Nuno Brasillach Ramos de Almeida

Pior que um jdanovista primário só um anti-jdanovista primário. Esqueçamos a Academia sueca, o Nobel, o Pedro Mexia, tutti quanti: estarás tu a dizer, ó Nuno, que se a forma é bela o fundo vem junto e tem sempre de se aceitar? (Sim, porque dizer que um autor é de “direita” ou de “esquerda” se nem essa direita nem essa esquerda se vêem naquilo que escreve é mais do que uma irrelevância, é uma forma muito de direita mesmo de distinguir a direita da esquerda, porque é uma simples estetização da política.) Nuno, isso não é verdade e mesmo um reaccionário (frequentável) como o velho De Gaulle soube dizê-lo quando um conjunto de almas sensíveis lhe foi pedir que comutasse a pena de morte ao Brasillach (e se escrevia bem, o Brasillach!); disse que se ele escrevia assim tão bem mais culpas tinha pelo que escrevia, porque tinha mais “responsabilidade”. E a menos que na vida valha tudo e o seu contrário, a literatura não é de facto uma pura irresponsabilidade.

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SEXTA | António Figueira
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8 respostas a Nuno Brasillach Ramos de Almeida

  1. António:

    O Brasillach foi fuzilado como «traidor à pátria». O que é objectivo, uma vez que ele apoiou de uma força ocupante (escusado será dizer que não concordo com esse fuzilamento nem com nenhum fuzilamento).

    A traição do Brasillach tomou a forma de livros e sobretudo artigos porque era essa a sua actividade. Mas a «traição à pátria» veio de muitos lados, de polícias a lojistas e ao mais.

    Isso é muito diferente de escrever livros «censuráveis» ou «irresponsáveis» (o que quer que essas coisas queiram dizer) numa situação política normal, quando não há gente a ser presa e assassinada nas ruas.

  2. “Dans les jours qui suivirent, une pétition d’intellectuels renommés, parmi lesquels Paul Valéry, Paul Claudel, François Mauriac, Daniel-Rops, Albert Camus, Marcel Aymé, Jean Paulhan, Roland Dorgelès, Jean Cocteau, Colette, Arthur Honegger, Maurice de Vlaminck, Jean Anouilh, André Barsacq, Jean-Louis Barrault, Thierry Maulnier, etc.[2], demanda au général De Gaulle, chef du gouvernement provisoire, la grâce du condamné à mort. Le général choisit de ne pas commuer la peine prononcée, ce qui entraîna l’exécution de la sentence, le 6 février suivant, lorsque Brasillach fut fusillé au Fort de Montrouge. De Gaulle dira :

    « Cela ne s’explique pas. Dans les lettres aussi, le talent est un titre de responsabilité et il fallait que je rejette ce recours-là, peut-être, après tout, parce qu’il m’était apparu que Brasillach s’était irrémédiablement égaré. Je précise tout de même que ma décision n’eut rien à voir avec les orientations sexuelles de cet auteur, dont je reconnais par ailleurs, comme vous, la phénoménale culture. Si je me rappelle si bien de ce matin-là, c’est qu’à chaque dernière nuit d’un homme que je pouvais gracier, je ne fermais pas l’œil. À ma manière, il fallait que je l’accompagne. »
    Wikipedia
    http://fr.wikipedia.org/wiki/Robert_Brasillach

  3. A.Lemos diz:

    No caso da literatura e da arte acho que nos devemos abstrair das posições políticas/partidárias/cívicas de um autor quando julgamos uma Obra. Se é certo que a academia Sueca não o faz – ou se limita a ir fazendo (de acordo com ventos e modas) devemos usar o nosso bom senso e responder a uma pergunta simples: Ao julgar a qualidade de uma Obra devem ser tidas em conta as posições ou actos políticos do autor? A minha resposta é não.
    No caso de Brasillach, ainda que os escritos deste autor tivessem uma carga política e que ele tivesse sido julgado ou condenado por isso tal facto não pode intereferir com uma análise literária da sua obra. Apesar de podermos discordar com o conteúdo não podemos perder a lucidez e deixar de saber dizer se a Obra de um determinado autor é boa ou má…

    Para o Pedro Mexia:
    Aquela história de ser a favor da Guerra do Iraque e de não ser pró-Bush só pode revelar uma coisa: cegueira.

  4. r.m. diz:

    As obras literárias não se julgam pelo conteúdo ideológico que possam revelar, muito menos pelas ideias dos respectivos autores.
    Mas julgam-se, seguramente, no conteúdo e na forma, por acompanharem ou não a evolução ideológica geral da sociedade, pese embora não seja esse o primeiro critério.
    As obras de Júlio Dantas, por exemplo, não eram propriamente nulidades, mas estavam foram do seu tempo.
    Já as de Almada, detractor daquele, revelando-se imbuídas, estética e materialmente, do ideário fascista, mostravam-se o espelho da sua época.
    E essa diferença concorreu para a definição do lugar que a história da literatura concedeu a cada um desses autores.

  5. Al diz:

    Não é com boas ideias que se faz um poema, dizia o outro – e se não souberem quem era este outro problema vosso. Permito-me acrescentar que com boas ou más ideias não se faz um bom poema ou boa literatura. Isso faz.-se com aquela coisa difícil de definir que é escrever bem.
    Claro que há quem junte a má prosa ou o mau verso às péssimas ideias. O Neruda, por exemplo:
    “Stalin alza, limpia, construye, fortifica
    preserva, mira, protege, alimenta,
    pero también castiga.
    Y esto es cuanto quería deciros, camaradas:
    hace falta el castigo”
    Faz falta o castigo.

  6. António Figueira diz:

    Luís Marvão:
    A referência gaullista à homossexualidade de Brasillach é de um mau-gosto atroz – quase obscurece o que há de um moderno Catão nas suas palavras, é o eterno tragico-cómico francês (a Alice Kaplan, no seu livro, sugere motivos mais baixamente políticos para a recusa de perdão de De Gaulle, que se prendem com a sua relação com o PCF no momento, mas isso já é outra conversa).

    Pedro Mexia:
    O caso Brasillach é evidentemente um caso limite (uma boutade para chatear o NRA); mas mesmo em tempos “normais”, como V. lhes chama, a literatura deve ser responsável. A literatura não pode ser dissociada do problema do conhecimento: é por isso que a literatura dita de entretenimento, por exemplo, é reprovável. Quem nada tiver de significativo a dizer deve seguir a lição de Lord Chandos e saber remeter-se ao silêncio.

  7. Meia-Laranja diz:

    Lembrem-se de Celine , o grande escritor, e um crápula como pessoa.

    Aliás o fuzilamento de Robert de Brasilach, teve muito mais a ver com as contigências da época, do quaisquer apitites sexuais ( fora da norma ).

    Muitos colaboradores , o Maurice Papon, o proprio Mitterand, safaram-se muito bem.

    Gratas figuras, a Darrieux, a Arletty, o Chevalier, a Coco Chanel, foram colaboradores, e isso pouco ou nada os afectou.

    Brasillach serviu como exemplo, mau, segundo o meu ponto de vista, mas isso é outra conversa.

  8. M. Abrantes diz:

    >

    Para algum acto ser significativo, alguém tem que o classificar como tal. O problema desta sua posição é que a significância de um acto não é muitas vezes evidente no tempo da sua ocorrência. Há palavras ditas num momento, que se escondem atrás de um eco que só chega aos nossos ouvidos num tempo futuro. A história da ciência está repleta de teorias que foram ignoradas no tempo da sua criação, e que se revelaram depois cruciais para o desenvolvimento de um dado ramo da ciência. Ainda bem que esses cientistas não calaram os seus pensamentos, apesar de Lord Chandos.

    Além disso, pouco de bom se pode esperar quando são os que mandam (nete caso, De Gaulle) a dizer-nos o que é ou não ser-se responsável. Não há melhor forma de tramar a liberdade.

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