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por amor de deus

13 Outubro 2007 | por Fernanda Câncio

Gosto da palavra deus. É mesmo das palavras de que mais gosto. Gosto da estética, do som e do sentido. Gosto tanto que a uso muito. Dou comigo a repetir “ó, deus”, em voz alta, quando alguma coisa me irrita ou desconsola e quero remeter as causas da irritação e do desconsolo para a inevitabilidade das coisas inevitáveis. Digo “que mal fiz eu a deus” quando me sinto injustiçada, “vai com deus” quando quero mandar alguém passear, “por amor de deus” quando algo me surge como incompreensível, gratuito ou disparatado, quando exijo a atenção de alguém, quando faço um apelo desesperado.

São expressões curiosas, interpelações poderosas. Mágicas, rituais, blasfemas: é a isto, a esta utilização banal, coloquial, creio, que se chamava “invocar o nome de deus em vão”. Não sei em que pensa ou o que sente alguém que crê na divindade quando as repete. Se ao dizer “deus” vê a figura de barba branca e vestes épicas da Capela Sistina, o luminoso dedo da criação, o poder dos céus, infinito e imponderável, tão ubíquo quão terrível e indiferente. Mas eu, ateia do trinta costados, que vejo? Por que invoco uma entidade em que não creio?

Há para esta pergunta muitas respostas. A mais usual, repetida pelos crentes, é de que, por definição definido em relação à ideia de deus, o ateu vive obcecado por ela. Há até quem assevere que o ateu é uma espécie de fervoroso crente “ao contrário”, e que a sua crença “negativa” corresponde na verdade a um desafio permanente, a um “diálogo” com a divindade. Acho graça a esta explicação: parece que certos crentes não concebem outra possibilidade senão a de acreditar e, como encaram o ateu como oposto de si próprios, se eles amam deus e o vêem em todo o lado e lhe agradecem todas as coisas, então o ateu só pode odiá-lo, querer bani-lo.

Ora eu, ateia, confesso que não quero banir deus para lado nenhum. A ideia de deus comove-me. Comove-me esta possibilidade de um interlocutor silencioso que apaziguasse o silêncio, de um ser que olhasse para mim e por mim, que me amasse mesmo nos meus piores e mais inconfessáveis momentos, me confortasse no desespero e me abraçasse na morte. Comove-me essa tão pungente criação contra a solidão e o vazio, essa tão admirável obra de arte que, embora muito abusada e manipulada para horripilantes fins, se mantém intocada ao longo dos milénios na sua inútil perfeição.

Não gosto das religiões, é certo. Não gosto da organização, das instituições, dos ditados. Não gosto dos que traduzem a ideia de deus em intolerância e totalitarismo, dos que dividem o mundo em inimigos mortais, dos que prometem esquartejar e queimar todos os que não alinham nas suas hordas (e todos os livros ditos sagrados o fazem). Mas não confundo a noção de deus com os seus auto-proclamados profetas, com os seus instrumentalizadores, com os impérios da fé. Nem com um nome próprio deste ou daquele mito. Não: deus é uma palavra autónoma, desenhada para nomear os mistérios, para configurar tudo o que nos escapa, tudo o que não controlamos, tudo o que é maior que nós, tudo o que é inelutável, tudo o que nos falta. Aquilo a que se chama “uma força de expressão”. Quando digo “por amor de deus”, não estou decerto a dizer que amo uma dividade ou que presumo que o meu interlocutor a ama. Estou apenas a usar uma frase poderosa, uma súplica, um desabafo aculturado. A reconhecer que não bastaria dizer “por amor de mim”, ou “por amor de ti”. Outros usam outros palavrões – eu uso deus. É mais bonito. E se alguém se ofender com isso, paciência. Que deus lhe perdoe.

(publicado na coluna ’sermões impossíveis’ da notícias magazine de 7 de Outubro)

em adenda, duas leituras deste texto.

Comentários

Comentário de ezequiel
Data: 13 Outubro 2007, 16:59

Cara Fernanda,

Tu não és ateia.

Belo texto, a sério. (and I am not kissing ass)

A notícias magazine é a mag do DN??

Comentário de Dário
Data: 13 Outubro 2007, 17:01

Agrada-me a palavra “Cristo”, tem qualquer coisa de poderoso, e de sensual. Gostei especialmente do último parágrafo.

Comentário de ezequiel
Data: 13 Outubro 2007, 17:57

http://www.lastfm.it/music/God+Is+an+Astronaut/+videos/Fragile?lt=a

Comentário de carmo da rosa
Data: 13 Outubro 2007, 18:48

Este texto é a prova irrefutável da existência de Deus. E Deus, como recompensa à nossa devoção por Nossa Senhora, concedeu, logicamente, esta graça a uma mulher. E além disso, achou Deus por bem, que a prova divina fosse escrita em português, em português de Portugal.

Por amor à língua, que Deus a proteja…

Comentário de alx
Data: 13 Outubro 2007, 19:28

Gostei muito deste escrever sem guerra. E se na minha insignificância escrita, várias vezes tenho abanado a cabeça ao que leio de si, “Deus, certamente, a entenderá”, hoje tiro-lhe o chapéu.
Gostei, e pronto!

Comentário de teresa
Data: 13 Outubro 2007, 20:10

lindo!
ateia dos trintas costados?
OK. Dá-te jeito pensar isso…

Comentário de josé Manuel Faria
Data: 13 Outubro 2007, 20:38

Belíssimo post, graças a deus.

Pingback de blogue atlântico » Blog Archive » Uma palavra autónoma, que não pertence a ninguém
Data: 13 Outubro 2007, 22:12

[...] Ezequiel tem razão, é um belo texto da Fernanda. Também concordo que dificilmente um texto como aquele pode ser escrito por um ateu. O ateísmo [...]

Comentário de Patrícia
Data: 13 Outubro 2007, 22:49

um belo texto e uma perspectiva muito interessante.

Comentário de Alba
Data: 14 Outubro 2007, 0:58

Muito bonito, sim. Fiquei com a ideia de que a Fernanda utiliza a palavra “Deus” remetendo para a nostalgia de um sentido inicial, uma paz perdida (edénica?) que perseguimos, sabendo da impossibilidade de alcançá-la. Será? Bom fim de semana :)

Comentário de tric
Data: 14 Outubro 2007, 1:52

eu tambem costumo utilizar a frase ” por amor de deus” mas acrescento sempre mais uma palavra ” poupa-me!!”

este texto está BRILHANTE !!!

Comentário de Prakash
Data: 14 Outubro 2007, 2:02

Bem, lá terei que desembolsar “o cacau” e ir comparar o Diário de Noticias….(com maiusculas…);)…..mas, agora, falando a sério…. o texto é FABULOSO! Parabéns.

Comentário de rvn
Data: 14 Outubro 2007, 2:31

Bom, claro. Muito. Mas tenho para mim que qualquer criação contra a solidão e o vazio, para mais uma admirável obra de arte, já tem utilidade mais que bastante na sua perfeição. Estou enganado? Ou é pouco?
RVN

Comentário de antonior
Data: 14 Outubro 2007, 10:58

Acho que está na altura de ponderar uma candidatura à Presidência da República.

Comentário de António Figueira
Data: 14 Outubro 2007, 11:52

Belo, para variar.

Comentário de Carlos Fernandes
Data: 14 Outubro 2007, 14:29

Belo texto, de facto.

Comentário de carlos c.
Data: 14 Outubro 2007, 17:28

DEUS NÃO DEIXOU NENHUM CÓDIGO RELIGIOSO ESCRITO. CRISTO FOI QUEM REVELOU AOS HOMENS O PENSAMENTO DE DEUS- ALGUMAS DAS SUAS PALAVRAS SÃO DE TEOR POLITICO E SOCIAL INTERESSANTES, MAS MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO DISSE HÁ TEMPOS QUE QUE A CASA DE DEUS TEM DE SE ACOMODAR À CASA DE CÉSAR. VALHA-ME DEUS, QUE OS ARAUTOS DE CRISTO FORAM SEMPRE IGUAIS

Comentário de José Teófilo Duarte
Data: 14 Outubro 2007, 18:43

A ideia de deus é uma grande ideia. Sentirmos protecção e justiça exercidas por uma entidade superior é reconfortante, de facto. Só que nunca tal senti. Muito pelo contrário, a hipocrisia da religião - voz de deus junto dos humanos - só dá para desconfiar desse amor de deus por nós. A voz que mais se faz ouvir é: A minha religião é melhor do que a do meu vizinho e por isso vou ali ver se ele se converte ou então dou cabo dele. É dificil encontrar a verdadeira voz de deus. Provavelmente deus não é de meter conversa.

Um excelente texto, Fernanda.

Comentário de CAA
Data: 14 Outubro 2007, 18:58

Excelente.

Comentário de menino mau
Data: 14 Outubro 2007, 19:02

“Não gosto das religiões, é certo”. não gosto de religiões ou de uma religião em particular Fernanda?

Comentário de LPedroMachado
Data: 14 Outubro 2007, 21:09

Se gosta da palavra “Deus”, então use-a correctamente, i.e. com inicial maiúscula.

Comentário de alx
Data: 14 Outubro 2007, 23:54

porque é que se continua a marretar na ideia de um Deus “protector”… aliado dos crentes… etc… O Cristianismo já está a léguas dessa visão restritiva… se querem ser ateus ou outra coisa qualquer… estudem!!! E algumas pessoas muito. E no caso da fernanda, e eu já disse que até gostei do texto, dá jeito essa simpatia para com deus, nem que seja para malhar nos que não têm medo de professar que acreditam em Deus!!!

Comentário de Maria Marques
Data: 15 Outubro 2007, 0:47

Um texto bonito. Tanto que até me aventuro a dar duas razões para o ateísmo da Fernanda: uma embirração forte com a Igreja Católica e a convicção de que a ideia de Deus é bonita e boa de mais para ser verdadeira.

Enfim, ri-me um bocado quando li que a Fernanda não queria eliminar Deus, sabendo-se como a incomodam as manifestações públicas de fé. Mas com tanto fervor ateísta e tanta preocupação com a Igreja Católica (para lhe dar sopapos), garanto-lhe que não ficava nada surpreendida se soubesse um dia que se tinha convertido.

(Cá vim eu aqui embaraçar-me publicamente, mas apenas para a Fernanda brilhar, que esta malta que acredita no amor a Deus e ao próximo tem destas coisas).

Comentário de ondevaisorioqueucanto
Data: 15 Outubro 2007, 9:27

Eu passo a vida a dizer a palavra “merda” quererá isso dizer que ando obsecado com ela? Ou simplesmente que vejo a merda como algo exterior, totalizante - por que não apaziguante? - que fornece sentido para os meus desabafos?
A Fernanda começa a coisa pelo lado inverso, a meu ver. É justamente porque considera Deus tudo isso - o ser tutelar que está presente nos bons e maus momentos e que serve de consolação para a contingência da vida - que passa a vida a repetir o ai meu deus! e para além disso a atribuir-lhe sentido. Porque uma coisa é repetir uma palavra faticamente outra coisa é achar que ela tem um significado indexável a um sistema de sentido que lhe é complementar, antagónico, superior, etc - Neste caso esse sistema de sentido chama-se religião. Ora a palavra Deus só pode adquirir um sentido totalizante dentro do sistema de sentido religião. O que a Fernanda se esquece é que a sua invocação não surge no vácuo, espécie de tabula rasa a que apenas os mistérios da consciência responderiam - sendo estes apenas explicados pela crença em deus. Pelo contrário, a Fernanda fala de um ponto de vista culturalmente induzido. O seu texto suscitou reacções interessantes por parte dos crentes. regozijaram-se ao encontrarem um ateu, neste caso uma ateia, que respeita a invocação de deus - e aqui o aspecto que importa reter é o “respeito”. Aproveitaram a oportunidade imediatamente para dizer ora aqui está a prova da imensidão dos desígnios divinos: um ateu que se prostra perante a grandeza do inominável!
O verdadeiro ateísmo terá que dizer que não existe nenhuma transcendência na invocação de deus. Que é um signo, deslocxável como outro qualquer e que ao pronunciá-lo devemo-lo fazer independentemente de sermos ateus ou religiosos. É esta distância perante o sistema de sentido que está associado à palvra deus - sistema religioso - que o ateu tem que conquistar. Assim como dizer “merda” nãoi implica que se seja coprofílico.

Comentário de joséjosé
Data: 15 Outubro 2007, 9:32

Com tantos a concordar, só tenho que discordar…

Comentário de Mariana
Data: 15 Outubro 2007, 10:17

repetindo o que já foi dito: belíssimo, Fernanda.
quando o li na nm até fiquei com pena de si. my first thought: “vai receber poucas cartas a queixarem-se do D/deus, vai”.

Comentário de Patrícia D.
Data: 15 Outubro 2007, 12:04

…Bless you, f!
Texto e contexto excelentes!
Também o meu avô - homem da geração da I República e ferroviário - dizia que era ateu “graças a Deus”.

Comentário de Nuno Blanco
Data: 15 Outubro 2007, 12:32

Gostei especialmente do pormenor de escrever deus com minusculas, que é como deve ser.
Esta necessidade psicológica de acreditar em algo tem a sua piada, mais não seja pelo desvio no alvo que essa necessidade pode sofrer.
Pode até acontecer rejeitarmos de tal forma esta ideia de deus, de acreditarmos de tal forma em nós próprios que nos tornamos nós próprios deus. Acontece-me muito isso. Eu, por exemplo sou conselheiro espiritual de deus. Um ser imortal como ele que não sai do céu? Um gajo que tem os poderes que ele tem? Fogo… por amor de deus… (ya, ya, piada fácil)
E depois, acreditar em deus, acarreta acreditar no pólo oposto. O diabo. Mas este então ainda é mais fraco do que o outro. Nunca percebi a piada de gostar do diabo se no fim ele perde.

Comentário de TFM
Data: 15 Outubro 2007, 12:52

Sim, “Ai meu Deus!”, “Deus nos livre!” “Ai minha nossa Senhora!”… São apenas expressões, nada mais. Se calhar até para quem crê, dizer “Ai meu Deus!” nada mais é que uma expressão, sem qualquer significado específico. Não creio que naquele momento a pessoa que a profere esteja a pensar em algo muito concreto.
Eu até digo com muita frequência, em algumas circunstancias: “Ó, Santo Tirso!”, e acreditem que, por ignorância, nem sei quem foi o Tirso que ficou Santo.

Comentário de M. Abrantes
Data: 15 Outubro 2007, 14:23

“deus” ou “deuses” é uma brilhante primeira proposta para nos tentar explicar quem somos, de onde vimos, para onde vamos (indagações que nos atormentam a todos, nem que seja uma vez na vida). Mas com o passar do tempo, a sua insuficiência como teoria vai desmaindo esse brilho. Há 300 anos a esmagadora maioria dos cientistas que a história guardou do esquecimento (talvez até todos eles), criam num ou mais deuses . Hoje parece que 70% dos biólogos dos eua são ateus. A idade do universo ser os bíblicos 6000 anos é hoje uma ideia tão razoável como a lua ser feita de queijo. Mas o desconhecido é infinitamente perene. Há sempre espaço para deus. Assim este consiga reinventar-se.

Comentário de ondevaisorioqueucanto
Data: 15 Outubro 2007, 14:38

Para aprender a gostar do diabo (enquanto personagem, entenda-se) é ler The Master and Margarita do Bulgakov. Se isto não é a mais impagável experiência de o Diabo por terras dos mortais, não sei o que será!!!

Comentário de Maria Marques
Data: 15 Outubro 2007, 15:02

Nuno Blanco, necessidade, necessidade tenho eu de lhe dizer que se devia informar mais antes de mandar bocas sobre aquilo em que acreditam os católicos e sobre as concepções católicas de diabo, aliás fruto de algumas discussões interessantes (para quem goste do assunto, que o diabo agora não está muito em voga). O que os católicos não acreditam é que o diabo é o polo oposto a Deus; pelos vistos não sabe mas o cristianismo não é uma religião dualista.

Comentário de Filipe
Data: 15 Outubro 2007, 16:53

Mas causa alguma atrufia parece-me. O que me faz confusao no pouco que conheco das religioes mais comuns eh o facto de para chegarmos ah mesma conclusao usemos caminhos que quanto a mim sao confusos do ponto de vista pratico. Secalhar eu acredito em mim e nas minhas capacidades, outros precisam de ter fe’ ou acreditar em algo que os transcende para se sentirem bem, eu simplesmente actuo. Compreendo que os objectivos sejam os mesmos, se eu tiver uma importante corrida amanha, se for crente em algo, deposito parte da minha concentracao numa reza, numa fe, num deus que me vai dar forca, se eu nao for crente, muito possivelmente sei o que treinei, sei o que sou capaz e que vou dar o maximo, sabendo que so de mim depende. A conclusao que retiro eh simples, eh mais facil pensar que alguem nos pode ajudar do que nos acreditarmos que podemos resolver por nos proprios.
Isto eh um post simples com ideias simples.

PS. teclado em ingles, dai a falta de acentuacao.

Comentário de Nuno Blanco
Data: 15 Outubro 2007, 16:54

Maria Marques, tudo orbita no fundo no dualismo. E para perceber bem o que digo recomendo-lhe, nem de propósito, o livro mencionado no post: Margarida e o Mestre.
Ainda assim, fruto das “discussões interessantes” como lhe chama, Carl Jung, discipulo de Freud, considerava que a ideia de Bem do ponto de vista religioso tinha 4 elementos: Deus pai, o filho, o Espirito-Santo e o Diabo. A união dos contrários. Deus ele próprio tem que ter forçosamente o mal em si. Como explicar a ira divina?Os católicos não acreditam no diabo enquanto pólo oposto a Deus? A Biblia fala na batalha final, no Apocalipse e não é o pólo oposto? Todas as religiões fazem isso e como diz uma amiga minha “Freud explica”. A Inquisição o que foi? Deus não gosta, Deus não aprova…

Comentário de rvn
Data: 15 Outubro 2007, 22:13

nuno blanco:

Excelente ponto de vista. E nós, feitos à imagem de Deus, somos nós e o nosso contrário. Ou não?

rvn

Comentário de Maria Marques
Data: 15 Outubro 2007, 23:23

Nuno Blanco, desculpa lá mas isso está uma grande confusão. As discussões interessantes que eu referi são dentro da Igreja, não de psicólogos, filósofos ou outros que podem tentar esquematizar a fé e a ideia de bem, mas que não a vivem e não a entendem. De qualquer forma, até aceito que no cristianismo popular (chamemos-lhe assim) a Deus se contraponha o diabo; isso não quer dizer que seja essa a visão teológicamente certa. Não é. Um católico pode nem acreditar na existência de diabo - eu pessoalmente penso que é uma personificação criada para se lidar com o mal - que isso não tem importância nenhuma.

Quanto a iras divinas (vou presumir que esteja a falar de cenas do Antigo Testamento) e ao Apocalipse, apenas lhe posso dizer que não faça leituras literais da Bíblia, que saiem sempre erradas. O Apocalipse quer dizer muita coisa e muito pouco do que há 1ª vista pensamos; o AT é composto de livros alguns deles escritos há 20 séculos, pelo que é de ter cuidado lê-los como se tivessem sido escritos ontem.

De qualquer forma, não, o cristianismo não é dualista. Mas se quiser pensar que sabe mais do que eu sobre aquilo que eu acredito, sinta-se à vontade.

Comentário de Maria Marques
Data: 15 Outubro 2007, 23:36

Meu Deus, mais outro paternalista…

Caro Filipe, os crentes não acreditam em Deus porque precisam ou têm algum défice de auto-estima. E menos ainda porque pensam que com Deus conseguem ter melhores notas, melhores resultados desportivos e por aí fora. Quem reza em vez de trabalhar ou estudar não é católico: é parvo. (Quando vê os jogadores de futebol benzerem-se antes de entrarem no relvado, isso é um acto de superstição, não de crença em Deus. )

Se calhar a diferença é que um católico não se satisfaz (ou não deveria) com notas, ordenados, resultados desportivos, promoções,… A fé de um católico deve dar fruto para os outros; um católico não pode nunca ser uma pessoa fechada em si próppria e com objectivos puramente egoístas (mesmo que legítimos). E aí, sim, um católico precisa de Deus, não se basta a si próprio.

Comentário de rvn
Data: 16 Outubro 2007, 0:31

Maria, não levará a mal que lhe diga duas coisas: a primeira é que eu próprio escolho as paredes onde me encosto, por norma que não conhece saldos para católicos, protestantes ou budistas. As etiquetas escorrem-me na pele por alergia antiga, coisa que vem de garoto. Por isso, quando concordo ou discordo sou frontal e assumido. Quando converso, gosto da esgrima dos argumentos, o que muitas vezes escapa a quem vai com pressa e de olhos fixos naquilo que julga saber.
A segunda coisita é mais rápida. A minha relação com Deus é à prova de apóstolos que têem certezas inabaláveis sobre a fé, venham eles aos pares e de camisa branca, porta em porta, ou de dedo beato em riste gritando que só eles sabem tudo sobre aquilo em que, não só acreditam, como acreditam que devem fazer os outros acreditar.

Fora estes dois pormenores, gostei de saber que pensa que «um católico não pode nunca ser uma pessoa fechada em si próppria e com objectivos puramente egoístas (mesmo que legítimos)». Presumo que seja … hindu, talvez?

rvn

Comentário de rvn
Data: 16 Outubro 2007, 2:05

e quem é que pôs aquele ‘e’ no meu ‘têm’? Fui eu?

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 16 Outubro 2007, 13:21

temo bem de que, rvn.

Comentário de DNM
Data: 16 Outubro 2007, 14:26

Todos a falarmos de “Deus”, como se compreendesse-mos do que falamos. Lamentável!
Ai meu deus!
Siiiimmmm!??
Valha-me deus.
Heecck!!!
Já agora, como isto descambou para o domínio do inexplicável e andamos numa de celebrações Marianas, que tal visualizarmos o famoso “milagre do sol”??? …desta vez em Medjugorje em Junho de 2006.
http://www.youtube.com/watch?v=phHvoX_rQwQ
Observem os vários vídeos, sem infusões, induções e impregnações da nossa cultura judaico/cristã…e depois expliquem-me.
Dispenso análises científicoObtusas.

Comentário de rvn
Data: 16 Outubro 2007, 15:34

touché.

Comentário de carmo da rosa
Data: 16 Outubro 2007, 15:51

@ maria marques

Duas grandes verdades num só post! é obra…

‘Quem reza em vez de trabalhar ou estudar não é católico: é parvo.’

‘Quando se vê jogadores de futebol benzerem-se antes de entrarem no relvado, isso é um acto de superstição, não de crença em Deus.’

Sempre achei estranho ver o João Pinto e o Sérgio Conceição (entre muitos outros) benzerem-se antes de entrar em campo e nunca consegui arranjar uma explicação plausível…

Minha senhora, muito obrigado.

Comentário de Lololinhazinha
Data: 16 Outubro 2007, 17:48

Fernanda Câncio na sua melhor forma!

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 17 Outubro 2007, 0:34

coisa mais linda, tanta gente reunida. oremos, pois.

Comentário de rvn
Data: 17 Outubro 2007, 21:13

amen

Comentário de Nuno Blanco
Data: 18 Outubro 2007, 10:32

Só tentei demonstrar que Deus/ Diabo é a personificação religiosa da luta do Consciente e do Inconsciente.
Não acho que por isso seja paternalista.
E não caia no erro de só aceitar opniões de crentes, porque “Só nós é que sabemos”. Isso é que é ser paternalista.
Concordo plenamente com a frase “Quem reza em vez de trabalhar ou estudar não é católico: é parvo.”
Eu respeito as suas crenças, mas isso não quer dizer que esteja de acordo com elas.
Já pensou que a verdadeira liberdade pode ser a ausência de Deus?
Mas pronto, a sua resposta deve ser a liberdade é deus. Não vamos andar aqui a postar “ad eternum”.
Posso-lhe mandar um beijinho?

Comentário de artur santos
Data: 18 Outubro 2007, 12:30

Bom dia.

Eu também acho muita piada à palavra “deus”… Creio que costuma ter uma “significação” razoavelmente simpática.

Alguém já lhe chamou - o meu ser - a minha luz, o meu ar, a minha água, o meu alimento… A minha natureza, o meu amor… E até o meu semelhante, que me tem ajudado a viver.

Enfim, quando falam de “deus” - fico bastante interessado - em saber do que realmente falam…

Amem.

Comentário de Citadina
Data: 18 Outubro 2007, 13:02

Ora nem mais! Também eu utilizo essas expressões pelas mesmíssimas razões. Agora muito me surpreenderam alguns comentários ao texto. (Ou talvez não). Entre histerias várias, dualismo, criacionismo e cegueira, há muita gente com uma dificuldade surpreendente em aceitar o seu - e o meu - ponto de vista, Fernanda, ou convicção, como lhe queiram chamar. E porquê? Porque as convicções delas são melhores que as nossas, deve ser.
Essas pessoas procuram em tudo, mesmo nos locais mais improváveis, prova da existência de deus. E como se não bastasse, vêem-na em todo o lado e são capazes de chegar a argumentar qualquer coisa como que a falta de prova é a prova em si.
Porque será assim assim tão difícil de aceitar que certos conceitos, lá por estarem definidos e estruturados, não têm necessáriamente que se traduzir em verdades absolutas?

Comentário de artur santos
Data: 19 Outubro 2007, 18:55

Já que a conversa sobre “deus” continua - então eu considero legítimo acreditar - que existem muitas pessoas a “simpatizar” com essa tão controversa e estranha palavra. Mesmo que algumas, sejam “ateias” dos quarenta costados.

“Enfim, quando falam de “deus” - fico bastante interessado - em saber do que realmente falam…”

Estou em crer que - que a palavra “deus” - está sujeita a forte inflação semântica.

Há uma imensa Humanidade, que responde ao ouvir essa palavra, incluindo “os malucos do riso” e outros de estilo mais ou menos semelhante.

Digo isto porque… Parece-me… Nem todos pensam o mesmo, quando a utilizam. E quando se explicam, verificam-se os mais fantásticos mal-entendidos. Que sinceramente acho absolutamente divertido.

Depois de aparecerem pessoas como “Descartes e Espinosa”, que escreveram - o que muita gente conhece - fica muitíssimo difícil, demonstrar quem realmente é, ou não “ateu”. Uma vez, que no meu entender um dos significados mais simpáticos, que eu encontro para a palavra “deus” é justamente Natureza.

Amem

Pingback de Ver com a língua « a mansarda
Data: 20 Outubro 2007, 21:04

[...] um plano maior de uma entidade suprema. Ou podemos aceitar que deus é a personificação do acaso (uma figura de estilo), e procurar soluções para as arbitrariedades da criação. O Brainport é mais um caso para se [...]

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[...] soberbo christopher Outubro 21, 2007 | por Fernanda Câncio postado pelo meu soberbo pedro sobre o assunto em causa, claro. [ [...]

Comentário de vieira
Data: 6 Janeiro 2008, 16:29

É muito bom. Adoptar Cristo em nosso coração, deve ser uma das nossas prioridades.
vieira
http://entreaterraeoceu.blogspot.com/

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