Vasco M. Barreto: Por quem os sinos se tocam
22 Outubro 2007 | por Fernanda Câncio
Texto de Vasco M. Barreto
A discussão suscitada pelas recentes declarações de James Watson tem sido má.
A ideia de que uma hipotética demonstração científica da inferioridade intelectual dos negros não teria qualquer implicação moral - e política - é um desejo e não uma previsão, caso contrário o Henrique Raposo (HR) está a revelar uma candura própria de imberbe bloquista a cursar Antroplogia. É verdade que as afirmações de Watson foram também suficientes para arrancar do Pedro Mexia (PM) um parágrafo à Boaventura dos Santos - a amálgama de fenómenos paranormais, “aquecimento global” e ufologia -, mas é prematuro concluir que James Watson desencadeou por aí uma virulenta epidemia de esquerdismo. Sejamos claros: a posição de princípio de HR esvazia a jusante o debate sobre as bases genéticas da inteligência. Infelizmente, seria preciso concordar com ele - eu concordo, em tese - e há quem discorde o suficiente para instrumentalizar a montante os elementos em discussão.
Um ponto prévio: a igualdade de direitos e deveres que HR refere não existe em parte alguma, porque a família é a unidade social irredutível, acumulando ou perdendo poder ao longo das gerações, o que na prática faz com que os direitos efectivos e - menos - os deveres variem em função do berço. A direita meritocrática sempre esquece o pequeno pormenor de que nascer Espírito Santo é diferente de nascer filho do Silva, canalizador no fundo de desemprego. Há solução ideal para isto? Não. E como a implosão da estrutura familiar é uma ideia peregrina, a única forma de tornar os “direitos e deveres” efectivos tendencialmente mais homogéneos é fazer com que sejam distintos no papel. Não há aqui qualquer paradoxo, andamos é todos enganados desde a revolução francesa.
Esta solução de compromisso, ou seja, uma política de esquerda, complicar-se-ia muito se passássemos do determinismo do berço ao determinismo da genética, em particular se a um berço rico estiver associado um bom pedigree (bons genes) e a um mau berço um pedigree de qualidade inferior. Sem discutir os seus méritos e deméritos, como justificar os direitos universais e diferenciados em que as políticas de esquerda assentam - da saúde e educação tendencialmente gratuitas à affirmative action, passando pelos impostos progressivos e o abono de família - perante uma prova irrefutável de que o potencial das classes desfavorecidas ou de um grupo étnico é intrinsecamente menor (pela biologia), quando o interlocutor acena com os valores da meritocracia e, sobretudo, da lógica de boa gestão de dinheiros públicos? Este interlocutor existe e não será a prosa do HR ou do DM que o irá demover. É para este braço-de-ferro que os dados sobre inteligência e genética têm importância. Estamos muito longe do século XIX e do esclavagismo que Lincoln combateu - o exemplo de HR. Como estamos longe dos considerandos académicos de Desidério Murcho (DM), a que voltarei.
O livro que mais agitou estas águas nos últimos anos foi o The Bell Curve (1994) - aqui resumido. Não se trata de um trabalho de investigação original, apenas de uma reapreciação estatística de dados já conhecidos. O livro prolonga uma linha de investigação iniciada por Arthur Jensen - entrevistado neste livro, que recomendo - e teve várias respostas - o The Bell Curve Wars é um bom exemplo. Citando do The Bell Curve:os Estados Unidos têm já [1994] políticas que, de uma forma inadvertida, fazem engenharia social sobre a procriação, mas andam a escolher as mulheres erradas. Se se incentivasse mulheres com Q.I, elevado a procriar como se faz para as mulheres de Q.I. baixo, tais políticas seriam apropriadamente descritas como uma manipulação descarada da fertilidade (tradução minha). Esta prosa não deve soar estranha a quem andou pela blogosfera por altura da polémica sobre o abono de família em Portugal, pelo que esta conversa não é apenas relevante para os EUA e o momento ainda é oportuno. O livro pretende provar que a inteligência pode ser medida pelo Q.I, sendo este parâmetro:1) o melhor para se prever o sucesso; 2) 40 a 80% geneticamente determinado; 3) dificilmente alterável por medidas sociais. Reitera os dados de Jensen e de vários outros cientistas de que os grupos étnicos têm diferentes valores médios de Q.I. e pretende mostrar que nos EUA uma elite económica e cognitiva com Q.I médio elevado e um grupo economicamente desfavorecido e com Q.I médio baixo estão já segregados, sem grandes esperanças de que se voltem a fundir.
A imagem que ilustra o texto (fonte) mostra a distribuição dos valores de Q.I. em negros, hispânicos, brancos e asiáticos dos EUA, assim ordenados por ordem crescente de valor médio de Q.I - os judeus Ashkenasi têm um Q.I médio ainda mais alto do que os asiáticos, by the way. Apesar de haver exemplos de fraude nesta área de estudo, estes resultados não sofrem grande contestação. Diminuir o valor do Q.I. como um parâmetro que não capta aspectos essenciais - a criatividade, por exemplo - e alinhar em teorias alternativas de inteligências múltiplas também me parece um exercício forçado. A verdadeira polémica está no contributo relativo da genética e do meio, sendo uma minoria a que exclui totalmente a influência desta ou daquele. Um problema clássico, como se sabe, que se eterniza por ser suficientemente complexo para alimentar escolas com ideias distintas sobre a questão. Não tenho competência para rever esta pilha de bibliografia, é uma autêntica guerra à base de arsenal da estatística. Volto pois à imagenzinha.
É muito pouco provável que novas metodologias produzam resultados que aumentem as diferença entre o Q.I médio das populações– a acontecer algo, será o contrário. Cada distribuição é do tipo normal e em forma de sino, isto é os indivíduos distribuem-se de forma simétrica em torno do valor médio, havendo cada vez menos indivíduos à medida que se caminha para os extremos. Ora, o que vemos é uma grande dispersão em torno da média e uma enorme área de sobreposição entre os diferentes grupos. E sendo assim, como DM escreve, é não só formalmente incorrecto como injusto extrapolar o Q.I do indivíduo a partir do valor médio da sua população. O problema é que estes dados não são suficientemente taxativos para acabar com os estereótipos raciais. Para uns, são a sua confirmação. Para outros, o contrário. Estamos no domínio da interpretação. Gente com preconceitos raciais e sem rudimentos de estatística escolhe a primeira, os outros escolhem a segunda. Graças a Deus - ou à especiação, it’s your choice - as sinos tocam-se. Não há razões para temer que a caixa de Pandora se abra com a continuação destes estudos, sobretudo se a literacia científica for aumentando. Mas este relativo conforto assenta exclusivamente nestes dados empíricos e estou em total desacordo com DM e a sua especulação sobre um mundo em que a mais burra das mulheres fosse mais inteligente que o mais esperto dos homens, ou seja, um mundo em que os sinos não se tocam. A escolha dos papéis nos exemplos de DM não é inocente, mas trata-se de um truque de retórica. Já as conclusões que tira sobre este hipotético mundo são de uma inocência que me surpreende. DM diz que seria um “salto lógico idiota” assumir que as mulheres devem poder oprimir os homens à vontade. Seria. Mas a ideia de protecção dos mais fortes aos mais fracos, essa espécie de caridade de género ou racial rings a bell. Se os homens no exemplo de DM passassem a gozar de mecanismos de protecção legal como os que hoje temos para as crianças, será que funcionaria? Aqueles homens podem ser estúpidos, mas por uma simples questão de orgulho tal solução nunca seria estável - há, de resto, inúmeros exemplos em que o paternalismo dos mais fortes deu mau resultado, como as reservas dos índios americanos. Bem mais “corrosiva” do que a filosofia é a natureza humana, DM.
Quando a liberdade de expressão não existe, os seus mártires tendem a ser pessoas corajosas e brilhantes; quando existe, são oportunistas não especialmente interessantes. Não deixa de haver uma ironia muito pouco subtil nisto. O João Miranda (JM) que fique com Watson - e ele ficará com o exemplo de Watson, mesmo depois do pedido de desculpas da criatura, porque serve a sua agenda e aposto que JM já interpretou as desculpas como mais uma prova das pressões sobre o cientista. Don’t silence the scientist, reproduz-se por aí. Enfim, mártir por mártir, prefiro Giordanni Bruno - mas deve ser por causa da minha piromania. Que Watson seja o novo paladino da liberdade de expressão só pode dar vontade de rir. Não sei até que ponto as pessoas fora da ciência têm presente a reputação da criatura entre os cientistas, mas poucos o suportam. Os seus comentários são em regra simplesmente boçais – lamento, mas Watson não é o bonequinho do ventríloco que, liberto pelo Nobel e pela idade, diz aquilo que vai na mente dos cientistas mas que ninguém tem coragem de revelar com medo de perder a tenure. Watson é um eugenista assumido – enfim, só César das Neves não será um eugenista assumido, mas no caso de Watson ele dá à mãe o direito de abortar se um dia houver uma forma de testar a orientação sexual do embrião e o resultado for “homossexual”. É também um misógino. E – o que de certa forma é ainda mais preocupante - um inimigo de chimpanzés, gorilas e orangotangos, pois defende que a eliminação das espécies que nos são próximas fará diminuir o risco de novas epidemias, como a sida (nunca vi isto escrito, foi-me comunicado por um colega). Watson anda há anos a dizer estas coisas e nunca ninguém o calou, antes pelo contrário; a sua vida é dar conferências, entrevistas, escrever livros - vem inclusive à minha universidade daqui a uns dias, receber um prémio de divulgação de ciência. A verdade é que anda a fazer má divulgação de ciência e se dependesse de mim viria falar aqui se ainda quisesse, sim, mas sem receber o prémio - vejam bem o meu grau de correcção politica. As suas últimas declarações – mas alguém leu o que ele disse? - foram desastrosas, porque Watson expressou uma opinião que, não sendo o resultado do seu trabalho como cientista, vem inevitavelmente com o cunho de expert, por ele ser um geneticista molecular célebre e nobelizado - um prémio merecido, note-se, apesar de outras polémicas. Com tais afirmações, cristalizou ainda mais preconceitos raciais que não estão provados pela ciência.
Os paladinos da liberdade não resistem ao charme dos energúmenos e logo surgem os que contextualizam a coisa e relembram que tudo deve ser discutido, tudo deve ser investigado. Discutir é o que se tem feito, não percebo a ressalva. Quanto a investigar, convém rebater a ideia de que somos livres em ciência de investigar o que nos apetece. Certas ciências - a biomedicina, a física experimental, até as ciências humanas - são onerosas e necessitam de entidades que financiem os projectos em função de uma série de parâmetros, que incluem a relevância do tema. Quem determina a relevância? Comissões de ética, os colegas, os políticos, o air du temps, o impacto social. Alguém que queira trabalhar sobre o cancro tem mais hipóteses de financiamento do que um excêntrico interessado na evolução do padrão das asas das borboletas. Só uma ciência feita nas caves dos palácios por aristocratas prósperos e ociosos estaria livre destes entraves. Eu, que prefiro a ciência dos excêntricos das borboletas e que entendo que a revolução da biologia molecular- seguramente o que de mais importante aconteceu na ciência desde os grandes anos da Física - foi essencialmente feita por duas dezenas de excêntricos obcecados com moscas, bactérias, vírus e vermes microscópicos, defendo ainda assim o financiamento vigente - as críticas que lhe faço são outras. Mas o exemplo mostra que a comunidade científica não é livre no sentido em que os tais aristocratas seriam. E a dependência de financiamento torna os cientistas vulneráveis a pressões e interesses, sobretudo quanto maior for o impacto social e económico do que se investiga. Convém também lembrar que a comunidade cientifica é conservadora, violentamente conservadora, reaccionária até, não no sentido político do termo, mas na forma como resiste a ideias novas. Desconfiar é a sua grande virtude e isso em parte explica as reacções violentas que a muitos, de fora, surpreendem, nomeadamente quando certas afirmações circulam na fina fronteira entre a academia e os media, num slalom que finta cientistas e jornalistas.
Há pois razões para reagir à retórica relativista de que tudo deve ser investigado, em nome da liberdade. Os ovnis, os fenómenos paranormais, o Intelligent Design, a cartomância. Refiro-me aos dinheiros públicos, obviamente. Trágico o dia em que o Intelligent Design entre nas escolas ou a Fundação para Ciência e Tecnologia financie investigações sobre fenómenos paranormais. Já nos basta como sinal de tolerância que se deixe construir um museu de criacionismo em Portugal, que a maior empresa (privada) de biomedicina canalize dinheiro para o paranormal, que exista um clube dos maluquinhos dos ovnis…
No caso concreto da inteligência e da genética, é algo irónico falar de censura – raios, o The Bell Curve deve ser o livro de sociologia mais vendido nos EUA desde os Kinsey Reports, o seu co-autor ainda vivo continua a publicar best sellers, Arthur Jensen ganhou o Kistler Prize, tendo publicado a vida toda em revistas académicas e na imprensa, o relatório da Board of Scientific Affairs of the American Psychological Association(pdf) continua online e o trabalho da task force rival saiu no Wall Street Journal.
Obviamente, convém à esquerda que persista a dúvida sobre o peso dos genes, já menos por medo de se descobrir uma verdade inconfessável do que receio de instrumentalização de uma diferença pouco significativa. A outros, convém explorar estas diferenças que não nos segregam como indivíduos mas que podem influenciar as políticas sociais. São várias as instituições que financiam e publicam esse trabalho de investigação. Dir-me-ão que os primeiros são uns obscurantistas e que o que move os segundos é o amor à verdade. Eu diria apenas que temos dois lobbies a funcionar.
A única promessa de liberdade que vejo nesta história não está na retórica dos intervenientes, antes no simples facto de que os sinos se tocam. Por nós. Ding dong.

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