pelas 58 páginas e nem todas de texto.
    Mas há azares destes: andar de citação em citação. Embora também leia, chique dos chiques, em francês, achei melhor abrir na referida página a antologia de Ensaios do Montaigne, publicado pela relógio d’Água – também não o tinha em versão original, confesso-, e não é que nessa linha o filósofo se pôs a citar o Horácio? Pois é: «Somos manobrados como títeres por músculos alheios”, dizia o autor das Sátiras. Será que também na página 161 das ditas?

  6. The Studio,
    Também tenho em mandarim, mas o teclado do computador não dá.

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Se não fosse ao acaso e tivesse que procurar, teria escolhido o MANUAL DE CIVILIDADE PARA MENINAS · Pierre Louys · FENDA. Temo é que não tenha 161 páginas

  8. Gasel diz:

    Porque será que esta gente, assim mais ou menos sem querer, saca sempre um gostoso livro em “estrangeiro”? Estranho…

  9. nuno diz:

    é verdade o útil manual do Louyis tem apenas 98 páginas na versão Fenda, a mais adequada aliás. O Diário Inédito de Sade, versão Arcádia, também tem páginas a menos tal como o Dom Juan de Kolomea, de Sacher-Masoch, da Antígona
    mas
    na Vénus de Kazabaika (ou de peles), do Sacher Masoch, versão Rd’Agua, passando umas linhas vazias, na quinta linha escrita diz-se que “…foi ao teatro, recebeu visitas; a negra serviu-a. Ninguém se…”
    “Perguntaram à Duclos se não tinha qualquer prova” é o que vem no mesmo sítio de os 120 dias de sodoma, de sade, na Antígona
    e “Acreditai que, da mesma forma, hão-de renunciar ao seu…”, lê-se na Filosofia na Alcova, tb Sade e tb Antígona.

    nem os melhores autores entusiasmam muito assim ao calhas

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Gasel,
    Deve ser pq gostamos de nos armar aos cucos. Mas para a próxima tento encontrar “As lições do Tonecas” que devem ser mais do seu agrado.

  11. o que eu acho realmente extraordinário é que haja alguém que se espanta por haver quem leia livros em inglês, francês ou espanhol. se fosse em russo ou japonês ou árabe, seria realmente de estranhar — mas em inglês? em francês? e ainda se insinua que isso é armação? por favor. só quem não saiba inglês ou francês lê originais dessas línguas em português. por todos os motivos e mais um, não despiciendo e muito pouco de ‘armar aos cucos’: os livros ingleses e muitas vezes os franceses são mais baratos que as suas traduções portuguesas (quando existem — para não falar sequer da sua qualidade, que está nos outros motivos).

  12. The Studio diz:

    Menina Câncio, ninguém se espanta que haja quem leia livros em Inglês e Francês. Eu próprio, ultimamente, quase só tenho lido livros em Inglês. Apenas se constata que, tirando um livro de forma perfeitamente aleatória, ao povinho sairam livros em Português, e aos intelectuais sairam livros livros em Francês e Inglês. Ninguém insinuou, e estou certo que não passou pela cabeça de ninguém, que os intelectuais tenham deliberadamente escolhido livros em línguas estrangeiras para se dar o ar de uma merecida superiorida. Já viu, a mim saiu-me um livro sobre o Marxismo. Também se poderia insinuar que eu me estaria a “armar” em intelectual de Esquerda…

  13. teresa diz:

    Tenho tropeçado nos últimos dias nos blogues por onde passo nesta brincadeira dos livros.
    O que acho estranho? Não são os livros, nem as linguas em que são escritas, nem o acaso que é quase sempre um caso. O que estranho é como instrucções simples, transmitidas por escrito e com tão pouco tempo de vida já andam tão mal tratadas. Que me lembre, assim de cabeça, era livro ao acaso, pag. 161, 5º parágrafo completo. Fácil, não? Pois façam uma ronda pelos blogues da cadeia e respectivos comentários, que encontram de tudo – livro preferido, página 171, 5ª frase… etc etc etc.
    Tirando os improvisos assumidos, o que pergunto a mim mesma é como é que não se conseguindo interpretar e transmitir 3 regras tão simples se passa tanto tempo a comentar o que supostamente está escrito nas entrelinhas dos posts dos outros…

  14. teresa diz:

    …já não fui a tempo de dar a instrução que mudasse a instrucção em instrução…..

  15. teresa, é, e estive a verificar, ‘a quinta frase competa da pág 161’, e não o quinto parágrafo (àss vezes, é claro, podem ser a mm coisa).

    menino the studio: sempre gostava de saber quem são ‘os intelectuais’ (alguém que eu conheça, espero com esperança não desesperada) e sobretudo qual a base de incidência da sua observação. isto para não voltar a repetir o óbvio: se as pessoas costumam ler em inglês ou em francês, seja qual for o motivo, é normal que o livro que sai seja inglês ou francês. anormal seria o contrário. e, sobretudo, anormal seria que o menino the studio, que pela forma como escreve e pelas coisas que diz (e como faz questão de dizer) deve ter menos uns anitos que eu, não encontrasse uma idiotice deste género para dizer.

    é que havia tanto para dizer — por exemplo, que ninguém, de todos os exemplos que vi, tenha escolhido ao calhas um livro de poesia. voilá quelque chose d’interessant (e com um bocado de sorte, porque ando a ler mto mais em inglês q em francês, algo haverá de errado nesta frasezita em estrangeiro).

  16. teresa diz:

    citei de cor mas sim, é a 5º frase completa…. mas já reparaste o que por aí anda? 5º linha…. frases incompletas..páginas trocadas…. nada disto tem importância, é mesmo só uma gracinha, não cai o mundo por se falharem duas ou mesmo três regras, mas fico a pensar que há alguma incapacidade para ler, perceber e transmitir mesmo quando se trata de coisas tão simples como esta. Lê-se de esguelha e mesmo antes de se acabar e perceber já se está a pensar na resposta que se vai dar e como se vai contar o que foi dito.

  17. teresa diz:

    Portanto, poesia. Não é ao calhas. Não é a página 161. Não é uma qualquer 5ª frase. É Amalia Bautista e eu gosto.

    A VIDA RESPONSÁVEL

    Conduzir sem ter um acidente,
    comprar massas e desodorizantes
    e cortar as unhas às minhas filhas.
    Madrugar outra vez, ter cuidado
    e não dizer inconveniências, logo
    esmerar-me na prosa de umas folhas
    e estou-me nas tintas para elas,
    retocar de vermelho cada face.
    Lembrar-me da consulta do pediatra,
    responder ao correio, estender a roupa,
    declarar rendimentos, ler uns livros,
    fazer umas chamadas telefónicas.
    Bem gostaria de me dar ao luxo
    de ter o tempo todo que quizesse
    para fazer só coisas esquisitas,
    coisas desnecessárias, prescindíveis
    e, sobretudo, inúteis e patetas.
    Por exemplo, amar-te com loucura

    – Amalia Bautista

  18. nuno diz:

    Esta “por favor. só quem não saiba inglês ou francês lê originais dessas línguas em português”é do nível daquela de uma moça que escreve no Expesso e que dizia “por amor de deus, toda a gente pode ir ao teatro a londres.” Eu leio mais do que correntemente em inglês, francês e espanhol e se encontrar o livro traduzido prefiro. A maior parte das pessoas, entre as quais me incluo, não tem um domínio tão perfeito dessas línguas que não faça essa opção. É que a maioria das pessoas nem sequer é proficiente, e em casa há sempre uma ou duas pessoas que não o são. E é bom partilhar os livros.

  19. caro nuno, o ‘saber’ inglês e francês, neste caso, implica naturalmente o necessário domínio da língua para ler. comparar a preferência de ler originais na língua de origem com ir ao teatro a londres é de facto a primeira coisa que vem à cabeça. se prefere ler traduções (e que boas que são, na maioria dos casos, as traduções portuguesas) é consigo. não faça corresponder a vontade dos outros de ler originais com qualquer pretensão. se eu soubesse japonês ou russo, que infelizmente não sei, leria bashô e dostoyevzky e tolstoi no original. seria burra se o não fizesse, tanto mais que para ler originais nessas línguas não teria de ir aos respectivos países comprá-los — bastar-me-ia encomendá-los pela net, e provavelmente a preço de saldo. ou seja: tinha a vantagem de ler mais barato o livro tal qual foi escrito. o mesmo vale para o inglês e o francês, como é óbvio, ou para o grego — a carla sabe grego, lê em grego (para que serve saber uma língua se não fazemos disso uso nem nos esforçamos por aumentar o nosso conhecimento dela, usando-a?). aliás, tudo isto é tão óbvio e natural que não percebo o espanto e muito menos a insinuação. estamos todos sempre a aprender — e no meu caso, eu quero aprender mais. uma das maneiras que tenho de aprender é ler nas línguas que domino. fazê-lo é não uma forma de pretensão mas de humildade — a humildade que o esforço acarreta. o nuno acha que já sabe o suficiente, pelos vistos, e não está para se chatear. óptimo para si. mas um pouco pretencioso, não lhe parece?

  20. nuno diz:

    Cara Fernanda, é uma questão de tempo útil. Posso ler sem dificuldade de maior inglês, francês e espanhol. Infelizmente, pois não chego à proficência, faço muito mais esforço, demoro mais tempo e com tanta coisa que há aí para ler… E como eu muita gente. Ler no original só mesmo quando não acho a tradução portuguesa. Há aí tanto livro que nunca é traduzido.
    Um Aníbal Fernandes, um Daniel Gonçalves, um Alfredo Margarido ou um Jos
    é Bento merecem bem a leitura

  21. Gasel diz:

    Cá fico à espera do Tonecas…

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