Pedro Jdanov Mexia

A propósito de uma frase do escritor Urbano Tavares Rodrigues, em que este realçava o empenhamento cívico dos últimos premiados com o Nobel da Literatura como critério da escolha, Pedro Mexia escreveu um interessante texto. Estes prémios revelariam, segundo o comentador, uma concepção ideológica Jdanovista transplantada para a vetusta academia sueca.
A conclusão parece-me equivocada. Já o velho Marx distinguia entre um bom livro e uma obra medíocre de um autor “bem intencionado”. Balzac valia, para o fundador da primeira internacional, muitas vezes mais do que esses tipos . Para ele, os bons escritores, como a boa arte, transcendem os horizontes ideológicos.
Creio que para ler um livro interessa pouco a posição política do autor e ainda menos se ganhou o Nobel da literatura. Mas é verdade que os diferentes júris interessam-se certamente por política. De outra maneira não lhes teria passado pela cabeça atribuir o galardão da literatura a … Churchill.
É injusto acusar os “notáveis” suecos de só premiarem gente de esquerda, adeptos do neo-realismo e cultores do realismo mágico. Os maus e os bons prémios estão igualmente distribuídos. A lista contempla bons escritores fascistas, como Camilo José Cela; vários dissidentes soviéticos, como Pasternak e Solzhenitsyn; e até um escritor estalinista (Sholokhov) autor do Dom Tranquilo.
Um escritor não tem que ser recomendável, pode ser um grande filho da puta e um genial criador.
Poucas coisas se comparam à Viagem ao Fim da Noite de Céline, a muitas palavras de Ezra Pound e a várias obras de Vargas Llosa ou Borges. Estou-me borrifando que sejam politicamente de direita e alguns até fascistas e colaboracionistas. É qualquer coisa de diferente que está impresso no papel em chumbo ardente.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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25 respostas a Pedro Jdanov Mexia

  1. Concordo com o teor do post, é assim mesmo.

    P.S. Do Cholokov, só li O Morreram pela Pátria (o livro era do meu pai), mas, um dia destes, tenho de arranjar o Dom Tranquilo. Mesmo não sendo eu um estalinista 😉

  2. Não atribuí nenhum jdanovismo à Academia sueca; as declarações são do UTR. Quanto ao mais, strangely enough, totalmente de acordo.

  3. s diz:

    E, contudo… se a maior parte dos criadores desse séc XX terão sido de esquerda isso até constitui matéria para reflexão gira

  4. Luís Lavoura diz:

    Concordo.

    E, já agora, referir também Pablo Neruda. Um adepto fervoroso de Estaline, mas um grande, enorme poeta.

  5. nuno diz:

    Paradigma Mexia: uma coisa é e não é simultaneamente.
    Palavras dele: “que Doris Lessing foi premiada pelos seus «valores» e pelo seu «empenhamento». Até aqui nada de novo: há muitas décadas que muita gente critica a agenda política do Nobell”. Portanto, parece concordar com a ideia segundo a qual a academia segue uma agenda política. Mas diz que não; diz que não disse. Aliás, isto é um pormenor engraçado de todos os não-alinhados – são sempre uma coisa e o seu contrário.
    Apesar de Mexia vir reforçar a campanha portuguesa pelo Roth – essa sim, merecedora de escrutínio pela sua espantosa unanimidade na nova direita – diz que não toma partidos (diz nas entrelinhas), assim como diz no seu novo blog que não está ao serviço de ninguém nem se deixa arregimentar por seitas. Nós conhecemos bem o que isto quer dizer. Pedro Lomba também faz coro nesta pose de enfant terrible para o século XXI. Lembram-se dos enfant terribles dos idos de 70, aqueles que eram do MRPP e não-alinhados? Aqueles dois, com é que se chamavam?, Durão Barroso e José Manuel Fernandes? Pois, esses. Ao ver a rebeldia dos dois vates da nova direita fico sempre com a sensação de que a história se repete, umas vezes como drama outras como farsa.
    Entretanto, vamos fingindo que acreditamos que os Pedros, Mexia e Lomba, não devem nada a ninguém e que são puros e não contaminados como dois querubins.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Pedro Mexia,
    Erro meu, interpretei esta passagem do seu texto:”Até aqui nada de novo: há muitas décadas que muita gente critica a agenda política do Nobel. Urbano, pelos vistos, aprova essa agenda”, como o Pedro Mexia achava que a Academia Sueca tinha uma agenda Jdanovista.
    As minhas desculpas.

    Luís Marvão,
    Faz muito bem em ler o Dom Tranquilo é um livro muito bom. Um dos melhores sobre a Revolução Soviética, para mim, a par da Cavalaria Vermelha de Babel e A Margarida e o Mestre de Bulgakov.

  7. Lidador diz:

    “Um dos melhores sobre a Revolução Soviética, para mim”

    O Arquipélago de Gulag, sobre o mesmo tema, tb não é mau.
    E o Livro Negro do Comunismo, claro.
    Ou o Animal Farm e o 1984….

  8. lidador, estamos a falar de literatura, ok? olhe lá para a sua listinha e veja se não se baralhou. orwell tudo bem, mas ‘o livro negro do comunismo’? não dispare tão rápido, homem. ainda acerta nos seus pés, ou assim.

  9. A Margarida e o Mestre é um livro mordaz; é magnífico.
    A Cavalaria Vermelha, do I Babel, não li ainda.

  10. Claro que a academia sueca tem agenda política, e o Nuno Ramos de Almeida cita os exemplos óbvios. Eu nunca disse o contrário. Mas o «jdanovismo» que mencionei (e foi a isso que se referiu o NRA) não é dos suecos, é do UTR. Contradição nenhuma, portanto.

    Eu não sou um «não-alinhado»: sou um conservador assumidíssimo. E tenho «tomado partido» em quase todos os assuntos políticos relevantes desde os tempos da Coluna Infame. Sou é independente de partidos e grupos, coisa bastante diferente e que chateia muita gente.

    Fico à espera desse «escrutínio» do fascínio da «nova direita» pelo Roth. Querem ver que o rapaz afinal é bushista?

  11. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Lidador,
    O Livro Negro do Comunismo não é um romance e é uma obra de propaganda de má qualidade. Soljenitsine é um escritor sobrestimado, mas tem dois bons livros:O Dia na Vida de Ivan Denissovitch e o Pavilhão dos Cancerosos, o resto é fraco. Até tem uma biografia romanceada de Lenine, mas isso não o faz um bom romancista sobre a Revolução Soviética. Prefiro, de longe, a Guarda Branca de Bulgakov ou mesmo O Segundo Dia da Criação de Ilya Ehrenburg.

  12. “Um escritor não tem que ser recomendável, pode ser um grande filho da puta e um genial criador.” Esta é uma frase corajosa, caro Nuno, e olhe que muita gente do ‘politicamente correto’ deve ter engolido em seco e torcido na cadeira.

    Agora vamos ao enviesado da atribuição do Nobel da Literatura, verdade ou mito? Lembro-me de uma entrevista de jorge Amado à RTP, há mais anos do que eu gostaria que tivesse sido. Questionado sobre o Nobel que não chegava, e que na altura seria o primeiro atribuído a um escritor em Língua portuguesa, JA a dado momento ‘profetizou’ que um dia o Prémio seria atribuído a Saramago. JA era um desencantado com o esquerdismo, ex-militante do PCB. Saramago era e continuou a ser comunista. Parece que Amado percebeu que lhe faltava qualquer coisa que sobrava a Saramago para obter o Nobel, coisa essa que não tinha muito a ver com boa literatura. E assim JA passou ao grupo daqueles que só se reconhece a tinham razão depois de morrerem.

  13. nuno diz:

    Querem ver que os rapazes que tanto aplaudiram o pacto dos Açores, a invasão do Iraque, que disseram que Sadam igual a Hitler e que a Europa era um bando de capados, já não sãp bushistas? Querem ver que a rapaziada que uivava para que Portugal tomasse uma posição de força em relação ao demoníaco Sadam, que diziam que da França não vinha nada de bom, e que, memorável frase de fino recorte literário, que por lá as “gajas não rapavam a pintelheira” (vá ver os arquivos da coluna) já não são bushistas? Espantoso, a volubilidade da alma humana nunca nos deixa de surpreender.
    Paradigma Mexia 2: A memória é um livro em branco. Ele lá escreve o que bem lhe dá na veneta!
    Pois é por isso, seu Dr. Prof. Mexia, que é tão interessante a admiração – chega mesmo a ser, a idolatração – pelo Roth; escritor de esquerda, mas da esquerda norte-americana, entenda-se. Será talvez um certo complexo sionista, avento. Mas nisto não há certezas.
    Mas se tiver a amabilidade de verter algumas linhas sobre tão paradoxal constatação, ficaríamos, estou em crer, eternamente gratos. Sobretudo com as suas análises sempre imparciais.

    Acrescente-se que o amor a Roth – que é um excelente escritor – só é ultrapassado pelo ódia a Saramago. Esse também carecia de explicação, embora as razões apontem para os mesmos intricados factores ideológicos. O mundo da literatura é um mundo de capelinhas e prima donas.

  14. Lidador diz:

    Caros fernanda e NRA, o meu comentário não foi sobre literatura..foi sobre, tal como vem no início do comentário, os bons livros “sobre a Revolução Soviética”

    Sobre o Cholokov, tenho aqui um conto dele que se intitula ” A Ciência do Ódio” e começa com a seguinte citação do “Marechal José Estaline” : ” Não se pode derrotar um inimigo sem se ter aprendido a odiá-lo de alma e coração”.

    Boa literatura portanto!

  15. Lidador diz:

    Já agora NRA, há-de explicar-me de onde lhe vem a pesporrência para chamar “obra de propaganda de má qualidade” ao Livro Negro do Comunismo.
    Provavelmente é a sua maneira de desvalorizar os factos.
    A dissonância cognitiva tem coisas…

  16. Está nitidamente com problemas de leitura. O «bushismo» (irónico)referia-se ao Roth. E nessa matéria certamente não encontra referências nazis ou genitais escritas por mim.

    Gosto de alguns livros de Saramago, embora de nenhum posterior ao «Ensaio sobre a Cegueira».

    Diz que eu não gosto do Saramago por razões políticas? Mas o que dizer de alguém que acusa outrém de gostar de Roth por razões «sionistas»? That rings a bell.

  17. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Lidador,
    Um livro que, entre outras coisas, acusa os sandinistas das mortes dos contras pagos pelos EUA é uma obra muito científica. Tem razão quando diz que “a dissonância cognitiva tem coisas…”

  18. Lidador diz:

    Caro NRA, esse raciocínio é uma falácia conhecida.
    Em linguagem corrente chama-se pesca à linha e consiste na simples enumeração de circunstancias favoráveis, seleccionando apenas os factos que estão de acordo com a tese, ignorando os que a contradizem. Tem um bocado a ver com a a esstatística dos pequenos números, como por exemplo aquela nova-iorquina que garantia que a vitória eleitoral do Bush tinha sido forjada, porque nenhum dos amigos dela tinha votado nele, logo ele não poderia ter ganho.

    De resto, se um “sandinista” matou um “contra”, dizer que isso não aconteceu porque o “contra” era apoiado pelos americanos, é o mesmo que dizer que os soviéticos não mataram alemães, porque eram apoiados pelos americanos.

    No final do seu espantoso raciocínio, desembocamos sempre no satanás de serviço (os sacanas dos americanos).
    Já agora, no caso vertente os “sandinistas” eram apoiadops por quem?

  19. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Lidador,
    Acho que você percebeu:os sandinistas derrubaram o ditador Somoza. Os Estados Unidos criaram os contra para derrubar os sandinistas. Um livro considerar um crime do comunismo o derrube de um ditador e a defesa de um governo reconhecido internacionalmente perante a um agressor armado por uma super-potência, só é possível num livro desonesto. Bastava isso, para o livro ser mau, mas infelizmente, o mesmo raciocínio repete-se com a guerra civil na Rússia, em que os mortos e liquidados pelos os exércitos estrangeiros e brancos são atribuidos aos comunistas, as epidemias e a fome que se seguiu à guerra são atribuidos aos comunistas, os assassinatos da Unita e da Renamo são tb atribuidos aos comunistas. Acho (já não me recordo) que até o milhão de comunistas mortos pelos generais indonésios é atribuido aos comunistas – provavelmente os escribas acham que se eles não fossem comunistas não teriam ser assassinados ….etc..etc.. Estamos perante uma obra mediocre, mal elaborada e de propaganda rasteira que só satisfaz pessoas como o meu caro Lidador.

  20. ondevaisorioqueucanto diz:

    Caro Pedro
    Está a personalizar. Referi-me obviamente à “nova direita”. Revê-se na “nova direita”. Óptimo, já chegámos a algum princípio de filiação. É simplesmente um fenómeno fácil de verificar: nos blogues de direita o amor a Roth é directamente proporcional ao ódio a Saramago. Não defendo o Saramago em particular, acho apenas piada à correlação.

    Donde se infere que, mais uma vez, você está a pessoalizar quando diz que o acuso de gostar de Roth por razões sionistas. Não era a si que me referia – ou não era especialmente a si. É apenas mais um enigma do mundo literário. Mas como não podia deixar de ser, lá vem o espantalho do anti-semitismo. Que raio de obsessão!

    Olhe que essa de tratar o Roth por rapaz???

  21. Lidador diz:

    Ah, depende então da perspectiva moral…
    Se o comunista mata o “contra”, trata-se de uma morte legítima…
    Bem, o Estaline dizia o mesmo…que matava os reaccionários, para defender a legitimidade revolucionária.

    Tenho de lhe dar razão, de facto o Livro Negro do Comunismo não entra com essas classificações especiosas e limita-se a contabilizar cadáveres.

    O NRA faria melhor….classificaria os cadáveres em bons ( os da causa) e maus ( os outros).

    Bem escrevia o Chokolov sobre a necessidade de uma Ciência do Ódio.
    É que assim é tudo muito mais simples…

  22. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Lidador,
    Já há suficientes crimes feitos em nome do comunismo, para ser preciso inventá-los com contabilidades criativas. Vou-lhe explicar devagar: os mortos de um bombardeamento de napalm num qualquer campo vietnamita não são crimes do comunismo, são crimes dos governos do EUA. Já que são eles que o praticam. Percebeu? Creio que não.

  23. Lidador diz:

    Bem, NRA, eu sei que o Livro Negro espoletou a fúria da “bem-pensância” da esquerda europeia.
    Não foi há muito tempo e tenho presente a campanha de descredibilização que contra ele foi lançada, com a utilização de todas as armas do arsenal estalinista, mesmo antes de ser dado à estampa, ou seja, mesmo antes de alguém o ter lido.
    Alguns autores foram inclusivamente prejudicados nas suas carreiras académicas. Foram até chamados de fascistas, que é o carimbo habitual com que a esquerda apelida todos aqueles que se permitam meter-lhes debaixo do nariz o seu verdadeiro CV.

    P.S. Já agora, um evento não é “crime” pelo simples facto de o NRA o nomear como tal.
    No caso abstracto que referiu, se um avião americano bombardeu um objectivo militar e matou pessoas, não se trata de crime, mas de guerra e o piloto provavelmente será até condecorado.

    Se o Exército Vermelho entra em Berlin e mata milhares de combatentes nazis, não se trata de crime, mas sim de guerra.

    Se o Exército Vermelho mata pessoas sem justificação militar, pode tratar-se de crime, se assim for decido por um tribunal, de qq maneira é um acto contrário às leis da guerra.

    Se um estado não legítimo ( como era o caso do sandinista, que se apoderou do poder pela forças das espingardas), mata revoltosos, só não é crime , dentro da sua própria legitimidade revolucionária.
    O mesmo se passa com o ditador Anastázio, ao matar revoltosos.

    Percebeu? Creio que não.

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