Discos novos para a rádio Class

A rádio Class (FM106,2) é o que há de mais parecido com um serviço público de radiodifusão na área da grande Lisboa. Tirando um par de horas em que põe a sua antena ao serviço de uma igreja universal qualquer da margem sul (uma manifestação do “eterno religioso” para que temos de estar preparados, mesmo se surge numa versão sul-americana mais pitoresca do que é costume), a rádio Class nunca fala, só dá música; desta forma exemplar, celebra a vitória da música sobre o verbo, e em particular sobre o verbo incontinente dos nossos radialistas.

Num mundo ideal, a música seria escolhida por telepatia e chegaria até aos nossos ouvidos por um canal privativo, devidamente insonorizado para os demais; neste mundo menos que perfeito, onde coexistimos com tarados, maçadores e televendedores, temos de aceitar que alguém ponha a música por nós e confiar na bondade do acaso: eis a beleza da rádio.

A rádio Class (será assim que se escreve, o diminutivo de “clássica” e não o segundo termo da expressão “luta de classes”?, espero bem que sim) já foi melhor; chamava-se então rádio Luna (também não sei porquê) e passava, alternadamente, três faixas de jazz e três trechos de música clássica (às vezes um bocadinho pompier demais para o meu gosto, mas ainda assim audíveis). Hoje, quase que passa apenas música popular americana, quase sempre boa (uma excepção notória é o “Don’t Cry For Me Argentina”, que também passa de vez em quando e exige que eu tenha um CD sempre à mão para fazer frente à eventualidade) mas a partir de uma discoteca que, de tão exígua, passou praticamente a familiar.

Em minha casa, já toda a gente sabe de cor os discos da rádio Class. Ajudam imenso o inglês das crianças, que sabem cantá-los a todos, e tornam a vida mais previsível e menos acidentada. Mas é preciso admitir também que se tornaram um enjôo. Se eu quisesse viver sempre ao som dos trinta discos da rádio Class tinha ficado em funcionário público, a tratar da vidinha videirinha. É preciso comprar discos novos para a rádio Class.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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5 respostas a Discos novos para a rádio Class

  1. Luís Lavoura diz:

    “nunca fala, só dá música”

    Para mim isso é o modelo perfeito daquilo que uma rádio NÃO deve ser.

    Se há coisa que falta em Portugal em geral, e na rádio em particular, é precisamente mais palavras, mais discussão, mais opinião e contra-opinião. É aliás essa a diferença mais crucial entre Portugal e a Espanha. E o resultado está à vista – enquanto que Portugal se afunda, a Espanha progride. Porque os espanhóis discutem, opinam e interagem – enquanto que os portugueses ouvem música.

  2. António Figueira diz:

    Eu é que estou a dar música, LL, não me leve a sério que não vale a pena.

  3. Ana Matos Pires diz:

    Credo, Luís Lavoura, sempre tudo à séria, tudo à séria. Olhe a úlcera do duodeno, senhor, cuidado.

  4. rvn diz:

    Don’t cry for Class, ó Figueira! A diversidade é tão desejável no étèr como no álcoòl, ou quase… Olha se por gostarem todos do sabor, fosse instituída a Amarguinha e abolido o Jameson!
    Mas comprem discos novos, claro. Afinal, a diversidade…

    RVN

    (e parabéns pelo inglês dos pequenos cantores)

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