Do comércio dominical, vespertino e tradicional

O tema não é novo, a discussão não é recente. Mas a cada Domingo, relembro-o. E às vezes fico mais agastada, outras vezes fico menos. Refiro-me à obrigatoriedade legal de encerramento das grandes superfícies aos Domingos, a partir das 13h.
Acontece que esta proibição legal de funcionamento vespertino e dominical, encontra razão de ser na protecção do comércio tradicional, que se veria esmagado pelas grandes superfícies se assim não fosse. Será? Alguém me diz onde é que há um estabelecimento de comércio tradicional aberto aos Domingos? Excepção feita aos centros comerciais e a alguns supermercados – que não são «tradicionais» – não encontro estabelecimentos comerciais em dinâmico funcionamento…
O resultado é a ausência de protecção jurídica ao dito comércio tradicional – uma vez que os próprios comerciantes tradicionais abdicam dessa tutela, não laborando nesse horário que legalmente lhes é reservado – e a ausência manifesta de alternativas para o consumidor. O Direito só deve ser proibitivo de comportamentos em nome de um dado valor que justifique a limitação da liberdade. Não encontro um valor efectivo, neste caso.
Assim sendo, para além do pedido de informação cartografada relativa à geografia de estabelecimentos de comércio tradicional eventualmente abertos ao Domingo à tarde, pergunto se alguém terá à mão uma daquelas petições que circulam na net, pela liberalização do horário de funcionamento das grandes superfícies? É que numa segunda-feira, ainda fresca a busca gorada, eu assino de bom grado…

Sobre Marta Rebelo

QUINTA | Marta Rebelo
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35 respostas a Do comércio dominical, vespertino e tradicional

  1. Luís Lavoura diz:

    Excelente post. Tal como a Marta muito bem diz, não havendo estabelecimentos de comércio tradicional (seja lá o que isso fôr – parece que uma loja de bugigangas é comércio tradicional se fôr pertença de portugueses de gema e raça, mas não é comércio tradicional se pertencer a um tipo de tez acastanhada ou de olhos em bico) abertos ao domingo, não há nenhuma realidade concreta a proteger. Logo, a proibição não faz sentido.

    (Não trabalham nem deixam trabalhar, essa é que é a realidade.)

  2. Ezequiel diz:

    “O Direito só deve ser proibitivo de comportamentos em nome de um dado valor que justifique a limitação da liberdade. Não encontro um valor efectivo, neste caso.”

    aqui valor parece = ausência ou presença de alternativas para o consumidor e liberdade = à existência de alternativas ou opções

    certo? só para clarificar (antes de criticar)

  3. O ridículo é que, e ao contrário do que diz no artigo, até há quem tenha descoberto rendibilidade na protecção. Na região da Grande Lisboa, quer na Damaia quer no bairro de Alvalade, há comércio “tradicional” que extendeu o horário de abertura para a hora de almoço e até às 20h00 e alguns também abrem ao domingo.

  4. O 5 dias está a lançar uma cruzada a favor da abertura dos hipers ao domingo? Depois do artigo da Fernanda Cãncio sobre o assunto, parece-me que sim. Pelas razões já duzidas no comentário que fiz ao artigo da FC, renovo a minha apreensão quanto ao apoio dado ao egoísmo dos consumidores. Não condiz nada com o espírito deste blog. Fico triste!

  5. ondevaisorioqueucanto diz:

    E que tal a Marta dar o exemplo e arranjar um ganchozinho num pequeno supermercado de bairro e aparecer por lá de “caixa” aos domingos?

    “a ausência manifesta de alternativas para o consumidor” – ora aqui está uma causa que merece ser levada a sério pela esquerda, mesmo a mais modernaça!

    Haja queques na esquerda, porque eles já andavam a rarear na direita.

  6. A.Silva diz:

    Em relação á não abertura dos hipermercados ao Domingo á tarde o que eu tenho a dizer é que nesse periodo só deviam funcionar os serviços indispensáveis á comunidade,tais como hospitais,transportes,etc.Aqui deve ser levado em linha de conta não o interesse egoista dos consumidores,mas o direito a que os trabalhadores passem pelo menos uma tarde por semana com a familia.É aqui que está o valor efectivo

  7. 1. É bom que haja regras quanto aos horários do comércio.
    2. A regra deve ser a mesma para todas as lojas, grandes ou pequenas.
    3. A regra deve ter em conta os interesses de todos os envolvidos, incluindo os empregados das lojas e as suas famílias.
    4. Se da regra resultar que não se possa fazer compras às duas da manhã ou aos domingos, paciência: a civilização tem os seus custos.

  8. Luís Lavoura diz:

    A.Silva,

    concordo consigo em que a lei sobre os horários do comércio, a existir, deve ser a mesma para todos. No entanto, faço notar que o domingo não é um dia privilegiado. Para os judeus o dia privilegiado é o sábado, para os muçulmanos é a sexta-feira. Por que raio é que um trabalhador muçulmano deve ser proibido de trabalhar ao domingo?

    Faço também notar que há em Portugal montes de imigrantes que não têm família cá. Para eles, o melhor serviço que podem fazer à sua família é trabalharem muito, para ganharem muito dinheiro e poderem enviar à família, que ficou lá longe, muito dinheiro. Muitos e nobres exemplos não faltam, e não será preciso lembrar muitos portugueses que já estiveram, ou ainda estão, nas mesmas circunstâncias, em países estrangeiros.

    Deixem trabalhar quem quer trabalhar. E abulam os feriados, que também não têm razão de ser. Cada um deve ter o direito de fazer feriado apenas nos dias que para si têm significado especial.

  9. xatoo diz:

    “a proibição legal de funcionamento vespertino e dominical, encontra razão de ser na protecção do comércio tradicional”?
    acho que não – pretendia, não fora os interesses dos belmiros, impedir a estupidificação dos portugueses. Mas aproveita para disponibilizar tempo para assimilar outra estupidificação, de outra espécie: não estivessem os supers encerrados ao domingo, ninguém iria à missa. (na verdadeira acepção do termo). Assim, penso que este é um problema entre as multinacionais do consumo supérfluo e a igreja católica. Entre uns e outros, venha o diabo e escolha.
    A titulo pessoal sempre vou dizendo que não entro nesse tipo de merdas, nem ao domingo, nem aos dias de semana.

  10. Carlos Fonseca diz:

    A Marta Rebelo é uma docente competente da FDL, segundo estou informado. É, pois, natural que as suas opiniões se centrem, em grande parte, no domínio do Direito no tocante ao comércio moderno e tradicional.
    Não toma em conta outros âmbitos, igualmente de impacte da abertura das lojas da grande distribuição ao Domingo. Como argumentei junto da Fernanda Câncio, e excluindo os fundamentos religiosos que para mim são de terceiríssima ordem, existem questões de ordem sociológica e económicas, estas de sentido neoliberal, que acabam por favorecer os grupos da distribuiução moderna e já causaram no País situações bastante adversas para certos operadores económicos que não apenas aqueles que se integram no comércio tradicional. Refiro-me, em particular, a algumas indústrias trucidadas pelas condições leoninas, cuja prática tem sido permitida pelos poderes políticos. Já ouviu falar da Sociedade Nacimal de Sabões, da Fábrica Nacional de Margarina, da Sonadel, da Uniclar – as duas últimas do ex-grup CUF/Quimigal – e de outras unidades que pura e simplesmente se extinguiram, perdendo-se em simultâneo postos de trabalho e posição da produção nacional ?
    Já se informou devidamente de como são conduzidas as negociações para introduzir um produto em linha nas grandes superfícies e da facilidade com que os grupos da grande distribuição os retiram , depois de receberem muitos milhares de euros ? Tente informar-se junto de eventuais amigos que conheça e tenham essa experiência. Não única, é uma das razões do elevado nível de desemprego com que nos debatemos. A pequena cidade de Ponte de Sôr – salvo erro, com cerca de 17500 habitantes -tem 4 supermercados abertos ao Domingo: Modelo, Feira Nova, Intermarché e Lidl. Chega ou qerem lá colocar mais um Continente, um Auchan e um Carrefour ? Este passará em breve a Continente, segundo permissão da Autoridade da Concorrência favorável ao alto grau concentração e domínio do grupo do Eng.º Belmiro.
    As decisões sobre as licenças concedidas à grande distribuição não se confinam aos domínios do Direito ou da Fiscalidade – não existem deslocalizações de ‘hipers’, motivo por que o seu companheiro Prof. Saldanha Sanches não será convidado da ‘SIC Notícias’ para comentar o tema. A questão é de outra natureza: é a Economia … !Mas assine, porque, além de tudo, o mal já está feito e não tem regresso. Mais assinatura, menos assinatura, é indiferente. Restam questões dos princípios e da moral, mas essas em política (à portuguesa, em particular) cada vez menos contam.
    Desde Blair que socialismo ou social-democracia e neoliberalismo são ideologicamente coisas indistintas. E Sócrates sabe-o bem. O Estado Social de carácter europeu é uma quimera, excepto lá mais para o Norte do Continente.

  11. Filipe diz:

    Que eu me lembre na minha zona o UNICO comercio “tradicional” que se encontra aberto aos domingos eh o Pingo Doce, de resto nem cafés nem nada que se veja de tradicional.

    Existe qualquer coisa contra os fins de semana poderem ser produtivos, para quem quer comprar e para quem quer vender / trabalhar.

    Ja com os transportes publicos eh a mesma coisa,
    Eu trabalho ao domingo, alias eu trabalho de noite, eu trabalho aos feriados, eu trabalho em dias festivos, eu trabalho por escalas.
    Quando trabalho aos fins de semana e feriados, apanho com transportes em Lisboa, para turista ver, tudo a demorar o dobro do tempo, como se a cidade gostasse de dizer a quem trabalha, “temos pena, estamos fechados para voces”.

    O que eh certo eh que secalhar nesses dias, do tipo o domingo de descanso, se existisse a hipotese de contratar pessoas que queiram trabalhar, porque nao?

    So porque a maioria se recusa, ainda existe quem queira ser produtivo e util, fazendo crescer o seu orçamento.

  12. luis eme diz:

    A única vantagem que encontro no fecho das grandes superfícies ao domingo à tarde, é a “folga” dos seus funcionários.

    Agora a história da protecção ao comércio tradicional não faz qualquer sentido.

  13. filinto diz:

    Ainda bem que ninguém se lembrou de dizer que tinha sido o lóbi chinês a impor as suas regras, porque, de facto, as únicas lojas que vejo abertas ao domingo à tarde são as chamadas “lojas dos chineses”. Penso que a “lei dos hipermercados” deveria ser ainda mais apertada em Portugal, como acontece noutros países, e esse abaixo-assinado pela abertura ao domingo à tarde parece uma inanidade de quem não sabe viver senão articulado como uma marioneta, apesar disso, se se pretende defender o comércio tradicional tem de ser com outras medidas, nomeadamente medidas tomadas pelo próprio comércio tradicional. Uma delas, lá está, abrir ao domingo à tarde. Quem sabe se não seria apenas para aturar os “passeios dos tristes” e quem sabe se não seria para lucrar e ajudar a criar novos hábitos nos centros habitacionais? Os chineses estão a fazê-lo.

  14. Luís Lavoura diz:

    Carlos Fonseca,

    é verdade isso que Você diz sobre as práticas leoninas da grande distribuição. Mas, o que é que isso tem a ver com a abertura aos domingos? Se se acha que a grande distribuição é prejudicial, muito bem, então proíba-se toda ela. Decrete-se que são proibidas grandes lojas. Agora, permitir isso e depois dizer que têm que fechar ao domingo à tarde, é ridículo.

    Já agora, os hipermercados são consequência direta da automobilização da sociedade. Enquanto houver automóveis em massa, haverá a tendência para grandes superfícies comerciais às quais se acede de automóvel. Isto nada tem a ver com práticas leoninas da grande distribuição. As pessoas querem ter hipermercados porque têm automóvel e, com ele, é-lhes prático fazer de uma só vez compras para uma data de dias. E então é prático ter uma loja grande que tenha tudo. Os hipermercados só acabarão quando a maioria das pessoas não tiver automóvel e tiver que fazer compras a pé, como se fazia há 40 anos atrás. Indo a pé, as pessoas só podem carregar poucos quilos e pouco volume, e o comércio tradicional voltará.

  15. Marta Rebelo diz:

    Caros, eu limito-me a manifestar a minha opinião. Não tenho qualquer inclinação especial «pró» grandes superfícies, e menos ainda qualquer problema com o chamado «comércio tradicional». Agora, meus caros, sem ilusões: quem não tenha hipótese de fazer umas prosaicas e elementares compras de mantimentos e outros bens básicos durante a semana, e pretenda utilizar o fim-de-semana para o efeito, não encontra qualquer estabelecimento de «comércio tradicional» aberto. Eu, tirando o tal «Pingo Doce», não encontro nenhum. E se o objectivo principal da restrição legal é proteger este comércio que não comercia, lamento, mas continuo potencial assinante de uma qualquer petição.

    Naturalmente, a minha assinatura numa petição não eleva, muito longe disso, qualquer questão ao estatuto de causa.

    O que me leva ao leitor que dá pelo epíteto «ondevaisorioqueucanto», e que não deve ter lido bem o post que escrevi: onde é que, em qualquer momento, eu falo da elevação desta questão ao estatuto de «causa»?!
    E, já agora, que tal dar o exemplo e arranjar um ganchozinho e utilizar as caixa de comentários para praticar outro género argumentativo? Ou utilizar o seu, mas à transparência? É que eu acho sempre de tom dúbio fazer o tipo de apontamentos que faz, e não dar sequer pelo nome. É fácil utilizar o anonimato em nosso favor.

  16. Escrevi no meu blog um post que começa assim:
    Os indígenas da Melanésia sentiam-se maravilhados com os aviões que passavam no céu, mas desolados porque só os brancos os conseguiam apanhar. Tendo chegado à conclusão que isso se devia ao facto de os brancos possuírem no solo objectos idênticos àqueles que cruzavam os céus, os indígenas construíram simulacros de avião com ramos e lianas, delimitaram um espaço que iluminavam durante a noite e, pacientemente, aguardavam que os aviões ali viessem cair.
    Não consta que a prática tenha dado grandes resultados, ignorando-se se por inépcia dos indígenas, se por esperteza de quem tripulava os aviões. A verdade, porém, é que as grandes cadeias de supermercados e megastores parecem ter sabido aproveitar o exemplo dos melanésios e…( para ler o resto ver cronicasdorochedo.blogspot.com)
    Tenho mais posts sobre o tema e como verá, cara Marta Rebelo, tenho razões profundas para ser contra. Não por protecção ao comércio tradicional , mas entrte muitas outras razões por protecção à vida familiar. Não creio que o nosso egoísmo, enquanto consumidores, justifique a abertura. Não chegam seis dias por semana 15 horas por dia, para fazermos as “compritas” do fim de semana? Além disso, só no meu bairo ( para além do Modelo e Pingo Doce) existem pelo menos 6 mercearias abertas até às 13 horas. Porquê defender a abertura das gdes superfícies? Francamente, não entendo

  17. ondevaisorioqueucanto diz:

    Pronto, a Marta apanhou-me. Já se percebeu que aqui medra um pouco a mania da perseguição. O meu tom não tem nada de dúbio e em nada mudaria caso eu me identificasse como jaquim, ou já agora Lazarilho de Tormes. Mas se quiser é ver no email que por sua vez dá pó blog que por sua vez traz o meu nome – novamente um pseudónimo helas! Mas que fantasia essa de achar que um nome revela uma identidade. No meu caso nada podia estar mais longe da verdade.
    Dito isto, e escrevendo agora sob o nome de jaquim, digo e mantenho: mas que porra de causa que está aqui a ser levantada!
    A Marta usa um artifício retórico. Diz: mas quem é que falou em causa, se eu não escrevi isso em lado nenhum! Não é preciso ser nenhum causídico para perceber que quando se propõe um abaixo-assinado se extravasa largamente o nível da simples discussão de café; ou seja, trata-se de uma etapa à frente da modesta arte de opinar. Ora aqui está a causa.
    Reconheço que o “queque” é conjuratório – difamatório, se quiser, o que eu reputaria de um tanto exagerado. Porém, nem sequer tinha a intenção de ofender. É um exercício escorreito: há causas queques e há causas justas. Como se torna cada vez mais difícil definir uma indicação injusta – por inúmeras razões, demasiado complicadas de detalhar – sirvo-me do insofismático “queque” para classificar aquilo que, não estando exactamente no plano da injustiça, está a flutuar entre o fútil e o inútil. Ora a esquerda tem que ter uma moral superior. Parece pedir demasiado, mas se isto não for a caução por se ser de esquerda, então não interessa para nada. Feito o intróito, digo mais rapidamente da minha discordância fundamental com a Marta. A justiça colectiva deve ser sempre a favor de mais liberdade, nunca o contrário. Axioma importante. Retorque a Marta: então e a liberdade do consumidor? É secundária. Porque se o objectivo for defender os direitos dos trabalhadores, tudo o que seja uma restrição desses direitos é (ou deve ser) contrária a um pensamento de esquerda. Parece atávico, atrasado, descaradamente passadista. Mas eu confesso que nem acho. Sucede que pedir a abertura de centros comerciais ao domingo obedecendo ao interesse do consumidor é abrir uma frente nos direitos adquiridos dos trabalhadores. Ah, mas os horários podem ser flexíveis – volta a Marta. Podem, mas também isso é uma supressão dos direitos dos trabalhadores. Não é que o seja directamente – ou se quiser: não é que tenha implicações legais de maior. O problema é justamente que a Marta coloca a coisa em termos legais. Errado, se me permite expressar a minha opinião. Donde, a restrição dos domingos ser uma restrição justa; não por causa do comércio tradicional – que definha precisamente porque existem tantas e tão dessiminadas grandes superfícies – mas porque coloca uma fasquia, um impedimento à total flexibilização. Saia do seu casulo legal e rapidamente constatará que aquilo por que grita é simplesmente mais flexibilização. Com a consequência de abrir um precedente: se a palavra de ordem for o interesse do consumidor, este é virtualmente infindável, e as concessões que devem ser feitas em seu benefício igualmente infindáveis. Perdoe-me o prosaísmo, mas o consumidor que se lixe! Não faxz compras ao domingo? Faz ao sábado. O consumidor e os seus interesses, não devem ser soberanos. É que por detrás de qualquer consumidor costuma estar um trabalhador – por vezes, é na primeira condição, que frequentemente nos esqueçemos disso.
    Finalmente, a Marta comete uma grande injustiça comigo. Ora se eu ao pé de, por exemplo, um lidador, fico a parecer o padre Melícias!

  18. Marta Rebelo diz:

    Bem, caro leitor «ondevaisorioqueucanto», nesse caso é mesmo falta de atenção na leitura: é que eu não proponho qualquer abaixo-assinado, apenas digo que assinarei uma das muitas petições que se encontram a circular em locais vários, nomeadamente na internet. Está a ver a diferença? É entre assinar algo preexistente, ou organizar algo para que posteriormente outros adiram assinado.
    A coisa só pode ser colocada em termos legais: é a lei que proíbe o funcionamento das grandes superfícies ao domingo à tarde. E não o faz, de modo algum, como medida de protecção dos trabalhadores. Portanto, a dialéctica é muito simples: lei proibitiva » escopo: protecção do comércio tradicional » comércio tradicional não comercia » lei proibitiva esvaziada de conteúdo. A liberdade significa, precisamente, que aqueles que podem funcionar em horário livre escolham laborar ou não. E, já agora: que tal fechar, por decreto, todo o comércio, grande, pequeno, tradicional, vanguardista, ao domingo?
    Quanto ao meu dia de compras, lamento mas não lhe cabe a gestão dos meus afazeres domésticos, sequer no plano da sugestão.
    Mas numa coisa dou-lhe absoluta, mas absolutíssima razão: comparado com muito comentador que por aqui aparece, está mais ao nível do Papa do que do Padre Melícias! Não veja, portanto, no contraditório uma crítica ao facto de argumentar, mas antes discordância quanto ao conteúdo, opiniões livres.

  19. ondevaisorioqueucanto diz:

    Longe de mim intrometer-me nos seus afazeres – domésticos ou de outra natureza. A Marta não percebeu. É claro que o “consumidor” é o consumidor abstracto. De maneira nenhuma era ingerência na sua quotidianiedade – como se a Marta fosse um rogue state e eu – elevado agora à condição de Sumo Pontifície – uma superpotência. Daí que a injunção era para todos os consumidores; estilo: consumidores de todo o mundo, vão tratar da vossa horta! Portanto não se afobe que ainda há direito à privacidade.
    A resposta que a Marta dá leva-me a crer que nos encontramos em ângulos incomensuráveis. Problema frequente de excesso de jurisdismo. Ou não. Fico perplexo: nas entrelinhas da sua resposta ressoa qualquer coisa a neoliberal uber alles (sem conotações germanofilas). Mas quem é que escolhe laborar ou não?
    Não há diferença de conteúdo entre apoiar uma petição e lançar um abaixo-assinado. Quanto muito é uma questão do grau de voluntariedade. Só isso.
    A sugestão que faz no sentido de fechar estabelecimentos comerciais ao domingo, não é um disparate completo. Várias são as cidades que o fazem. Porém, o meu ponto nem era esse. Tinha a ver com liberdades colectivas e com a defessa de certas prerrogativas do mundo do trabalho – mesmo que por portas traversas. A Marta parece não ter entendido. Ilustra apenas a grande indefinição da esquerda actual. Nesse sentido, parece que a direita conservadora se encontra mais esclarecida, e, consequentemente, coesa.
    Será triste, será apenas sinal dos tempos? Pois não sei.

  20. A.Silva diz:

    O abaixo assinado foi entregue pelas chefias aos trabalhadores das caixas nas grandes superficies com a indicação que teriam que dar conhecimento aos clientes para que o pudessem assinar,indicação que foi repetida todos os dias durante o tempo de recolha das assinaturas.No dito abaixo assinado não era dada ao cliente a possibilidade de manifestar de forma activa o seu desacordo.Se não concordava não assinava e portanto a sua opinião era dada só por omissão.Quando eu me referi a que aos trabalhadores deste País devia ser dada uma tarde por semana pensei sobretudo naqueles que tem filhos e como é sabido só ao sábado e ao domingo é que os estabelecimentos de ensino estão encerrados.Se a liberdade dos consumidores é mais importante que a possibilidade dos trabalhadores passarem uma tarde com os seus filhos podem a jornalista e os comentadores assinarem a petição posta a circular na internet na página da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição.

  21. ondevaisorioqueucanto diz:

    obrigado pelo esclarecimento A. Silva. Bom, se foi assim então torna-se óbvio que este abaixo-assassinado só pode merecer o nosso desprezo.

  22. Marta Rebelo diz:

    Ò caro ondevaisorioqueucanto, deste modo não há possibilidade de diálogo. Enquanto escolher ler o que quer nas minhas palavras, e não o que está lá escrito, lamentamos, mas não há condições.

    Quanto à petição, e pondo de parte essa mania substitutiva de afirmações por outras, eu referi-me – leia-se com sublinhado e a negrito – a petições que circulam na net. Ora, a menos que haja grandes superfícies a circular na internet, não me referia, como é óbvio, a essa outra que esteve nas caixas dos hipermercados, e que não assinei.

  23. Carlos Fonseca diz:

    Luís Lavoura,

    Definitivamente os grandes protagonistas e intervenientes deste ‘blog’ querem limitar a discussão sobre hipermercados à abertura ao Domingo e à concorrência entre a a distribuição moderna e o comércio tradicional – às vezes também emerge a questão religiosa, mas repito que, com essa, nem sequer perco tempo.
    O comércio tradicional está mais que dizimado em Portugal e quanto a isso ponto final. Paz à sua alma ! Alargar a abertura das grandes superfícies ao Domingo (informe-se dos níveis e modos de retribuição dos trabalhadores dos hiper’s) é favorecer nitidamente a participação na oferta de tais lojas e o consumismo – mais tempo de negócio – para uma actividade que, em Portugal, foi instalada de forma canhestra e sem regulação de aspectos essenciais e, por isso, de modo lesivo de diversos interesses públicos e sociais: cedência gratuita de terrenos públicos, e outros incentivos autárquicos, exploração económico-financeira sem regras que impenderam duramente sobre pequenas e médias indústrias nacionais, entretanto falidas; impactes negativos para a produção agrícola nacional. É só verificar os lineares de produtos frutícolas, p.e..
    Em suma, só as grandes multinacionais têm conseguido opôr alguma resistência a tanta prepotência consentida e mesmo essas …
    Não está em causa a lógica da existência de hipermercados obviamente, mas devem questionar-se os danos que licenciamentos e modos reais de exploração do negócio permitidos pelos poderes políticos provocaram à Economia Portuguesa, na vertente da produção interna e da própria coesão social. E este, sim, é que são temas nucleares e que deveriam ser aqui debatidos. Se se der ao trabalho de consultar a Eurocommerce (www.eurocommerce.be) poderá tentar indagar junto daquela organização as regras e os horários de funcionamento desse tipo de lojas na maioria dos países europeus – não apenas ao Domingo, como em outros dias.
    Caso vivesse em Viena, ao Domingo, teria de sujeitar-se à escolha, por exemplo, entre ficar em casa, dar uma volta pela cidade, sentar-se num cinema ou teatro, ou ir a um concerto ouvir Mozart, porque, com os hiper’s encerrados, não podia cumprir o belo costume domingueiro bem português de comprar os cotovelinhos, a farinha de trigo, o arroz -ainda por cima com o nome ‘Cigala’ – o queijo limiano, as pipocas, para os miúdos ficarem caladinhos a ver desenhos animados do DVD comprado na ‘Worten’, ou outros artigos que preferisse.
    No entanto, a Áustria, também é um pequeno País, mas que supera economicamente Portugal e quanto à formação cultural e cívica, é melhor nem falarmos…
    Marimbe-se para o dia soalheiro e para a beira-mar deste final de Verão, e no Domingo, pegue no carro e pregue com a família inteira no Colombo, no Vasco da Gama, no Fórum de Almada, no Cascais Shopping, no Norte Shopping, no Arrabida Shopping, sim porque não podemos esquecer o Norte. Aí, sim, é que o Domingo é Domingo !

  24. ondevaisorioqueucanto diz:

    Ó Carlos, desculpe a intromissão, mas você já viveu em Viena?

  25. A.Silva diz:

    Parece que a Sra.Jornalista não entendeu que a petição que circula na net tem origem na APED,que representa os hipermercados parte interessada neste assunto.O nome pomposo da campanha é “Libertate” e tem uma correntes e tudo para tornar mais apelativa a campanha aos consumidores.

  26. parece que o sr a. silva está a chamar jornalista à marta. correcção: os jornalistas neste blogue são o nuno ramos de almeida e a fernanda câncio. a marta não é nem nunca foi jornalista.

  27. ondevaisorioqueucanto diz:

    Se tem correntes, como no filme Amistad, e se promete libertar os patrões das grandes superfícies deste jugo estatal cruel e inico (diria o Camões), então vou já a correr deixar a minha assinatura.
    Faço tudo pelo direito à liberdade do Modelo-Continente, da Auchan e dos Belmiros. Libertem os prisioneiros! Deixem-nos trabalhar!

  28. Carlos Fonseca diz:

    Ondevaisorioqueeucanto,

    Acha que eu responderia a perguntas de quem usa heterónimos indiciadores de perturbação mental ?

  29. A.Silva diz:

    Peço desculpa á Sra.Marta Rebelo pela minha ignorancia

  30. Carlos Fonseca diz:

    Fernanda Câncio,

    Alguma desta gente é desinformada e, portanto, qualifica as pessoas sem conhecer o que são ou o que fazem.
    Desde que escrevam, para muitos deles, obtêm logo a ‘carteira de jornalista’…se calhar até eu já estou no sindicato dos ditos.

    A Fernanda e eu, podemos estar em desacordo em algumas coisas, mas ambos concordamos que a Marta Rebelo exerce uma profissão diferente. “A ignorância é muito atrevida” – dizia um amigo meu.

  31. ondevaisorioqueucanto diz:

    Qual é o problema de Portugal? Conjectura: estar cheio de prima-donas!
    Um heterónimo é um heterónimo é um heterónimo. Um posidónio, há-os de várias maneiras e feitios. Agora, o meu pseudónimo – porque, cum raio, eu não apareço aqui umas vezes de lidador, outras de antónio botas e ainda outras de madre teresa de calcutá – está, conquanto estoicamente, indefeso perante as mais soezes acusações. Você desilude-me. E porquê? Porque é um passive-agressive! Ora se eu apenas pretendia entabular conversa consigo por causo de um factor que pensei que tínhamos em comum: o termos vivido em Viena (e não, não desceu em mim o espírito do maestro vitorino de almeida). E isto não provém de nenhum efeito de heteronomia incontrolada. É que eu achei, verdadeiramente, que você descreveu com precisão realista (dir-se-ia hoperiana) a vida num pacato domingo em Viena. Se me enganei, pronto, já não partilahmos experiências sobre os longos passeios no Augarten, os serões no Musik Verrein, o bulício na Mariahilfestrasse, ou as putas do Gurtel. Nada de mal. Mas lembre-se do velho adágio, portuguesíssimo, perguntar não ofende.
    Agora, é justamente por ter vivido em Viena que sei que é possível viver numa cidade em que tudo se encontra encerrado ao domingo – excepto museus e casas de espectáculo, assim como cafés de bairro esparsamente plantados em esquinas desprevenidas – sem estar à beira de um ataque de nervos.
    Isto pode parecer paternalismo de estrangeirado, mas a verdade é que os portugueses já não sabem o que é viver urbanamente; o seu corolário é o de perder a urbanidade, algo que como sabiam os intelectuais que passaram por Viena na viragem do século passado se ganha com a condição citadina. É óbvio que a malta por cá a tem vindo a perder. E é verdade, amigo Carlos, em civismo levamos lições dos Vienenses. Mais engraçado, mas talvez mais inusitado, é que em simpatia também. E isso já é mais grave.
    Quanto à minha condição mental, não respondo a provocações de alguém que usa o nome Carlos Fonseca. Francamente.

  32. Carlos Fonseca diz:

    Caro ondevaisorioqueeucanto,

    Reconheço que fui incorrecto e não tenho dúvidas em pedir-lhe desculpa.

    De resto, vivi algum tempo em Viena e, como diz, também sinto que os portugueses têm perdido a urbanidade e, consequentemente, a condição e qualidade de vida em comunidade, e centrada em valores e referêncas humanísticas. Cada vez, estamos mais longe de quem não se move em torno do mercantilismo para pacóvios, corporizado por centros comerciais.

  33. ondevaisorioqueucanto diz:

    Caro Carlos

    Reconheço que a minha intromissão, um tanto abrupta, pode ter dado azo a incompreensões. Mas tudo está bem quando acaba bem.

  34. Talvez um pouco já fora de prazo, a minha opinião sobre este assunto é contudo simples: quanto mais “hipers” estiverem a funcionar ao Domingo à tarde, muitíssimo menos gente andará às voltas de carro (ou a pé) em Sintra, na Lagoa de Albufeira, em Sesimbra, ou mesmo na Almirante Reis…

    Embora me soe infantilmente simplista concluir que a actual Lei não favorece, objectiva mas indirectamente, o comércio tradicional pelo facto de este não abrir ao Domingo (!). Realmente, o “bom senso”, quando desacompanhado, engana que se farta (e parece-me perturbantemente revelador o facto de uma opinião assim tão básica poder ser oriunda de uma prestigiada seja-lá-o-que-for da FDL, desculpem-me a franqueza…)!

    Resumindo: com os “hipers” abertos ao Domingo à tarde, cada um fará as suas compras quando e onde bem entender – com vantagens quer económicas, para os consumidores, quer práticas, para quem aprecie a vida em família, ao Domingo, ao ar livre!

    Desde que, claro está, a Lei confira vantagens substanciais aos trabalhadores domingueiros – horas extra pagas a 300%, por exemplo – e não só aos dos hiper-mercados.

    Pelo menos enquanto se mantiver o actual esquema laboral cristão de “respeitar Domingos e Dias Santos de Guarda”. Ou seja, enquanto não se puder escolher livremente, ou quase, como alguém muito bem alvitrou, quais os dias da semana em que prefere folgar ciclicamente e quais os Feriados que pretende celebrar. O que significaria, porém, a necessidade de ter, pelo menos, todos os serviços públicos ininterruptamente abertos, 365 dias por ano!…

    Pessoalmente, que ainda nunca fui a Viena mas admiro o estilo de vida descrito pelos dois comentadores “vienenses” (e que vi muito semelhantemente praticado em todas as Cidades do Leste europeu que conheço), começo a constatar que, em muitos jardins públicos da zona onde habito (periferia oriental de Lisboa), aos Domingos cada vez são mais frequentados, para além dos habituais idosos (praticantes de “sueca”) e da minha, por famílias… de Leste!

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