Forma e conteúdo em cinco minutos

Escreve o António Figueira: “estarás tu a dizer, ó Nuno, que se a forma é bela o fundo vem junto e tem sempre de se aceitar?”. Caro António, aceitar estes termos da discussão significa reduzi-la aos teus pontos de vista. A minha ideia sobre esta questão é bastante diferente: pode-se dizer que um político (a) de uma ideologia determinada é bonito (a) ou feio(a). Sobre isso, não me custa nada dizer que há uma forma e um conteúdo. Em relação a uma obra de arte ou literária não creio que haja distinção entre forma e conteúdo. Como escrevia George Santayana, uma máscara com que nos assumimos em sociedade é tão “verdadeira” quanto o nossa “personalidade”…. tal como, uma concha faz, da mesma maneira, parte integrante do molusco como o seu interior. Defendo, por isso, que a forma da obra de arte é o seu conteúdo e o conteúdo dessa obra é também a sua forma. Pode-se compreender o processo de criação de uma obra pela vida do seus autor, e, naturalmente, a sua vida está sujeita a escrutínio. Mas a obra de arte que este indivíduo criou não é redutível à sua vida, nem é, em meu entender, julgável em função das suas opções políticas e religiosas.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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10 respostas a Forma e conteúdo em cinco minutos

  1. M. Abrantes diz:

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    Se “forma” estiver para ‘linguagem’ assim como “conteúdo” está para ‘significado’, então as coisas podem não ter o rigor matemático que se entende na sua posição. Podem ser associados diversos significados a uma mesma forma (‘Mona Lisa’). A associação rígida forma/conteúdo que propõe, só se verifica se uma dada associação forma/conteúdo for massivamente aceite, por um período de tempo suficientemente longo, para que se torne um instinto colectivo (‘Estátua da Liberdade’).

  2. António Figueira diz:

    Isto é um bocadinho neverending.
    Tu estás a afunilar a coisa na política e a pretender provar que um facho pode parir boa literatura.
    Eu tento dizer que o problema é mais vasto, que tal como o fundo e a forma (que linguagem linda! faz-me lembrar o tempo em que, jovens e inocentes, éramos capazes de falar da “relação dialéctica entre forma e conteúdo”, lembras-te George?), tal como fundo e forma, pois, estão interligados, também a obra e o seu contexto, o autor e a sua intenção identificam e caracterizam a obra. (Agora que somos ambos pais de filhos e passámos o rubicão da meia-idade, deixa-me dizer-te mais, George:) Desde há muito (as Aufklärung) que a literatura deixou de poder ser entendida fora do problema do conhecimento, é por isso que ela contém (ou deve conter) uma noção de “responsabilidade”. E isso tem pouco que ver com os termos mais ou menos anedóticos, mais ou menos simplistas, com que tu caracterizas em três-posts-três a questão (sorry, George).

  3. maradona diz:

    Um gajo que fala no george santayana é um gajo que merece ser alto e magro!

  4. Falta aqui uma distinção: para além da questão forma-conteúdo, na qual concordo genericamente com o Ramos de Almeida, há a questão arte-artista, que me parece mal colocada. Digamos que, para mim, seria em princípio admissível gostar de um quadro de Hitler, se ele alguma vez o tivesse pintado…

    Mesmo que ele mostrasse pessoas a morrer nas câmaras de gás. A questão é: até que ponto a minha sensibilidade artística, maravilhada com a (suposta) beleza sublime do quadro, ficaria embotada pelo meu raciocínio, chocado com a monstruosidade do seu conteúdo?

    Isto poderia também ser, no reverso da medalha, como apreciar o “Guernica” se ele fosse, artisticamente, uma bosta?

    Desculpem-me o simplismo, não é falta de tempo, é mesmo ignorância. Mas a metodologia do raciocínio analítico (o “Método”…) é uma ferramenta universal, com importância comparável à do próprio conhecimento específico das matérias em análise…

  5. Mª do Carmo Peralta diz:

    Estava, precisamente, à procura do Santayana para umas citaçõezinhas, quando vim aqui parar. . .
    Desculpem a intromissão, mas estou perplexa!
    Literatura, pintura, estatuária – a estátua da liberdade!!! – forma e conteúdo, fundo e forma, significado e significância, jogos florais. Responsabilidade.
    Nem de propósito! Já se aperceberam que esta é a palavra-muleta do regime? Aquela que muda a semântica do discurso de exortação? Podes fazer tudo…com responsabilidade.
    Que palavra é esta que transforma o ouro em pó de carvão? Que palavra é esta que nos tira a liberdade? Que palavra é esta que retirou o significado da liberdade com responsabilidade? De tanto ser repetida, perdeu o seu verdadeiro significado. Na semiótica do regime, tornou-se, agora, sinónimo de aviso, truncagem, retrocesso, inibição, mentira, cuidadinho, lentidão, arrecuas. Medo.
    Pois é o problema da ideologia, esse velho, quiçá caduco problema. Nada é neutro.
    Voltando à questão forma e conteúdo, proporia outro enfoque: a emoção.
    Obra de arte é toda a criação que nos emociona positivamente, que nos faz entrever a transcendência, que não esqueceremos.
    E qual a medida da emoção? como se afere que a obra emociona? Claro que não basta a Lili da Malveira exclamar ” – choro sempre que leio a Rosinha!”. É preciso que seja consensual.
    No dizer de Hanna Arendt, “a verdade está no consenso ditado pelo auditório específico”. Aqui está: obra de arte é a criação original, individual ou colectiva, susceptível de emocionar um auditório específico , criando consenso.
    Então o Toy? Enche salas, não? E a Shakira? Enche estádios! E a MRP ? Os milhares e milhares de exemplares?
    Pois, o busílis da questão está no “auditório específico”. Falemos então em élites. Daquelas que não temos. Dos demissionários, do individualismo. Das palavras atropeladas pelo mercado. Do silêncio. Da derrota. Até da covardia. Da falta dos consensos que nos levariam à vitória…
    Pois é, falemos, pois, de cultura. Chega! Já viram a quantidade de conceitos que, interminávelmente, surgem, a cada passo da definição?
    Uma coisa é certa: a obra de arte não medra nas sociedades que ” não conseguem reter o passado”
    PS:
    Porque chorei quando vi “Le déjeuner sur l’herbe”?
    Porque leio e releio a Mercé Rodoreda e a Marguerite Duras?
    Porque é que me emociono com a Elizete Cardoso, a cantar “Barracão”?

  6. deborah diz:

    Deixemos os fachos e os estalinistas de fora desta importante questíuncula e façamos a nós mesmos essa pergunta: será que sou capaz de ler alguma coisa de Walt Whitman (e gostar) depois de saber que o autor de “Leaves of Grass” tinha gostos sexuais bastante similares aos do Carlos Silvino aka Bibi?

  7. M. Abrantes diz:

    (Mª do Carmo Peralta ) Precisamente porque as emoções pertencem ao universo dos conteúdos, a mesma forma pode motivar diversas interpretações (reacções, etc) que dependem de cada um. O filme que a faz chorar a si pode bem encher de tédio outra pessoa. O seu (e de Hanna Arendt) ‘auditório específico’ para determinar o que é ‘verdade’, tem mais sentido nas ciências exactas (e mesmo aqui eu substituiria ‘ verdade’ por ‘ser adequação’). No que diz respeito ao que é designado por arte, parece-me que a que perdura é a que que toca fundo uma grande quantidade de pessoas (ao longo do tempo) e não apenas um pequeno número (elite) [sem embargo de as obras visíveis às massas serem escolhidas por especialistas; mas não é destes a escolha das que se imortalizam]. E por serem as emoções que imortalizam as formas, e por nós só aos poucos irmos entendendo aquelas, talvez a própria noção de arte deva ser constantemente reinventada. Se alguma música do Toy perdurar tantos séculos no imaginário colectivo como as pirâmides do Egipto, não estou a ver porque não há-de ser considerada uma obra de arte [um clip é uma obra de arte; já olhou bem para um? porque é que aquilo funciona? podia usar um clip para interpretar muito do espírito humano].

    (deborah)
    Faço-lhe a seguinte pergunta: se um médico torcionário nazi, daqueles que utilizaram cobaias humanas nos campos de concentração, tivesse, no decorrer dessas experiências macabras, descoberto a cura para o cancro, acha que essa vacina devia ou não ser utilizada? Ou é menos vacina por sair da cabeça e dos métodos de um louco, e continuamos a deixar morrer os cancerosos?

    Não faço a mais remota ideia de quem é Walt Whitman. Mas se os livros dele puderem ensinar-me alguma coisa, não tenho a mais pequena dúvida em lê-los. Tal como não tenho dúvida de que um pedófilo deve ser preso (no sec XXI; espero que os nossos descendentes tenham melhores maneiras de resolver os problemas)

  8. Carlos Fonseca diz:

    Nem sequer sou intelectual de bancada, e já havia havia aqui afirmado que forma e conteúdo no texto literário, como obra de arte, estão submetidas à condição de inseparabilidade.
    Todavia, se acharem útil confirmar, aconselho aos intelectuais autênticos e notáveis a consulta do livro ‘Teoria da Literatura’, 8ª ediçã, Almedina – Coimbra, da autoria do Prof. Vitor Manuel Aguiar e Silva, de leitura bastante trabalhosa.

  9. ezequiel diz:

    acho que a melhor solução mais animadora e excitante é a seguinte:

    excelente forma e péssimo “fundo” ( conteúdo??? )

  10. Sobre forma e conteúdo nas obras de arte na atualidade tenho a dizer que a primeira está quase imperceptível de tanto que se abstraiu, tem que se ser intelectualizado para chegar a entender seu conteúdo. Mas a grande arte é reconhecida por qualquer um apreciador que se digne a olhá-la desinteressadamente por algum tempinho. Se suspirar, a obra tem conteúdo!
    Mas, se na literatura, a formula certa para escrever uma história, fictícia ou não, é testá-la com palavras, com a linguagem oral. Se houver platéia é porque se está no caminho certo. O conteúdo está sendo comunicado e despertando interesse.

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