Às voltas com Rousseau

Talvez por o meu francês e o meu inglês serem tão pobrezinhos (em matéria de línguas estrangeiras, estou um pouco como a célebre tia dispéptica de Fradique Mendes), sempre tive imensa admiração por gente como Conrad e Nabokov, que prosou magnificamente numa língua em que não foi criada.

Embora num domínio extra-literário (o da história das ideias sociais), eu acho que Isaiah Berlin (um autor que me parece tão estimulante quanto perverso) pertence por direito próprio ao mesmo grupo restrito dos falantes de línguas eslavas que se tornaram grandes cultores do inglês.

Na verdade, para além do facto nada despiciendo de ter estado, na altura certa, do lado “certo” da barricada política (i.e., do seu lado mais fácil), e de ter para com o establishment do seu país de acolhimento um deslumbramento um bocado parvenu (quem ler a biografia dele que Michael Ignatieff escreveu, que até é uma biografia simpática, percebe bem o que estou a dizer), eu creio que o êxito de Berlin se deve tanto ao seu talento vulgarizador como à beleza formal da sua escrita.

Já as razões do seu sucesso recente em Portugal são menos evidentes. Pessoalmente, creio que ele fica a dever-se sobretudo a razões algo fúteis, ao zelo do seu anti-comunismo e à sua non-British overbritishness (Perry Anderson, em “A Zone of Engagement”, publicou um texto cáustico sobre ela), que recordam evidentemente João Carlos Espada e outras notabilidades locais, embora de forma menos caricatural.

Esta recepção acrítica de Berlin teve como consequência principal que, entre nós, se publica agora Berlin muito mais do que se discute Berlin. A quem quer que negue, como Berlin o faz, a existência de um nexo necessário entre a liberdade individual e um regime democrático (a velha tese das “duas liberdades”, conhecida já de Benjamin Constant) seria de facto preciso responder – de um ponto de vista liberal radical – que não existem dois, mas um único conceito de liberdade: o que requer a eliminação dos obstáculos que se colocam à autonomia do indivíduo, para a realização dos seus objectivos de vida.

Alguém achou necessário publicar em português no século XXI as conferências que Berlin proferiu em 1952 na BBC3 sobre os “Seis Inimigos da Liberdade”, e que se situam entre a divulgação um pouco menos que erudita e a eloquência um pouco mais que necessária.

Ora sucede que entre esses seis inimigos, pontifica Rousseau, e se do Rousseau literário é impossível contestar a proeminência (se um livro há, um livro só que tenha mudado a trajectória da cultura ocidental, esse livro pode bem ser “Les confessions”, mais “Les rêveries du promeneur solitaire”, a primeira grande obra em que o “eu” se emancipa, conforme um historiador do romantismo como Berlin não pode ignorar), já do Rousseau ideológico, amigo da liberdade como da igualdade, se pode dizer que constitui uma vítima contumaz dos anti-lumières.

Aqui um parêntesis: o Rousseau teísta, o Rousseau da “religião civil”, sobrevive hoje muito mais nos E.U.A. do “in God we trust” do que na França laica e na sua contestada República (o último livro de Fernando Catroga aborda bem este ponto); mas não há que pedir coerência aos inimigos de Rousseau, porque tal como no passado se podia confrontar o Rousseau literário com o Rousseau ideológico (era uma constante da história literária francesa opor o “Émile” ou “La nouvelle Héloïse” ao “Contrat social” ou ao “Discours sur l’inégalité”, e era isso que compunha o famoso “problema de J. J. Rousseau”, que Cassirer se propôs resolver há 70 anos), também hoje se pode aceitar o Rousseau gnóstico (ou “de direita”, passe o anacronismo) e atacar o Rousseau pró-igualitário (ou o comunista avant la lettre).

Com efeito, diz Berlin na sua conferência que a célebre “vontade geral” de Rousseau seria uma teoria da alienação (no sentido em que implicava que elementos constitutivos de uma determinada comunidade política reconhecessem que terceiros sabiam quais eram os seus “verdadeiros” interesses melhor do que eles próprios o sabiam) e não, como se supunha, uma simples teoria da legitimação da lei (lei que equivalia à rejeição do arbítrio e que os cidadãos se outorgavam a si próprios, realizando assim a sua liberdade, que compreendia portanto a sua submissão voluntária à vontade geral da comunidade) e que, por isso, Rousseau seria o verdadeiro prefigurador dos despotismos jacobino e bolchevista.

Fair enough: é um facto que a “vontade geral” exprime um desejo de harmonia que anula o conflito existente na formação da vontade política (não reconhecendo, nomeadamente, o papel que desempenha nela o conflito de classes); mas Rousseau escreve no século XVIII, altura em que a única alternativa à sua (não realizada) ditadura da maioria era o (mais do que realizado) despotismo da ínfima minoria dos opressores e dos exploradores; será mesmo ele que merece o título de “one of the most sinister and most formidable enemies of liberty in the whole history of modern thought”, como quer Berlin? Ora, ora…

PS Só para os entusiastas, mais estes dois links.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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11 respostas a Às voltas com Rousseau

  1. ezequiel diz:

    Caro António

    Muito a dizer quando o tempo é escasso.

    Só isto, por enquanto.

    Existirá uma tensão irresolúvel entre o “liberalismo” de Émile e o conceito da vontade geral? Parece-me que sim.

  2. Al diz:

    Dizia eu, mas desapareceu o que tinha escrito, que Berlin já vivia em Inglaterra aos 12 anos aí tendo estudado. Tão diferente dos outros bálticos que a comparação falece de morte natural.
    De qualquer modo, era só para pedir que elucidasse os seus leitores, entre os quais me conto, para explicar em quê é, exactamente, Berlin um pensador perverso.

  3. Al diz:

    Dizia eu, mas desapareceu o que tinha escrito, que Berlin já vivia em Inglaterra aos 12 anos aí tendo estudado. Tão diferente dos outros bálticos que a comparação falece de morte natural.
    De qualquer modo, era só para pedir que elucidasse os seus leitores, entre os quais me conto, para explicar em quê é, exactamente, Berlin um pensador perverso.
    Ah, creio que a justificação – historicista – (“mas Rousseau escreve no século XVIII”) que quer dar ao Jean-Jacques em nada afecta a raiz da «coisa» e que é a do determinismo que subjaz. É ou não é determinista?

  4. Parece-me bizarra essa opinião de que Berlin “prosou magnificamente”. Tenho lido, aliás, que ele era bem mais interessante a falar do que a escrever. E a verdade é que muitos dos seus escritos revelam certos defeitos que são qualidade num discurso, designadamente a repetição ad nauseam dos mesmos argumentos e das mesmas expressões sem qualquer variação que os justifique ou torne mais interessantes ou compreensíveis. Um pobre escritor, na minha modesta opinião, e também um autor fraquinho no que toca à substância, um propagandista imaginativo que fez o seu tempo e não merece ser reeditado.

  5. Al diz:

    Desagradáveis estas duplicações de que peço desculpa. Fico a aguardar a explicação da perversão de Sir Isahia Berlin.

  6. Essa da perversao é linda, deve ser a liberdade negativa. O sacana era um capitalista… caramba, queria dizer egoista

    Parece me que o contrato social tem pouco do iluminismo britanico – e foi este que contaminou o continente – ou mesmo do iluminismo kantiano.

  7. Sérgio diz:

    Interessantíssimo, caro António.

    Que pensará aliás, João Carlos Espada, ilustre defensor desta tese de Berlin, do conflito entre uma putativa pátria da liberdade (negativa, claro está!) e uma manifestação muito particular de religião civil)?
    Será que vai mandar a malta ler outra vez o Tocqueville?

    Cumprimentos.

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caríssimos comentadores,
    O António Figueira pede-me para dizer que é vítima da modernidade na forma das empresas fornecedoras de internet. E só vai conseguir ter internet na segunda-feira, e isto, apenas se a Sonae (podia ser pior e ser a Netcabo) cumprir as promessas.

  9. Sérgio diz:

    Humm… Mas… o mercado não é sinónimo de eficiência?

  10. António Figueira diz:

    Caros todos,
    Obrigado pelos V. comentários, obrigado ao blog de hortênsias florido pelo simpático link http://acausafoimodificada.blogs.sapo.pt/10163.html e ao João Pinto e Castro pelo troco que lhe dá aqui http://blogoexisto.blogspot.com/2007/11/pela-paz-no-mundo.html e desculpem uma gralhita que escapou à minha revisão do texto, na sexta-feira passada, de que só agora me dei conta e que não vou dizer qual foi (aceitam-se palpites).
    Ainda não tenho net em casa (parece que só na quarta-feira), mas antes disso queria só dizer:
    – ao Ezequiel, que a observação dele parece pertinente mas não é, por razões que logo que tenha tempo tentarei explicar;
    – ao Al, tenho a dizer que sim, que Berlim chegou a Inglaterra aos 12 anos, enquanto Conrad e Nabokov chegaram por volta dos 20, mas que isso não impede que a sua língua materna não fosse o inglês, que o tenha aprendido numa altura relativamente tardia e que tenha feito depois um uso literário da língua – porque é que a comparação então “falece de morte natural”, para utilizar a sua pitoresca expressão? (Além disso, Nabokov conta nas suas memórias que aprendeu inglês em criança, muito mais que Berlin.) E já agora, “outros bálticos” porquê? Nabokov era russo e grão-russo, Conrad era polaco numa altura em que a Polónia não tinha costa e Berlin, muito embora nascido em Riga, era judeu e russo, por esta ordem, agora letão é que não era de certeza. Quanto ao putativo “determinismo” (meu ou de JJRousseau?), confesso que não percebo a pergunta; e quanto à perversidade de Berlin, muito esquematicamente, a minha posição é esta: como não encontro em nada que Berlin tenha escrito o desmentido de que o seu “value pluralism” é na realidade uma forma de relativismo, eu julgo que ele põe em causa o princípio que para mim é particularmente caro de que há valores universalmente válidos e que se aplicam a todos os Homens por igual – até porque todos os Homens são iguais – e, pelo contrário, legitima o princípio oposto, que alguém resumiu divertidamente na fórmula “liberalismo para os liberais e canibalismo para os canibais”;
    – Ao João Pinto e Castro: eu nunca ouvi Isaiah Berlin, confesso, mas já li algum, confesso também, e aprecio-lhe as qualidades literárias;
    – ao Sérgio: o Dr. Espada não pensa nada, evidentemente.
    Abraços para todos, AF

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