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Vasco M. Barreto: Por quem os sinos se tocam

22 Outubro 2007 | por Fernanda Câncio

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Texto de Vasco M. Barreto

A discussão suscitada pelas recentes declarações de James Watson tem sido má.

A ideia de que uma hipotética demonstração científica da inferioridade intelectual dos negros não teria qualquer implicação moral - e política - é um desejo e não uma previsão, caso contrário o Henrique Raposo (HR) está a revelar uma candura própria de imberbe bloquista a cursar Antroplogia. É verdade que as afirmações de Watson foram também suficientes para arrancar do Pedro Mexia (PM) um parágrafo à Boaventura dos Santos - a amálgama de fenómenos paranormais, “aquecimento global” e ufologia -, mas é prematuro concluir que James Watson desencadeou por aí uma virulenta epidemia de esquerdismo. Sejamos claros: a posição de princípio de HR esvazia a jusante o debate sobre as bases genéticas da inteligência. Infelizmente, seria preciso concordar com ele - eu concordo, em tese - e há quem discorde o suficiente para instrumentalizar a montante os elementos em discussão.

Um ponto prévio: a igualdade de direitos e deveres que HR refere não existe em parte alguma, porque a família é a unidade social irredutível, acumulando ou perdendo poder ao longo das gerações, o que na prática faz com que os direitos efectivos e - menos - os deveres variem em função do berço. A direita meritocrática sempre esquece o pequeno pormenor de que nascer Espírito Santo é diferente de nascer filho do Silva, canalizador no fundo de desemprego. Há solução ideal para isto? Não. E como a implosão da estrutura familiar é uma ideia peregrina, a única forma de tornar os “direitos e deveres” efectivos tendencialmente mais homogéneos é fazer com que sejam distintos no papel. Não há aqui qualquer paradoxo, andamos é todos enganados desde a revolução francesa.

Esta solução de compromisso, ou seja, uma política de esquerda, complicar-se-ia muito se passássemos do determinismo do berço ao determinismo da genética, em particular se a um berço rico estiver associado um bom pedigree (bons genes) e a um mau berço um pedigree de qualidade inferior. Sem discutir os seus méritos e deméritos, como justificar os direitos universais e diferenciados em que as políticas de esquerda assentam - da saúde e educação tendencialmente gratuitas à affirmative action, passando pelos impostos progressivos e o abono de família - perante uma prova irrefutável de que o potencial das classes desfavorecidas ou de um grupo étnico é intrinsecamente menor (pela biologia), quando o interlocutor acena com os valores da meritocracia e, sobretudo, da lógica de boa gestão de dinheiros públicos? Este interlocutor existe e não será a prosa do HR ou do DM que o irá demover. É para este braço-de-ferro que os dados sobre inteligência e genética têm importância. Estamos muito longe do século XIX e do esclavagismo que Lincoln combateu - o exemplo de HR. Como estamos longe dos considerandos académicos de Desidério Murcho (DM), a que voltarei.

O livro que mais agitou estas águas nos últimos anos foi o The Bell Curve (1994) - aqui resumido. Não se trata de um trabalho de investigação original, apenas de uma reapreciação estatística de dados já conhecidos. O livro prolonga uma linha de investigação iniciada por Arthur Jensen - entrevistado neste livro, que recomendo - e teve várias respostas - o The Bell Curve Wars é um bom exemplo. Citando do The Bell Curve:os Estados Unidos têm já [1994] políticas que, de uma forma inadvertida, fazem engenharia social sobre a procriação, mas andam a escolher as mulheres erradas. Se se incentivasse mulheres com Q.I, elevado a procriar como se faz para as mulheres de Q.I. baixo, tais políticas seriam apropriadamente descritas como uma manipulação descarada da fertilidade (tradução minha). Esta prosa não deve soar estranha a quem andou pela blogosfera por altura da polémica sobre o abono de família em Portugal, pelo que esta conversa não é apenas relevante para os EUA e o momento ainda é oportuno. O livro pretende provar que a inteligência pode ser medida pelo Q.I, sendo este parâmetro:1) o melhor para se prever o sucesso; 2) 40 a 80% geneticamente determinado; 3) dificilmente alterável por medidas sociais. Reitera os dados de Jensen e de vários outros cientistas de que os grupos étnicos têm diferentes valores médios de Q.I. e pretende mostrar que nos EUA uma elite económica e cognitiva com Q.I médio elevado e um grupo economicamente desfavorecido e com Q.I médio baixo estão já segregados, sem grandes esperanças de que se voltem a fundir.

A imagem que ilustra o texto (fonte) mostra a distribuição dos valores de Q.I. em negros, hispânicos, brancos e asiáticos dos EUA, assim ordenados por ordem crescente de valor médio de Q.I - os judeus Ashkenasi têm um Q.I médio ainda mais alto do que os asiáticos, by the way. Apesar de haver exemplos de fraude nesta área de estudo, estes resultados não sofrem grande contestação. Diminuir o valor do Q.I. como um parâmetro que não capta aspectos essenciais - a criatividade, por exemplo - e alinhar em teorias alternativas de inteligências múltiplas também me parece um exercício forçado. A verdadeira polémica está no contributo relativo da genética e do meio, sendo uma minoria a que exclui totalmente a influência desta ou daquele. Um problema clássico, como se sabe, que se eterniza por ser suficientemente complexo para alimentar escolas com ideias distintas sobre a questão. Não tenho competência para rever esta pilha de bibliografia, é uma autêntica guerra à base de arsenal da estatística. Volto pois à imagenzinha.

É muito pouco provável que novas metodologias produzam resultados que aumentem as diferença entre o Q.I médio das populações– a acontecer algo, será o contrário. Cada distribuição é do tipo normal e em forma de sino, isto é os indivíduos distribuem-se de forma simétrica em torno do valor médio, havendo cada vez menos indivíduos à medida que se caminha para os extremos. Ora, o que vemos é uma grande dispersão em torno da média e uma enorme área de sobreposição entre os diferentes grupos. E sendo assim, como DM escreve, é não só formalmente incorrecto como injusto extrapolar o Q.I do indivíduo a partir do valor médio da sua população. O problema é que estes dados não são suficientemente taxativos para acabar com os estereótipos raciais. Para uns, são a sua confirmação. Para outros, o contrário. Estamos no domínio da interpretação. Gente com preconceitos raciais e sem rudimentos de estatística escolhe a primeira, os outros escolhem a segunda. Graças a Deus - ou à especiação, it’s your choice - as sinos tocam-se. Não há razões para temer que a caixa de Pandora se abra com a continuação destes estudos, sobretudo se a literacia científica for aumentando. Mas este relativo conforto assenta exclusivamente nestes dados empíricos e estou em total desacordo com DM e a sua especulação sobre um mundo em que a mais burra das mulheres fosse mais inteligente que o mais esperto dos homens, ou seja, um mundo em que os sinos não se tocam. A escolha dos papéis nos exemplos de DM não é inocente, mas trata-se de um truque de retórica. Já as conclusões que tira sobre este hipotético mundo são de uma inocência que me surpreende. DM diz que seria um “salto lógico idiota” assumir que as mulheres devem poder oprimir os homens à vontade. Seria. Mas a ideia de protecção dos mais fortes aos mais fracos, essa espécie de caridade de género ou racial rings a bell. Se os homens no exemplo de DM passassem a gozar de mecanismos de protecção legal como os que hoje temos para as crianças, será que funcionaria? Aqueles homens podem ser estúpidos, mas por uma simples questão de orgulho tal solução nunca seria estável - há, de resto, inúmeros exemplos em que o paternalismo dos mais fortes deu mau resultado, como as reservas dos índios americanos. Bem mais “corrosiva” do que a filosofia é a natureza humana, DM.

Quando a liberdade de expressão não existe, os seus mártires tendem a ser pessoas corajosas e brilhantes; quando existe, são oportunistas não especialmente interessantes. Não deixa de haver uma ironia muito pouco subtil nisto. O João Miranda (JM) que fique com Watson - e ele ficará com o exemplo de Watson, mesmo depois do pedido de desculpas da criatura, porque serve a sua agenda e aposto que JM já interpretou as desculpas como mais uma prova das pressões sobre o cientista. Don’t silence the scientist, reproduz-se por . Enfim, mártir por mártir, prefiro Giordanni Bruno - mas deve ser por causa da minha piromania. Que Watson seja o novo paladino da liberdade de expressão só pode dar vontade de rir. Não sei até que ponto as pessoas fora da ciência têm presente a reputação da criatura entre os cientistas, mas poucos o suportam. Os seus comentários são em regra simplesmente boçais – lamento, mas Watson não é o bonequinho do ventríloco que, liberto pelo Nobel e pela idade, diz aquilo que vai na mente dos cientistas mas que ninguém tem coragem de revelar com medo de perder a tenure. Watson é um eugenista assumido – enfim, só César das Neves não será um eugenista assumido, mas no caso de Watson ele dá à mãe o direito de abortar se um dia houver uma forma de testar a orientação sexual do embrião e o resultado for “homossexual”. É também um misógino. E – o que de certa forma é ainda mais preocupante - um inimigo de chimpanzés, gorilas e orangotangos, pois defende que a eliminação das espécies que nos são próximas fará diminuir o risco de novas epidemias, como a sida (nunca vi isto escrito, foi-me comunicado por um colega). Watson anda há anos a dizer estas coisas e nunca ninguém o calou, antes pelo contrário; a sua vida é dar conferências, entrevistas, escrever livros - vem inclusive à minha universidade daqui a uns dias, receber um prémio de divulgação de ciência. A verdade é que anda a fazer má divulgação de ciência e se dependesse de mim viria falar aqui se ainda quisesse, sim, mas sem receber o prémio - vejam bem o meu grau de correcção politica. As suas últimas declarações – mas alguém leu o que ele disse? - foram desastrosas, porque Watson expressou uma opinião que, não sendo o resultado do seu trabalho como cientista, vem inevitavelmente com o cunho de expert, por ele ser um geneticista molecular célebre e nobelizado - um prémio merecido, note-se, apesar de outras polémicas. Com tais afirmações, cristalizou ainda mais preconceitos raciais que não estão provados pela ciência.

Os paladinos da liberdade não resistem ao charme dos energúmenos e logo surgem os que contextualizam a coisa e relembram que tudo deve ser discutido, tudo deve ser investigado. Discutir é o que se tem feito, não percebo a ressalva. Quanto a investigar, convém rebater a ideia de que somos livres em ciência de investigar o que nos apetece. Certas ciências - a biomedicina, a física experimental, até as ciências humanas - são onerosas e necessitam de entidades que financiem os projectos em função de uma série de parâmetros, que incluem a relevância do tema. Quem determina a relevância? Comissões de ética, os colegas, os políticos, o air du temps, o impacto social. Alguém que queira trabalhar sobre o cancro tem mais hipóteses de financiamento do que um excêntrico interessado na evolução do padrão das asas das borboletas. Só uma ciência feita nas caves dos palácios por aristocratas prósperos e ociosos estaria livre destes entraves. Eu, que prefiro a ciência dos excêntricos das borboletas e que entendo que a revolução da biologia molecular- seguramente o que de mais importante aconteceu na ciência desde os grandes anos da Física - foi essencialmente feita por duas dezenas de excêntricos obcecados com moscas, bactérias, vírus e vermes microscópicos, defendo ainda assim o financiamento vigente - as críticas que lhe faço são outras. Mas o exemplo mostra que a comunidade científica não é livre no sentido em que os tais aristocratas seriam. E a dependência de financiamento torna os cientistas vulneráveis a pressões e interesses, sobretudo quanto maior for o impacto social e económico do que se investiga. Convém também lembrar que a comunidade cientifica é conservadora, violentamente conservadora, reaccionária até, não no sentido político do termo, mas na forma como resiste a ideias novas. Desconfiar é a sua grande virtude e isso em parte explica as reacções violentas que a muitos, de fora, surpreendem, nomeadamente quando certas afirmações circulam na fina fronteira entre a academia e os media, num slalom que finta cientistas e jornalistas.

Há pois razões para reagir à retórica relativista de que tudo deve ser investigado, em nome da liberdade. Os ovnis, os fenómenos paranormais, o Intelligent Design, a cartomância. Refiro-me aos dinheiros públicos, obviamente. Trágico o dia em que o Intelligent Design entre nas escolas ou a Fundação para Ciência e Tecnologia financie investigações sobre fenómenos paranormais. Já nos basta como sinal de tolerância que se deixe construir um museu de criacionismo em Portugal, que a maior empresa (privada) de biomedicina canalize dinheiro para o paranormal, que exista um clube dos maluquinhos dos ovnis…

No caso concreto da inteligência e da genética, é algo irónico falar de censura – raios, o The Bell Curve deve ser o livro de sociologia mais vendido nos EUA desde os Kinsey Reports, o seu co-autor ainda vivo continua a publicar best sellers, Arthur Jensen ganhou o Kistler Prize, tendo publicado a vida toda em revistas académicas e na imprensa, o relatório da Board of Scientific Affairs of the American Psychological Association(pdf) continua online e o trabalho da task force rival saiu no Wall Street Journal.

Obviamente, convém à esquerda que persista a dúvida sobre o peso dos genes, já menos por medo de se descobrir uma verdade inconfessável do que receio de instrumentalização de uma diferença pouco significativa. A outros, convém explorar estas diferenças que não nos segregam como indivíduos mas que podem influenciar as políticas sociais. São várias as instituições que financiam e publicam esse trabalho de investigação. Dir-me-ão que os primeiros são uns obscurantistas e que o que move os segundos é o amor à verdade. Eu diria apenas que temos dois lobbies a funcionar.

A única promessa de liberdade que vejo nesta história não está na retórica dos intervenientes, antes no simples facto de que os sinos se tocam. Por nós. Ding dong.

Comentários

Comentário de Filipe Moura
Data: 22 Outubro 2007, 19:01

Vasco, também a mim me apetecia escrever algo sobre este assunto, mas ando mais entusiasmado com o Kimi Raikkonen. Parabéns pelo texto, e principalmente pela parte em que abordas a liberdade de investigação, que tem sido discutida por tipos que não fazem ideia do que é ciência. De qualquer maneira não me parece descabido misturar isto com o aquecimento global, vê lá tu. Há argumentos semelhantes.
Há links - o do texto do Pedro Mexia, por exemplo - que não funcionam. A malta manda-lhes o texto com os links todos prontos, o html impecável, mas esta gente aqui só usa software alternativo e macs - sobretudo os macs… (suspiro)

Comentário de Luís Marvão
Data: 23 Outubro 2007, 17:44

É interessante a parte “do geneticamente determinado” porque ela demonstra que, mesmo no universo dos Q.I(s), a latitude de variação é muita, de 40 a 80%… Podemos assim dizer que há margem para os que advogam a importância ou o contributo das causas do meio na explicação de um determinado QI, ou de uma dada distribuição estatística destes (desagregada por classe social, grupo étnico ou racial, com toda a ambiguidade que tais categorias encerram sempre).
Evidentemente que, fazendo apelo a um exemplo extremado, uma teoria que comprove haver uma positiva relação entre riqueza e inteligência, sendo esta última apenas geneticamente determinada, seria dramática para a esquerda. A esquerda acredita acima de tudo na possibilidade de virem a ser corrigidas as desigualdades de partida. As suas políticas visam reduzir as assimetrias sociais, as desigualdades que têm a sua raiz numa miríade de factores, que não o mérito individual ou a inteligência (assumindo que está é geneticamente determinada, coisa que não está por ora cientificamente provado). Em suma, a produção de ciência até pode ser neutra (porque dentro de regras de verificação inerentes ao campo científico), mas suas consequências não. A comprovar-se a tese de Watson, a “acção afirmativa”, com a afectação de fundos públicos e a imposição de um sistema de quotas no mercado de trabalho, poderia ser posta em causa. Ou pelo menos, veria a sua legitimidade mais enfraquecida. Já o mesmo poderia não suceder com as políticas. sociais mais genéricas, de redistribuição, se assentes no primado da dignidade humana.
Este texto é assaz pedagógico, porque nos vem lembrar que estamos a falar de distribuições estatísticas. E basta, como aliás é referido, olhar para o grau de dispersão destas curvas normais para perceber como é redutor explicar as diferenças de aptidões/inteligência entre os indivíduos com base unicamente em critérios de natureza étnica ou racial. Se tal se vier um dia a verificar, poderíamos entrar num novo mundo de submissão e opressão

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 23 Outubro 2007, 18:18

Vasco, este teu texto merece ser lido com olhos de pensar, de qualquer modo relembro os eventuais leitores que Inteligência e Quociente de Inteligência (QI) não são a mesma coisa. Em boa verdade o QI é o quociente entre a idade mental e a idade cronológica, obtida (a idade mental) por meio de testes cognitivas vários, em comparação com a medida média do grupo etário do sujeito.

Já agora, só um apontamento histórico. Não deixa de ser curioso que o “New methods for the diagnosis of the intellectual level of subnormals”, o histórico artigo de Binet nestas lides do QI, tenha resultado de um trabalho em crianças com dificuldades de aprendizagem.

Comentário de lobotomias
Data: 23 Outubro 2007, 19:47

Ana
Não acho nada curioso, pelo contrario, só nas questões que dizem respeito a patologia é que qualquer teste de inteligencia pode ter alguma utilidade, porque só nestas questões é que pode ser avaliada a especificidade e a sensibilidade dos testes. Utilizar estes testes, como durante toda esta discussão, para fazer analise social é simplesmente estupido (desculpem a expressão), se não vejamos contra que Gold standard é que valores a partir dos 80 podem ser avaliados? como podem ter especificidade ou sendsibilidade? não vejo nenhum gold standard possivel.
Mas já que estamos nesta discusssão parva gostava de saber onde ?em que curvazinha é que gostavam de meter a identidade social ou “grupo etnico” os portugueses ou sei lá os ibericos ou lá o “grupo étnico” com que alguns quererão identificar-nos?
Entre a Africa e a Europa ficariamos atrás ou à frente dos ditos “hispanicos”?
É que como todos os europeus que têm empregados portugueses sabem…..

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 23 Outubro 2007, 20:56

Atão, Lobotomias, tás “preto”*? Claro que o curioso tinha H2O no bico.

*Ass: ana “watson”

Comentário de lobotomias
Data: 23 Outubro 2007, 21:39

Desculpa Ana acho que as minhas ascendências norte-africanas estão a dar cabo de mim.

Comentário de lobotomias
Data: 24 Outubro 2007, 0:14

desculpa ana
acho que as minhas ascendencias norte-africanas me estão a dar cabo do juizo.
Será a segunda vez que posto isto?
Já nem sei…

Comentário de The Studio
Data: 24 Outubro 2007, 15:44

Trata-se de um grande texto do Vasco, assinado por baixo, de cruz, pelo Filipe Moura. O texto não é exactamente de fácil leitura pois não tem verdadeiramente uma linha de raciocínio e é excessivamente fragmentado e salteado de frases Ezequielianas (em que para mostrar o seu talento na língua Lusa, o autor acaba por escrever coisas sem sentido).

No entanto, o texto tem algum interesse e merece alguns comentários. O primeiro prende-se logo com a primeira frase em que critica Henrique Raposo:

“A ideia de que uma hipotética demonstração científica da inferioridade intelectual dos negros não teria qualquer implicação moral - e política - é um desejo e não uma previsão, caso contrário o Henrique Raposo”

Apesar de se tratar da primeira frase de um longo texto, este é logo o cerne da questão, e deixa A pergunta à qual o Vasco não respondeu (afinal de que vale escrever um texto tão longo se não responde ao que deveria responder?). E a pergunta é:

Assumindo que existe uma hipotética demonstração científica da inferioridade intelectual dos negros com implicações morais e políticas (como o Vasco afirma de forma categórica), que fazer? Permitir que essa demonstação seja efectuada com as nefastas consequências subsequentes, ou silenciar pura e simplesmente os cientistas?

O texto prossegue então a sua caminhada provando ao Henrique Raposo e ao Desidério Murcho que esta hipotética demonstração teria importantes consequências políticas. O Vasco segue por esta linha até ao ponto em que fala na liberdade de investigação, e aí passa a dizer o contrário do que disse até então: Toda a gente tem liberdade para investigar, mas apenas deve ser investigado o que tem consequências importantes, e portanto este assunto, tal como ovnis e fenómenos paranormais não deve ser investigado.

De permeio, o Vasco mostra ainda que as suas aptidões para a estatística estão muito longe das suas aptidões para insultar os outros. Termos como “energúmeno”, “criatura”, “preconceituosos”, “iletrados” e “sem rudimentos” saiem facilmente da sua pena (ou do seu teclado). Mas os seus erros na análise estatística que faz, envergonhariam qualquer caloiro.

Uma população é uma coisa distinta de um indivíduo. Uma população que obedece a uma distribuição normal caracteriza-se por um valor médio (neste caso de QI) e um desvio padrão (dispersão). Um indivíduo, caraceriza-se pelo seu QI. As populações comparam-se com populações e os indivíduos com indivíduos. Neste caso, a população que podemos designar por “negros” apresenta um parâmetro “QI médio” distinto da população que podemos designar por “brancos” e que podem ser comparados. Não há aqui nada para “interpretar”. É tão ridículo como medir o QI de dois indivíduos cujos valores sejam por exemplo 80 e 100 e em seguida afirmar: Agora vamos interpretar.

Comentário de The Studio
Data: 24 Outubro 2007, 15:49

Ana Matos Pires:

A relação entre inteligência e QI encontra-se discutida em todos os artigos. O que a leva a concluir que quem realizou os estudos não tinha conhecimento das diferenças entre “QI” e “inteligência”?

Luis Marvão:

O que acontece na realidade é exactamente o oposto do que afirma. O facto destas funções de distibuição serem “tão normais” mostra que as diferenças se devem sobretudo a um único factor. O que aliás não surpreende, dado que os estudos foram realizados por forma a minimizar os impactos de outros factores.

Comentário de Vasco
Data: 24 Outubro 2007, 20:59

(comentário editado, a corrigir uma primeira resposta pouco elegante)

Olá a todos e desculpem a demora,

Filipe: sim, a polémica sobre o aquecimento global tem pontos de contacto, nomeadamente na lógica dos lobbies.

Luís: a grande questão é saber se a incerteza quanto à % de contributo genético e a sobreposição parcial das curvas são suficientes para cortar os impulsos segregacionistas.

Ana: obrigado pelo esclarecimento. Falei sobre isso en passant mas trata-se de uma outra polémica, que no caso presente poderia ser entendida como uma forma de negacionismo. Pareceu-me que seria mais persuasivo argumentar partindo do princípio que o Q.I. estima a inteligência.

Lobotomias: está a chamar “estúpido” a muita gente.

The Studio: tem razão quanto à natureza fragmentada do texto. Aliás, quando o escrevi, tinha separado a parte sobre a “liberdade de investigação” do resto. É, como reconheceu logo, um assunto distinto. Mas não há qualquer contradição, sugiro-lhe que releia o que eu escrevi.

Quanto aos conhecimentos de estatística, como o meu amigo não identifica os meus erros – tal como não identificou antes as frases sem sentido -, é complicado rebater o que diz. Mas, se reparar, o seu remate é justamente um dos argumentos do texto – também o de Desidério Murcho. Não podemos extrapolar da população para o indivíduo. As minhas desculpas se não me expliquei bem. Em todo o caso, não fica nada bem acusar alguém de uma análise de dados estatísticos que envergonharia qualquer caloiro e depois afirmar que as distribuições são normais porque se devem sobretudo a um único factor. Se me permite:

“The importance of the normal distribution as a model of quantitative phenomena in the natural and behavioral sciences is due to the central limit theorem. Many psychological measurements and physical phenomena (like noise) can be approximated well by the normal distribution. While the mechanisms underlying these phenomena are often unknown, the use of the normal model can be theoretically justified by assuming that many small, independent effects are additively contributing to each observation.”
http://en.wikipedia.org/wiki/Normal_distribution

O amigo confundiu certamente “normalização de dados” com “distribuição normal”.

Obrigado pelo seu contributo e volte sempre,

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 25 Outubro 2007, 1:42

The Studio, que artigos? Quais estudos?

Vasco, percebo o que dizes, mas acarreta limitações na interpretação dos resultados.

Comentário de lobotomias
Data: 25 Outubro 2007, 2:05

Caro vasco
Um dos perigos da blogosfera (e não só também na ciência)é a analise pseudo-cientifica com um endeusamento de conceitos pseudo-cientificos, sem qualquer reflexão sobre a sua origem ou a sua possível validade.
Chamarei estúpidas (ou perversas) a muitas discussões enquanto forem utilizados constructos construídos e validados para a psicopatologia para fazer analise social (ou usando instrumentos de análise social para os validar- pervertendo-os).
Será que as pessoas inteligentes podem ter discussões estúpidas, no entendimento que eu tenho do conceito de inteligência sim, na do Vasco pelos vistos não. será lá consigo.
Sem querer chama-lo estúpido, curvo-me alias perante a sua inteligência, deixo aqui os “gold standards” (ironia porque não me parece que possam ser chamados isso) de validação de QI segundo a Wikipedia
scholarly work on IQ focuses to a large extent on IQ’s validity, that is, the degree to which IQ correlates with outcomes such as job performance, social pathologies, or academic achievement.
Estas variáveis para além de não serem simples de medir, estão longe de estar em relação directa com o conceito abstracto de inteligência que nós facilmente endeusamos e nos esquecemos de questionar. Estão além de tudo social, cultural e economicamente “embedded”. Assim quando falamos de inteligencia a partir testes de inteligencia estamos apenas a falar de “job performance, social pathologies, or academic achievement” nada mais que isso, porque o constructo em si é fraco o suficiente para não termos conseguido desenvolver nenhum gold standard válido.
O mais parvo não me parece sequer isso, mas para além disso- se a validade é estudada em relação com todas estas variáveis, não seria um non sense pedir que grupos sociais com (imagino) piores resultados nestas variáveis tivessem bons resultados nos testes que “as medem”. (se são validados através da relação com estas variáveis é como se as medissem- vão sendo construídos de forma a se correlacionarem fortemente com elas).
Se quizessemos medir a inteligencia enquanto “sinal” biológico teriamos ao contrario que “corrigir” os testes para as variações culturais, sociais e económicas (como fazemos aliás nas validações de testes em psicopatologia).
Por isso Vasco é que toda esta discussão me parece estúpida, não o Vasco(apenas mal informado) porque acredito que já deve ter compreendido o meu ponto de vista agora…
há uma certa arrogancia no meu post que tentei evitar sem sucesso(até porque não sou nenhum perito em estatistica) mas este assunto irrita-me um bocado, devo confessar….

Comentário de lobotomias
Data: 25 Outubro 2007, 2:17

AhOk só agora é que percebi- bolas estou cada vez mais perto de Africa:
lobotomias
“Mas já que estamos nesta discusssão parva gostava de saber onde ?em que curvazinha é que gostavam de meter a identidade social ou “grupo etnico” os portugueses ou sei lá os ibericos ou lá o “grupo étnico” com que alguns quererão identificar-nos?
Entre a Africa e a Europa ficariamos atrás ou à frente dos ditos “hispanicos”?É que como todos os europeus que têm empregados portugueses sabem…..”

Vasco
“Lobotomias: está a chamar “estúpido” a muita gente.”

Mas… Eh pá… os portugueses… não somos assim tantos….

Comentário de Vasco
Data: 25 Outubro 2007, 13:38

LOBOTOMIAS: eu não escrevi que me tinha tratado por “estúpido”, apenas que o tinha feito para muita gente (não estudo estas coisas). O Lobotomias só diz que estou mal informado, o que é muito mais simpático. Em todo o caso, apesar da sua irritação, não vale a pena azedar a discussão, até porque não estamos assim tão em desacordo. Aliás, se tivesse lido o texto sem ter a priori ideias muito próprias sobre o assunto, veria que é assim. Faz duas objecções como se não estivessem no texto: (1) que o Q.I. não mede aquilo que entendemos por inteligência; (2) que há inúmeros factores sociais que influenciam o Q.I. Curiosamente, refiro-me a ambas:

1. Chuto para canto a discussão sobre o significado do Q.I. para simplificar – o texto procura contextualizar a forma como se instrumentaliza este tipo de dados, nada mais, e pareceu-me mais interessante discutir o problema assumindo que o Q.I mede realmente um aspecto importante da inteligência, que é o que muita gente pensa (incluo-me no grupo), por oposição à sua visão mais confortável – mas também arrogante e, se me permite, irresponsável - de que não é assim e, consequentemene, discutir estas coisas é uma estupidez. Não quero com isto dizer que não esteja a par da teoria das inteligências múltiplas (mencionada no post), de que o Q.I não mede características importantes, como a criatividade (mencionada no post) e que, por vezes, o que se está a medir é a capacidade de fazer testes, isto é, o saber funcionar sob pressão, a capacidade de concentração, etc (isto não vem mencionado no post).

2. Quando escrevo que 40-80% da variabilidade do Q.I é explicada pela genética, de onde pensa que vem esta estimativa? De estudos concebidos para avaliar a contribuição dos factores sociais, justamente (estudos com gémeos homozigóticos que cresceram em ambientes distintos, por exemplo). O seu parágrafo sobre a influência do meio nada acrescenta ao que já estava no post.

Comentário de lobotomias
Data: 25 Outubro 2007, 18:25

Sem querer eternizar a discussão
“pareceu-me mais interessante discutir o problema assumindo que o Q.I mede realmente um aspecto importante da inteligência, que é o que muita gente pensa (incluo-me no grupo), por oposição à sua visão mais confortável – mas também arrogante e, se me permite, irresponsável - de que não é assim e, consequentemente, discutir estas coisas é uma estupidez”
Como já expliquei o QI não mede qualquer “inteligência biológica” mas apenas resultados sociais. Se quiser fazer exactamente a mesma discussão mas retirando a palavra QI e inteligência e substitui-las por resultados sociais estarei se calhar de acordo consigo em alguns pontos. A questão é que fazer esta discussão utilizando os termos que utilizou apenas porque assume e pensa intuitivamente de determinada maneira não me parece correcto. Cristaliza os conceitos e as suas relações como se fossem científicos quando na realidade são apenas intuitivos para alguns como o Vasco e o jensen.
Já agora, não quero ficar sozinho e fui à procura de amizades arrogantes e irresponsáveis na net, e numa pesquisa rápida até encontrei uma presidente da APA (parece boa companhia):
Anastasi, A. (1961). Psychological Testing, The Macmillan Company, New York.
(President of the APA Division 1, General Psychology (1956-1957)
President of the APA Division 5, Evaluation, Measurement and Statistics (1965-1966)
President of the American Psychological Foundation (1965-1967)
Third female president of the American Psychological Association (1972) )

McClelland, D. (1974). “Testing for Competence Rather Than for ‘Intelligence,’” in Gartner, Greer and Riessman, eds., The New Assault on Equality, Perennial Library, New York.

e acabei por encontrar algumas das coisas que disse aqui:
http://www.comnet.ca/~pballan/ReliabilityandValidityofIQ(Lawler,1978).htm

Talvez sejam mais responsáveis (do ponto de vista cientifico e ético) e tenham um bocadinho mais de credibilidade do que gente (como jensen que o vasco parece admirar) financiada por fundos ( the Pioneer Fund) criado por pessoas como Drapper “(who) wished to prove simply that Negroes were inferior.” ou como Harry Laughlin ( the director of the Eugenics Record Office).

Quando os argumentos científicos não são compreendidos é preciso recorrer aos argumentos de autoridade cientifica e Ética (pena que tenha de ser assim).

Comentário de Vasco BArreto
Data: 25 Outubro 2007, 22:15

Não vou entrar numa batalha de citações, mas peço-lhe que não queira passar por consensual na comunidade científica a ideia de que o Q.I. não é fortemente influenciado (de novo, 40-80%) pelos genes. Sobram (20-60%) para o meio, o debate será eterno.

Todos esses estudos que cita têm interesse, mas recomendo-lhe o pdf que cito no texto (do Board of Scientific Affairs of the American Psychological Association). Aliás, eu acho que o LOBOTOMIAS não leu o post nem leu a minha resposta e não estamos propriamente a discutir.

Quanto às pessoas que pareço admirar ou não, por acaso admiro mais o Jay Gould do que o Jensen e ambos estiveram envolvidos numa acesa polémica, não sei se se recorda. As posições do Gold (conhecidas do The Mismeasure of Man, que também recomendo) estão sumarizadas no livro The Bell Curve Wars. Também recomendei o livro do Jensen porque está bem escrito e o Jensen é a cientista que tem a reputação mais sólida entre os que defendem o primado da genética sobre o meio na construção da inteligência. Mas para ser ainda mais claro, mencionei aqueles dois livros porque são os únicos livros que aprofundam esta matéria que li com atenção. O resto aprendi de outras fontes secundárias sobre o The Bell Curve e de outros artigos sobre inteligênca. Não é a minha área.

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